Capítulo 3

Vance e seus companheiros entraram pela faixa rápida, enquanto Elena e eu aguardávamos na fila do lado de fora.

A brisa da noite ainda trazia um calor escaldante.

Diante da linha externa de defesa do Posto Avançado nº 3, a fila de pessoas esperando para entrar avançava lentamente.

Metralhadoras pesadas estavam montadas atrás de sacos de areia, e soldados carregando fuzis patrulhavam de um lado para o outro ao longo do corredor de isolamento feito de arame farpado.

— Deixem seus chips prontos! Escanear e verificar, um de cada vez! Quem não tiver chip, saia do cordão imediatamente, e quem invadir será morto a tiros!

Os gritos ásperos dos soldados ecoavam sem parar pelos alto-falantes.

Elena e eu estávamos no terço final do ponto de verificação, a menos de vinte metros do portão eletrônico que piscava luzes vermelhas e azuis.

Do outro lado da cerca de arame farpado ficava o alojamento dos refugiados, isolado do exterior.

Elena caminhou para a minha frente, à direita, perto da cerca de arame farpado.

Desde o momento em que entrou na área restrita, ela manteve uma postura chamativa — exibindo ao mesmo tempo a dor diante da situação dos refugiados ao redor e, de forma sutil, desfrutando do sentimento de superioridade por estar prestes a entrar no posto avançado.

A fila avançou lentamente uns dois metros.

De repente, um grito extremamente agudo e estridente veio da abertura no arame farpado à direita, rompendo o zumbido abafado.

— Por favor... por favor, alguém tenha misericórdia... salvem ele!

Era uma mulher na casa dos trinta. O cabelo estava empastado de suor e sujeira, e ela se ajoelhava do lado de fora da cerca de arame farpado, batendo a testa com força na superfície áspera de ferro. Apertava nos braços um menino envolto num casaco esfarrapado.

A criança não devia ter mais de cinco ou seis anos, com os olhos revirados e espuma branca escorrendo sem parar pelos cantos da boca.

Claramente, ele precisava de remédio e água.

Na minha vida passada, como estávamos prestes a entrar no ponto de controle, eu dei a eles toda a pouca água que me restava, mas Elena achou que não era suficiente.

Como era de se esperar, Elena fez a mesma escolha de sua vida anterior.

Eu sei o que ela está pensando. Nenhuma encenação satisfaz mais a vaidade extrema dela do que exibir sua bondade altruísta no meio de um grupo de pessoas egoístas e indiferentes.

Tirei os dois chips e os segurei entre os dedos.

Elena virou a cabeça, e seu olhar caiu sobre os dois chips entre os meus dedos. Naquele instante, um cálculo muito preciso cintilou em seus olhos.

Ela não pegou meus dois chips. Apenas estendeu a mão direita, perfeitamente limpa, com uma compaixão irresistível, e beliscou suavemente um deles.

— Este é meu, não é? — murmurou; então se virou e se lançou contra o arame farpado, sem me dar a menor chance de reagir.

— Pegue isto! — gritou Elena, com a voz trêmula, mas absurdamente alta. — Leve a criança para dentro e diga ao guarda que ele está com febre, rápido!

A área ao redor do ponto de verificação mergulhou num silêncio mortal por um segundo.

Ninguém conseguia acreditar que, num lugar onde até água era motivo de briga e gente morria, alguém realmente abriria mão do único bilhete para a sobrevivência.

No segundo seguinte, a mulher caiu num choro de partir o coração:

— Obrigada... obrigada! Você é um anjo enviado por Deus!

Um alvoroço explodiu imediatamente ao redor. As pessoas de rosto impassível na fila e os desabrigados pendurados no arame farpado concentraram seus olhares, incrédulos, em Elena.

Elena ficou diante da cerca de arame farpado, ergueu um pouco o queixo, fechou os olhos e respirou fundo.

Mas a parte mais emocionante dessa encenação mal tinha começado.

Depois de entregar o chip, Elena se virou devagar e veio até mim.

Diferente de algumas mulheres comuns, ela não me pediu o último diretamente.

Ela é uma verdadeira mestra; sabe como fazer a presa entregar a própria vida de bom grado.

— Cole — ela me encarou, com os olhos avermelhados nas bordas, a voz tão dolorida que fez as pessoas ao redor prenderem o fôlego. — Me desculpa. Mas eu não podia simplesmente ficar parada vendo aquela criança morrer, espumando pela boca.

Ela deu meio passo para trás, como se estivesse deixando suas palavras finais:

— Não se preocupe comigo, Cole. Pegue o seu chip e entre. Há dezenas de milhares de refugiados lá fora. Mesmo que eu não sobreviva esta noite se ficar aqui, não me arrependo nem um pouco. Entre e viva bem, levando minhas esperanças com você…

Que imagem perfeita de vítima.

O ar pareceu congelar naquele instante.

Centenas de olhos ao meu redor se voltaram para mim ao mesmo tempo.

— Uma mulher tão bondosa… como você consegue suportar vê-la ser deixada do lado de fora? — gritou imediatamente um homem barbudo ao lado.

— É! Sua esposa deu a vida por outra pessoa, então você devia dar o seu bilhete pra sua esposa! — emendou, com sarcasmo, outra mulher mais atrás na fila, como se não quisesse perder o espetáculo. — Você é tão forte, pode ficar lá fora e arrumar outro jeito de conseguir um bilhete. Você não tem nem esse senso de responsabilidade?

Elena manteve aquela expressão comovida e contida.

Afinal, ela conhece muito bem o meu temperamento; eu a amo tanto que não consigo ignorá-la.

Na vida passada, a cena tinha sido exatamente a mesma, e o roteiro, exatamente o mesmo.

Na vida passada, eu fiquei realmente, profundamente comovido com a nobreza dela.

Eu achei que estava protegendo um anjo.

Dei a ela o último chip que eu tinha, sem me importar com nada, e a deixei neste inferno na Terra.

Eles não sabiam qual seria o preço de ficar do lado de fora.

Na vida passada, nas duas semanas seguintes, para conseguir outro chip que me permitisse vê-la, eu assinei um acordo e fui deixado de helicóptero numa área atingida por radiação e tomada por gases bioquímicos, onde procurei suprimentos que os militares tinham deixado para trás.

Minha tíbia direita foi estilhaçada por um cano de ferro que desabou.

Arrastei de volta ao posto avançado uma perna quase amputada e, em troca, consegui um chip com o nível mais baixo de acesso.

Mas quando finalmente entrei no posto avançado, meio morto, e encontrei o “anjo” por quem eu tinha arriscado a vida… o que me esperava?

Ela tapou o nariz e franziu a testa, enojada:

— Cole, vai lavar esse fedor. O comandante Vance, o filho do chefe, vai vir inspecionar mais tarde. Você vai sujar as botas dele.

As lembranças invadiram e reviraram minha mente.

— Próximo! Mostre seu chip para verificação! Quem não tiver chip, saia agora e não bloqueie a passagem!

A dez metros à frente, ao lado da catraca eletrônica, um soldado impaciente bateu o cano do fuzil contra o corrimão de ferro, produzindo um clangor metálico estridente.

A fila parou de novo.

Elena olhou para mim com aqueles olhos frágeis, como se estivesse se despedindo.

A multidão ao meu redor apontava e sussurrava, como se eu devesse ser pregado imediatamente ao pelourinho da vergonha histórica se eu não entregasse o chip.

Eu abaixei a cabeça devagar e olhei para o chip na minha mão.

— Cole?

Ao ver minha reação, uma leve fissura surgiu na expressão de Elena.

Levantei a cabeça e primeiro lancei um olhar frio para os espectadores exaltados ao redor; depois, voltei meu olhar para a mulher parada diante de mim, o rosto ainda molhado de lágrimas.

Meus lábios não conseguiram evitar se repuxar, pouco a pouco, formando um sorriso, e então eu abri a boca devagar.

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