Capítulo 2
POV de Emilia
Brandon cambaleou para trás, levando a mão ao rosto, que já começava a ficar vermelho.
"Que merda..."
O segundo tapa acertou ainda mais forte.
"Esse foi por mentir para mim durante um ano", eu disse, com a voz tremendo de fúria. "Por me fazer acreditar que se importava comigo. Por ser um covarde de merda que nem teve coragem de terminar comigo antes de transar com a minha irmã."
"Sua vadia louca!"
Brandon avançou na minha direção, mas eu já estava me movendo.
Agarrei a bolsa de grife de Linda em cima do criado-mudo e joguei ela na cabeça dele. Acertou com um baque satisfatório.
"Acabou", eu disse, fria. "Nunca mais fale comigo. Não olhe para mim. Nem respire na minha direção. Você me dá nojo."
Então me virei para Linda, cujo sorriso debochado finalmente vacilou.
"E você... Parabéns. Ganhou o grande prêmio: um covarde traidor, com pau pequeno e sem futuro. Espero que sejam muito felizes juntos."
Não esperei resposta. Girei nos calcanhares e saí, batendo a porta com força suficiente para sacudir o batente.
O escritório do meu pai ficava no primeiro andar. Atravessei os corredores furiosa, ignorando os olhares curiosos dos convidados que ainda rondavam por ali, com o coração martelando contra as costelas.
Nem me dei ao trabalho de bater.
Empurrei a porta e entrei.
O Alfa Henry estava sentado atrás da mesa, com Dorothy apoiada na beirada ao lado dele. Os dois ergueram os olhos, assustados.
"Emilia", meu pai começou. "O que você está..."
"Você sabia?", exigi, com a voz áspera por tudo que eu tinha acabado de engolir e por tudo que já não conseguia fingir que não entendia. "Você sabia que Brandon estava me traindo com Linda?"
O Alfa Henry apenas se recostou na cadeira e me olhou com uma impaciência cansada.
"Sente-se, Emilia."
"Não."
Minha resposta saiu mais afiada do que eu esperava, e o silêncio que se seguiu fez Dorothy arquear as sobrancelhas.
"Você sabia?", perguntei de novo.
Dessa vez, meu pai nem se deu ao trabalho de mentir.
"Sabia."
A palavra atingiu mais forte do que encontrar Brandon na cama de Linda.
"Você sabia", sussurrei.
"Brandon é um guerreiro talentoso", meu pai disse, frio, como se aquilo explicasse tudo. "É um dos lobos mais promissores desta geração, e a alcateia investiu demais nele para desperdiçar o futuro dele por sentimentalismo."
Por um instante, só consegui encarar meu pai.
Eu tinha entrado naquela sala esperando raiva. Talvez até decepção.
Mas não aquela crueldade calma, prática, que tratava meu coração partido como nada além de uma estratégia ruim.
Então ele disse o que claramente estava esperando para dizer.
"Você fracassou no Despertar."
A sala ficou imóvel.
"Você teve vinte e dois anos, Emilia", continuou, a voz endurecendo a cada palavra. "E, ainda assim, depois de todo esse tempo, continua exatamente como começou."
[Sem loba.]
[Inútil.]
[Indesejada.]
Ele não precisava dizer as palavras em voz alta.
Mesmo assim, ouvi.
"Então é isso?", perguntei, a garganta se apertando em torno da pergunta. "Porque não me transformei, Brandon tem o direito de me trair, Linda tem o direito de me humilhar, e você tem o direito de fingir que nada disso importa?"
"Linda tem uma loba", Henry disparou. "Linda tem valor. Brandon precisa de uma companheira que possa ficar ao lado dele, gerar herdeiros fortes e fortalecer esta alcateia. Não você."
"Se eu era uma decepção tão grande", eu disse devagar, "então por que sequer me tiveram?"
A expressão dele mudou.
"Cuidado com o tom."
"Não", eu disse.
E, assim que a palavra saiu, tudo o que eu tinha enterrado por anos começou a subir junto com ela.
"Se você odiava tanto minha mãe, por que escolheu ela? Se odiava o que eu era, por que me deixou viver aqui por vinte e dois anos, implorando por migalhas de aprovação que nunca pretendeu me dar?"
O rosto de Dorothy se fechou.
"Já chega."
Henry bateu a mão contra a mesa. O som estalou pelo escritório.
"Escolhi essa alcateia."
Foi então que vi o envelope preto.
Dorothy pegou ele da mesa com dedos graciosos e colocou diante de mim, onde eu pudesse ver o selo de lacre prateado pressionado no papel.
O brasão dos Simons.
Meu sangue gelou antes mesmo de ela falar.
"Linda recebeu um convite da Família Simons", Dorothy disse, suave, e a doçura na voz dela revirou meu estômago. "Mas, depois de discutirmos com cuidado, seu pai e eu decidimos que você vai comparecer no lugar dela."
Por alguns segundos, não consegui compreender aquelas palavras.
Porque a Família Simons não era apenas poderosa ou rica.
Era temida.
Comentada em sussurros.
Evitada por toda família que tivesse filhas em idade de casar.
E o Alfa Sebastian Simons era o pior de todos.
Seis noivas.
Seis funerais.
"Você quer que eu substitua Linda", eu disse, cada palavra mais fria que a anterior, "porque tem medo de que ele mate ela."
"Ninguém disse isso", Dorothy respondeu.
Mas os pensamentos do meu pai atravessaram minha mente com uma clareza brutal.
[Linda é valiosa demais para arriscar.]
"É um dever", meu pai corrigiu. "A aliança com os Simons pode salvar a Alcateia Frostridge."
"E se eu morrer?"
Nenhum dos dois respondeu.
Não precisavam.
Os pensamentos do meu pai responderam por eles.
[Se ela morrer, não perdemos nada.]
Por um instante, o escritório pareceu desaparecer à minha volta.
Tudo que eu conseguia sentir era a clareza horrível de finalmente entender meu lugar naquela família.
Não como filha.
Nem mesmo como uma vergonha que queriam esconder.
Mas como um corpo que podiam mandar para o perigo porque ninguém lamentaria a perda.
Dei um passo para trás.
"Não."
Os olhos de Henry se estreitaram.
"Emilia."
"Não", repeti, mais alto dessa vez. "Não vou."
A aura de Alfa dele preencheu a sala, pesada o suficiente para pressionar meus ossos.
"Você passou a vida inteira recebendo a piedade desta alcateia. Agora vai retribuir."
"Piedade?"
Ri, embora meu peito parecesse estar se partindo.
"Você chama isso de piedade?"
"Chamo de obediência."
Então ele olhou para além de mim.
"Guardas."
A porta se abriu antes que eu pudesse alcançar ela, e dois guerreiros agarraram meus braços por trás com força suficiente para disparar dor pelos meus ombros.
Chutei, me contorci, gritei. Quando um deles me puxou para trás, enterrei os dentes no pulso dele com toda a raiva que ainda me restava.
Ele praguejou, e o aperto afrouxou.
Por um segundo selvagem, eu estava livre.
Então algo bateu com força na parte de trás da minha cabeça.
A dor explodiu em branco atrás dos meus olhos. O chão se inclinou sob meus pés e, enquanto a escuridão começava a me arrastar para baixo, ouvi os pensamentos do meu pai uma última vez, calmos e aliviados de um jeito que sua voz nunca tinha sido.
[Finalmente.]
[Esse problema está resolvido.]
A escuridão se fechou.
E, no último canto apagado da minha mente, entendi.
Ninguém na Alcateia Frostridge esperava que eu sobrevivesse.
Eles já tinham me entregue à morte.
