Capítulo 2

POV da Emilia

  A porta bateu atrás de mim, o ponto final da minha expulsão.

  Fiquei ali no corredor, olhando fixamente para o chão de madeira rachado sob meus pés. Minha bochecha ainda pulsava do tapa do meu pai, e meus dedos estavam pegajosos de sangue de tanto que eu tinha apertado os punhos.

  Mas aquela dor—não era nada comparada ao que eu sentia no peito.

  Traição. Solidão. Raiva tão aguda que ameaçava me despedaçar por dentro.

  Engoli o grito preso na garganta e caminhei rigidamente até o pequeno quarto frio nos fundos da casa. Era o antigo depósito—até minha mãe decidir que era apropriado para a desgraça da família. Eu.

  Empurrei a porta rangente e parei na entrada, olhando ao redor para a desculpa patética de quarto ao qual eu tinha sido reduzida. Um colchão fino no chão. Uma cômoda quebrada faltando uma perna. Um espelho rachado.

  Eles tinham roubado tudo de mim. Minha dignidade. Meu direito de nascença. Meu futuro.

  Mas não tinham me roubado.

  Ainda não.

  Peguei a pequena bolsa de pano que mantinha ao lado do colchão. Tinha algumas poucas coisas—algumas roupas, um livro velho com as pontas gastas e enroladas.

  Guardei tudo dentro, ignorando o tremor nos meus dedos. O relógio na parede marcava cada segundo mais perto do anoitecer.

  Hoje à noite, eu seria enviada ao palácio do Rei Alfa. Com as outras ômegas. Como gado para o abate.

  Diziam que ele era amaldiçoado. Tocada pela própria morte. Que sua cama era um cemitério de mulheres quebradas.

  Mas que escolha eu tinha?

  Meu peito subia e descia com respirações profundas e trêmulas enquanto eu ficava em frente ao espelho rachado. Meu reflexo me encarava de volta, pálido e fantasmagórico. Meus olhos estavam avermelhados de tanto chorar em silêncio por muitas noites. Meus lábios estavam rachados, e o hematoma florescendo na minha bochecha se destacava como uma marca escarlate.

  E ainda assim, em algum lugar profundo daquele reflexo, eu via algo mais—algo que eles não viam.

  Fogo.

  Limpei o sangue da palma da mão e pressionei os dedos contra o vidro.

  "Você vai sobreviver," sussurrei para mim mesma. "Você vai sobreviver a isso, mesmo que isso te mate."

  A viagem para o palácio foi em uma van preta enferrujada que cheirava a cachorro molhado e metal velho. Éramos seis ao todo, todas vestidas com o mesmo vestido cinza simples que se agarrava desconfortavelmente aos nossos corpos. Éramos sacrifícios.

  Reconheci algumas delas de outras matilhas. Algumas tremiam de medo. Outras tentavam mascará-lo com falsa bravata. Eu? Permaneci em silêncio.

  Olhei pela janela, observando as árvores passarem borradas, o céu escurecendo devorando o sol em mordidas lentas e gananciosas. Quanto mais nos aproximávamos do palácio, mais frio o ar ficava.

Diziam que o palácio do Rei Alfa estava esculpido na lateral das Montanhas Negras. Que nunca recebia a luz do sol. Que nunca havia risos ecoando dentro de suas paredes. Que era amaldiçoado... como o homem que o governava.

  Eu não sabia o que esperar. Tudo o que eu sabia era que não estava indo lá para morrer.

  Eu estava indo lá para viver.

  Quando chegamos, a lua estava alta e cheia, pendurada como uma testemunha silenciosa no céu sem estrelas. O palácio se erguia à nossa frente—pedra negra e torres pontiagudas, suas paredes cobertas de hera que mais pareciam veias do que plantas.

  Saí da van, a respiração presa na garganta.

  Os rumores não faziam jus ao lugar.

  Parecia uma fortaleza construída pela própria morte.

  Guardas estavam ao lado dos enormes portões de ferro, vestidos completamente de preto. Seus olhos nos examinavam com desinteresse enquanto o motorista da van entregava alguns papéis. Uma lista, sem dúvida.

  Fomos alinhados, inspecionados como animais no mercado. Um dos guardas desceu a linha, franzindo o nariz enquanto nos examinava.

  Ele parou na minha frente.

  "Nome," ele latiu.

  "Emilia," respondi, com a voz firme.

  Ele ergueu uma sobrancelha para mim. "Filha de?"

  Minha mandíbula se apertou. "Alfa Gregor da Matilha da Lua Vermelha."

  Isso o fez pausar. "Filha do Alfa?"

  "Não mais," murmurei.

  Ele me olhou novamente, e eu vi um lampejo de algo em seus olhos—pena? Curiosidade? Desapareceu tão rápido quanto veio.

  "Anda," ele ordenou, apontando para o portão.

  Fomos conduzidos como ovelhas.

  Lá dentro, o palácio estava estranhamente silencioso. As paredes de pedra eram frias ao toque, os corredores longos e estreitos. O ar cheirava a cinzas velhas e algo metálico—sangue, talvez.

  Uma mulher em um vestido preto justo, com olhos afiados e um tom de voz ainda mais cortante, nos recebeu no salão principal.

  "Vocês permanecerão em silêncio, a menos que sejam chamados. Vocês não falarão sobre o Rei, a menos que sejam ordenados. Vocês não olharão nos olhos dele."

  Ela andava na nossa frente como um predador.

  "Se forem chamados, vocês irão. Sem protestar. Sem hesitar. Se gritarem... ninguém virá."

  Outra garota à minha esquerda choramingou.

  Os olhos da mulher se voltaram para ela. "Não testem a misericórdia do Rei. Ela não existe."

  Ela se virou completamente para nós. "Vocês serão agora levadas para seus aposentos. Uma de vocês será convocada esta noite."

  Ficou em silêncio enquanto ela andava, olhando para cada uma de nós como se estivesse decidindo quem seria adequada para o abate esta noite.

  Seus olhos finalmente se fixaram em mim.

  Eu não me mexi.

  Seus lábios se curvaram em algo que não era bem um sorriso.

  "Levem ela primeiro."

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