Capítulo 5

POV de Emilia

  O quarto estava silencioso.

  Silêncio mortal.

  Mesmo com os suaves soluços das meninas abafados pelas cobertas, mesmo com o farfalhar áspero dos membros se mexendo inquietos nos beliches, o silêncio parecia alto demais. Soava nos meus ouvidos como um sino de alerta, agudo e implacável.

  Eu estava deitada de lado, de costas para as outras, olhando fixamente para a parede, olhos bem abertos. Não tinha certeza se alguém realmente dormiu. De verdade. Como poderiam? Todas estávamos esperando o mesmo destino—esperando ser chamadas para a cama do monstro e nunca mais voltar.

  Mas a maioria delas já tinha desistido. Dava para ver nos olhos fundos, no jeito que os ombros caíam com a derrota. Elas não estavam planejando nada. Só... esperando.

  Eu não.

  Meu coração batia tão forte que doía, mas eu não estava esperando a morte. Eu estava esperando o momento certo.

  E quando ele chegou—quando o quarto finalmente se acalmou em uma frágil quietude, do tipo que vem com o desespero profundo—eu me movi.

  Devagar. Cuidadosa. Silenciosa.

  Tirei o cobertor e deslizei minhas pernas até o chão. A pedra fria me fez estremecer, mas eu não parei. Não podia parar. Não agora.

  Rastejei pelo quarto, passando pela menina no canto que ainda tremia no sono.

  Não olhei para trás.

  Minha mão agarrou a maçaneta de metal da porta. Exalei pelo nariz e a girei lentamente. A porta rangeu levemente, e eu congelei. Nada se mexeu. Ninguém se agitou.

  A empurrei apenas o suficiente para sair e a fechei atrás de mim.

  E então estava no corredor.

  Sozinha.

  O ar estava mais frio aqui fora. Mais denso. Como se o próprio palácio estivesse prendendo a respiração, esperando para ver o que eu faria.

  Havia um guarda ao lado da porta, mas ele estava roncando suavemente, cabeça inclinada para trás, braços cruzados sobre o peito.

  Graças à Deusa.

  Dei um passo, depois outro, prendendo a respiração a cada um.

  Não faça barulho. Não tropece. Não morra.

  O corredor se estendia diante de mim em um silêncio assustador. Apenas o luar entrando pelas janelas de vidro oferecia orientação, pintando cores fraturadas no chão de pedra fria.

  Fiquei nas sombras, pressionando-me contra a parede, meus pés se movendo sem fazer som.

  Eu não sabia para onde estava indo—apenas que a floresta estava em algum lugar além das paredes do palácio, e eu tinha que chegar lá. Esse era o único plano que eu tinha.

  Sobreviver.

  O corredor se curvava à frente, mais escuro agora. O luar não chegava aqui. As sombras eram mais espessas, como se estivessem vivas, respirando.

  E então eu ouvi.

  Um rosnado.

 Baixo. Gutural. Feroz. Ressoou pelo corredor como uma tempestade, vibrando pelas paredes, pelos meus ossos, direto para o meu âmago.

  Eu congelei.

  Cada instinto gritava para eu correr. Me esconder. Voltar. Mas algo mais—algo que eu não conseguia explicar—me manteve no lugar.

  E então... eu me virei.

  Como se eu não estivesse no controle das minhas próprias pernas.

  Caminhei em direção ao som.

  Cada passo mais pesado que o anterior, como se estivesse andando em melado, como se o destino estivesse tentando me puxar de volta. Mas eu continuei me movendo.

  O corredor torcia e virava até que eu encontrei a porta. Pesada. De ferro. Fria.

  Os rosnados estavam mais altos agora. Rosnando. Como se a criatura atrás da porta estivesse em agonia.

  Sem pensar, pressionei a maçaneta. Não estava trancada.

  Ela se abriu com um rangido baixo.

E o que vi lá dentro me fez prender a respiração.

  Correntes.

  Em todo lugar.

  Presas nas paredes, no chão, no teto—todas conectadas a uma besta.

  Mas não era um lobo comum.

  Isso... isso era outra coisa.

  Duas vezes o tamanho de qualquer lobo que eu já tinha visto. Músculos ondulavam sob a pelagem negra como a meia-noite. Garras longas cravavam no chão de pedra, deixando marcas profundas e furiosas. Seus olhos brilhavam em um dourado ardente, selvagens e torturados.

  E seus dentes... Estavam à mostra, pingando saliva, a boca aberta em um rosnado furioso enquanto puxava as correntes, desesperado para se libertar.

  Era belo e horrível.

  Não era um animal.

  Era um monstro.

  E então... seus olhos encontraram os meus.

  No momento em que me viu, perdeu a cabeça. Rugiu, puxando as correntes com uma violência que sacudiu a sala. Eu recuei, o medo percorrendo meu corpo.

  Ele me mataria. Me despedaçaria.

  Mas eu não corri.

  Não sei por quê.

  Minhas pernas estavam paralisadas, minha mente gritava, mas meu coração... meu coração estava se partindo.

  Porque por trás de toda aquela fúria, toda aquela raiva, havia dor.

  Muita dor.

  E antes que eu percebesse, dei um passo à frente.

  "Não," sussurrei para mim mesma. "Isso é estupidez. Você vai morrer."

  Mas meus pés não ouviram.

  Outro passo.

  A besta rosnou mais alto, puxou novamente. Uma das correntes se soltou parcialmente da parede.

  Eu deveria ter gritado.

  Em vez disso, caminhei mais perto.

  Mais perto.

  Até que fiquei bem na frente dele.

  Ele rosnou, olhos semicerrados para mim, peito arfando a cada respiração torturada.

  Levantei minha mão lentamente.

  Ele recuou ligeiramente, músculos tensos, pronto para atacar.

  "Eu não vou te machucar," sussurrei, a voz trêmula.

  Eu não sabia com quem estava falando.

  Eu nem sabia por que me importava.

  Mas algo me dizia que ele não era apenas um monstro.

  Ele estava preso. Assim como eu.

  E quando meus dedos tocaram sua pelagem, ele se acalmou.

  Instantaneamente.

  Não mais rosnados.

  Apenas respirações pesadas.

  Então, lentamente, ele se abaixou no chão, a cabeça enorme roçando na minha palma. Ele choramingou—um som suave e de partir o coração.

  E então... Ele me envolveu com seus braços gigantes.

  Sim. Braços.

  Eu ofeguei.

  Ele me segurou firmemente, enterrando a cabeça no meu ombro, soltando outro choramingo suave.

  Eu estava paralisada.

  Completamente atordoada.

  Meu coração disparava.

  Ele não me machucou.

  Ele não mordeu, arranhou ou dilacerou.

Ele me segurou.

E eu... Eu não consegui me afastar.

Eventualmente, meu corpo relaxou, só um pouco. Não consegui dormir, mas fiquei. Porque no momento em que tentei me mover, ele rosnou novamente, baixo e ameaçador. Então permaneci ali, nos braços de uma besta que deveria ter me matado, mas não matou.

Eu não sabia o que isso significava.

Mas algo nisso parecia importante.

Eu não percebi que tinha adormecido até sentir calor nas minhas costas. Um peito sólido. Braços humanos.

Eu despertei com um sobressalto.

A besta tinha desaparecido.

Em seu lugar, um homem. Seu braço estava ao meu redor, possessivo e forte.

Eu entrei em pânico.

Afastei-me dele, o coração na garganta, as mãos tremendo.

Ele não se mexeu.

Ainda dormindo.

Eu não ousei olhar para seu rosto.

Eu não podia.

Eu precisava sair.

Agora.

Eu fugi.

Corri daquele quarto como se minha vida dependesse disso, sem ousar olhar para trás.

Porque eu tinha a sensação de que acabara de destruir a única chance que tinha de liberdade.

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