Capítulo 1
POV da Amanda
O melhor amigo do meu marido, Dante, o Luigi, morreu há três meses e, no último suspiro, fez o Dante prometer que cuidaria da viúva grávida dele, Maggie. A partir daquele momento, a Maggie invadiu a nossa vida — e eu estava grávida de só quatro meses naquela época.
Aí a Maggie foi pega no meio de um tiroteio de gangue. Ela precisou de uma transfusão de sangue de emergência e tinha um tipo raro — Rhnull. E eu também sou Rhnull.
Pra salvar a Maggie e o bebê dela, o Dante me obrigou a abortar o meu.
...
Ao ouvir o Dante dizer ao médico, sem hesitar, para abortar o meu bebê, eu não consegui respirar e tive que me apoiar na parede pra não cair. “O que foi que você acabou de dizer?”
Ele se virou pra mim, e eu vi dor nos olhos dele, mas por baixo de tudo havia algo absolutamente inflexível. “O Luigi era meu melhor amigo, Amanda. Eu prometi a ele que ia proteger a Maggie e o bebê. Eu não posso deixar os dois morrerem.”
“Mas esse bebê é SEU!” Eu agarrei o braço dele, as unhas cravando por cima da manga. “Dante, você tem ideia do quanto foi difícil pra eu engravidar? Dois anos tentando! Os médicos disseram que era quase impossível!”
O maxilar dele se contraiu e ele não conseguiu encarar meus olhos. “A gente ainda é jovem. A gente pode tentar de novo depois que você se recuperar. Mas o bebê do Luigi… só tem uma chance de salvar o bebê do Luigi.”
Eu encarei aquele homem que tinha prometido me amar e me proteger e, de repente, eu estava olhando pra um completo estranho.
“A senhora Rossi está entrando em parada!” Uma enfermeira saiu às pressas do centro cirúrgico. “A gente precisa daquela compatibilidade AGORA, ou vamos perder ela!”
Antes que eu conseguisse sequer entender o que estava acontecendo, o Dante assentiu para as enfermeiras. Mãos me agarraram, me arrastando em direção à sala de preparo. Eu me contorci, lutei, mas eram muitos.
“Não! Espera, por favor, espera!” Eu gritava. “Dante! DANTE! Não deixa eles fazerem isso! Eu nunca vou te perdoar, tá me ouvindo? NUNCA!”
Mas ele já tinha virado as costas, já estava caminhando em direção ao quarto da Maggie.
Eles me prenderam numa maca e eu continuei lutando contra as tiras.
“Por favor”, eu implorei. “Por favor, tem que existir outro jeito. Não dá pra achar outro sangue? Não dá pra vocês—”
“Segurem ela firme”, alguém ordenou.
Mais mãos pressionaram meus ombros, minhas pernas, me imobilizando.
A primeira onda de dor veio tão de repente e tão forte que eu nem consegui gritar; ficou presa na minha garganta, me sufocando. Depois veio o puxão, a raspagem, a sensação de algo sendo arrancado lá do fundo do meu corpo, de onde deveria estar seguro.
Meu bebê.
“Para!” As palavras saíram em meio a um soluço. “Por favor, para, Deus, dói demais—”
—Estamos indo o mais rápido que dá, dona Russo.
Mas rápido não era rápido o bastante; a dor continuava vindo em ondas.
—Por favor! —eu mal conseguia raciocinar. —Por favor, não tirem o meu bebê, por favor...
Ninguém me respondeu.
Quando a dor chegou ao auge, eu gritei. Depois, tudo ficou preto.
Quando acordei, ainda chovia lá fora.
Minha barriga parecia vazia, aquela sensação eletrizante de vida se mexendo dentro de mim substituída por uma dor fria, aguda. Eu estava num quarto particular de recuperação, com um soro ligado à minha mão.
A porta se abriu e Dante entrou, exausto, segurando lírios brancos, as flores preferidas da Maggie.
—Amanda. Você acordou. —A voz dele veio cuidadosa. —O médico disse que correu tudo bem. A Maggie está estável. Ela vai sobreviver.
Eu encarei o teto, com a garganta apertada demais para falar.
Ele colocou as flores no criado-mudo e foi pegar minha mão; eu puxei de volta num tranco.
—Não fica assim —ele disse, baixo. —Foi uma emergência. A Maggie é a viúva do Luigi. Se ela tivesse morrido, como eu ia encarar ele? Você é uma Russo. Você entende como família funciona. Como lealdade funciona.
—Lealdade? —minha voz saiu quase num sussurro. —Você retalhou o nosso bebê e quer falar de lealdade?
O maxilar dele travou.
—Cuidado com o que você fala. Não tinha outra escolha. Eu já providenciei o melhor acompanhamento no pós-operatório. Quando você se recuperar, a gente tenta de novo. Eu te devo uma. Pede o que quiser. A villa na Sicília? O iate que você queria?
Eu finalmente olhei pra ele, e alguma coisa no meu peito pareceu morrer de vez.
—Quanto vale uma vida pra você, Dante? Ou a gente é só coisa que você possui? Coisa que você pode sacrificar sempre que for conveniente?
—Não começa com drama. —Ele estava na defensiva agora, culpado e irritado ao mesmo tempo. —Eu tô exausto. A Maggie ainda precisa de monitoramento. Só descansa e para de tocar nesse assunto.
Ele virou pra sair.
—Leva suas flores —eu disse, com a voz gelada. —Elas têm cheiro de morte.
Ele parou, imóvel por um segundo, depois saiu e bateu a porta.
Eu arranquei o soro da mão, vendo o sangue pingar nos lençóis brancos. Eu não sentia nada; tudo tinha ficado quieto.
Puxei meu celular debaixo do travesseiro, com as mãos tremendo enquanto eu discava um número que tinha decorado, mas nunca tinha tido coragem de ligar.
—Fala. —A voz dele era um veludo áspero.
—Você me disse uma vez que, se eu mudasse de ideia, a sua porta ia estar aberta. —Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia.
Uma pausa. Então um riso baixo que me deu arrepios na espinha.
—Então... eu mudei —eu continuei. —Mudei de ideia, quer dizer. Eu quero me casar com você, Severino. Um mês.
