Capítulo 2
POV da Amanda
Três dias depois de eu receber alta, Dante trouxe a Maggie para a mansão dos Russo.
Eu observei do patamar do andar de cima enquanto os empregados corriam de um lado para o outro, transformando o que antes era o nosso quarto de casal numa espécie de palácio cor-de-rosa de princesa. Maggie estava sentada no sofá da sala, vestindo uma camisa masculina enorme, embalando uma tigela de sopa no colo.
— Amanda — ela me chamou quando me viu na escada. A voz saiu baixa, trêmula. — Me desculpa… Se não fosse por mim, seu bebê ainda…
As lágrimas se acumularam nos olhos dela.
Eu desci devagar, com o olhar frio e firme.
— Se você está tão arrependida, por que não morre logo?
Dante tinha acabado de entrar pela porta da frente. Na hora, o rosto dele escureceu.
— Amanda! Quando foi que você ficou tão cruel? A Maggie é nossa visita. Ela é uma paciente!
— Paciente? — eu ri, com o som amargo preso na garganta. — Vestindo a camisa do meu marido, morando na minha casa… é isso que você chama de visita? Eu chamo de cara de pau.
As mãos da Maggie começaram a tremer. A tigela escorregou, e a sopa quente se espalhou pelos meus pés descalços.
— Ai, não! Me desculpa… eu não queria— — Ela estendeu a mão pra mim, mas de algum jeito tropeçou pra trás, e a testa dela bateu com tudo na quina da mesa de centro.
— Maggie! — Dante me empurrou pro lado e a puxou para os braços. — Você se machucou?
Eu cambaleei com o empurrão, e minhas costas bateram na parede. Uma fisgada atravessou meu abdômen.
— Dante, tá doendo… — Maggie choramingou contra o peito dele. — A Amanda provavelmente ainda me culpa. Tudo bem. Eu vou embora. Eu não quero ficar entre vocês dois.
— Você não vai a lugar nenhum! — Dante se virou contra mim, os olhos em chamas. — Quem tem que sair é a pessoa com essa atitude nojenta. Amanda, pede desculpa pra Maggie. Agora.
Eu me endireitei devagar, ignorando a dor que irradiava da minha barriga. Olhando para os dois, eu não senti nada além de nojo.
— Pedir desculpa? — eu sorri. — Você não merece.
Eu virei as costas e subi as escadas, com o ódio crescendo a cada passo.
...
— Brutus! Brutus!
Na manhã seguinte, eu procurei no jardim, desesperada. Brutus era um doberman que meu pai me deu antes de morrer, meu único companheiro leal nessa maldita família, meu único consolo depois de perder meu bebê.
Normalmente, ele vinha correndo no instante em que ouvia minha voz.
Um pavor pesado se instalou em mim. Eu segui pelo gramado até os fundos da mansão, parando por fim na beira da piscina.
A água tinha ficado num tom pálido de vermelho.
Brutus boiava na superfície, sangue escorrendo do nariz e da boca, o corpo já duro.
— NÃO! — eu pulei na água gelada sem pensar, arrastando o corpo pesado dele até a borda.
Eu estava encharcada, tremendo, embalando o corpo gelado dele nos meus braços.
— Nossa… o que aconteceu aqui? — a voz da Maggie veio de trás de mim. Ela estava ali, de roupão, com aquela expressão falsa de inocente no rosto.
— Foi você. — Eu me virei num golpe, com os olhos arregalados, fora de mim. — Você matou ele.
Maggie se aproximou e falou bem perto, baixando a voz:
— Foi, fui eu. Aquele bicho ficou latindo pra mim ontem à noite. Não consegui dormir. Aí eu dei pra ele uma coisinha especial.
Eu avancei nela, as mãos indo direto pro pescoço dela.
— Eu vou te matar!
— Socorro! Ela tá tentando me matar! — Maggie gritou na mesma hora.
Dante e os homens dele vieram correndo. Ele bateu o olho na cena e, sem hesitar, me deu um tapa no rosto.
Eu caí para trás, tombando ao lado do corpo do Brutus. O sangue encheu a minha boca.
“Que porra é essa? O que deu em você?!” Dante puxou a Maggie para trás dele, me encarando como se eu fosse lixo. “Você enlouqueceu de vez?”
“Ela matou o Brutus... ela matou o meu cachorro!” Apontei para ela, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
“É só um cachorro!” Dante gritou. “A Maggie disse que ele tentou morder ela ontem à noite! Se livrar de um animal perigoso pra proteger a família, qual é o problema? Você tá pronta pra cometer assassinato por causa de um cachorro?”
“Um cachorro?” Eu comecei a rir. “Dante, meu bebê foi só uma moeda de troca pra você, meu cachorro é só um animal. Então eu sou o quê? Eu sou só mais uma cadela que você mantém por perto?”
Algo tremulou nos olhos dele — dúvida, talvez culpa —, mas o orgulho não deixou que ele recuasse. “Isso é ridículo! Tirem essa coisa daqui, e não sujem o quintal. Amanda, vai pro seu quarto e pensa no que você fez. Não sai de lá até entender.”
Os seguranças arrastaram o corpo do Brutus. Eu não lutei contra eles, só fiquei olhando; todo o amor que eu tinha por Dante Russo afundou até o fundo daquela piscina, junto com o meu cachorro.
Eu voltei para a mansão atordoada. No meu quarto, tirei da gaveta os papéis do divórcio — documentos que eu tinha preparado nos últimos dias.
Respirei fundo e fui até o escritório do Dante.
Ele estava no sofá, revisando documentos, com o cansaço estampado no rosto. Quando empurrei a porta, ele levantou os olhos, franzindo a testa.
“Amanda, e agora?”
Eu não respondi. Só caminhei até ele e coloquei os papéis do divórcio na mesa de centro, à frente dele.
Ele baixou o olhar. A expressão dele virou pedra.
“Que porra é essa?”
“Assina, Dante.” Minha voz saiu estranhamente calma. “Vamos nos divorciar.”
Ele se levantou num pulo, espalhando os papéis. “Você perdeu a cabeça?! Amanda, tô te avisando: não vem me ameaçar com divórcio!”
Eu sustentei o olhar dele. “Eu não estou ameaçando. Eu estou falando sério.”
Ele hesitou e então riu, frio. “Você acha que eu vou acreditar nisso? Pra onde você iria sem mim? Amanda, não seja ingênua.”
Ele veio na minha direção, com os braços abertos como se fosse me abraçar, mas eu empurrei ele.
“Quando a Maggie tiver o bebê, eu mando ela embora.” O tom dele amaciou, como se estivesse tentando convencer uma criança teimosa. “Amanda, eu não vou me divorciar de você. A gente vai ter mais filhos.”
Eu encarei os olhos dele. “Dante. Assina. Os. Papéis.”
A paciência dele se quebrou. Ele se virou e foi na direção da porta, furioso.
“Nem pensar.”
A porta bateu com força. Eu fiquei sozinha no escritório vazio, oca por dentro.
Na manhã seguinte, eu bati na porta do quarto da Maggie.
Ela abriu, um lampejo de surpresa passando pelo rosto antes de virar um sorriso convencido.
“Olha só. Amanda. Veio gritar comigo de novo?”
Ela se encostou no batente, uma mão pousada na barriga de grávida, exalando confiança.
Eu mantive a expressão neutra. “Eu quero fazer um acordo com você.”
Ela arqueou uma sobrancelha. “Que tipo de acordo?”
“Você não quer ser a Sra. Russo? Faça o Dante assinar os papéis do divórcio. Eu vou embora. O lugar vai ser todo seu.”
