Capítulo 3

POV da Amanda

Os olhos da Maggie se arregalaram, me encarando sem acreditar.

— Você... você tá falando sério?

— Tô.

Ela me encarou por alguns segundos e, de repente, caiu na risada. O sorriso dela era cheio de triunfo e maldade.

— Fechado.

Naquela noite, eu esperei, mas não ouvi nada da Maggie. Mesmo assim, eu já tinha deixado tudo resolvido — acontecesse o que acontecesse, amanhã eu iria embora.

Acordei cedo na manhã seguinte e fiquei deitada, com a cabeça girando em torno disso.

Será que ele ia assinar mesmo? Ou a Maggie só estava brincando comigo?

No instante em que esse pensamento passou pela minha mente, a porta do quarto se escancarou.

Maggie entrou sorrindo, com um documento nas mãos. Até o jeito de andar dela transbordava satisfação.

— Aqui, Amanda. — Ela jogou o documento na minha frente. — O Dante já assinou. Agora você pode sumir.

Eu me abaixei e peguei as folhas. Quando vi a assinatura firme do Dante, senti como se alguém tivesse agarrado meu coração e apertado.

Agora era isso. O fim.

— Co... como você conseguiu? — minha voz saiu rouca.

Maggie riu, toda convencida, e se sentou à minha frente, os dedos acariciando de leve a própria barriga.

— Foi fácil. Eu só precisei sussurrar no ouvido dele: “Dante, eu quero que o bebê do Luigi tenha uma família completa”, e ele concordou com tudo.

Ela baixou ainda mais a voz.

— Amanda, quer saber? Homem não resiste à doçura de uma mulher. Pena que você é tão dura. Você merecia ser descartada.

Doçura?

Quase dei risada.

Eu tinha perdido um bebê por causa dele, suportado incontáveis noites sozinha esperando por ele. Se isso não era doçura, então o que era?

Mas eu não disse nada. Só olhei para ela em silêncio.

Maggie se levantou. Já na porta, virou-se.

— Não esquece de sair daqui até amanhã. Mal posso esperar pra me mudar pro quarto principal.

A porta bateu de novo.

Eu me sentei no sofá, agarrando os papéis do divórcio.

Não sei quanto tempo fiquei ali, até meus dedos ficarem dormentes.

Por fim, eu me levantei, abri o armário e puxei tudo pra fora. Todas as fotos, todas as cartas e aquela imagem amassada do ultrassom — a única prova de que meu bebê um dia existiu.

Levei o monte até a lareira, me ajoelhei e comecei a alimentar as chamas com elas, uma por uma, vendo memórias virarem cinzas diante dos meus olhos.

A luz do fogo refletia no meu rosto. Eu não chorava mais.

Mas meu peito doía. Uma dor surda e constante, como se alguém estivesse me esvaziando devagar com uma faca cega.

O último item era o ultrassom. Encarei aquela manchinha pequena e borrada. Era o meu bebê — o meu bebê que eu nunca pude conhecer.

— Me desculpa — sussurrei para a imagem. — A mamãe não conseguiu te proteger.

Eu joguei no fogo e fechei os olhos.

Quando abri de novo, as chamas já tinham baixado. Só restava um monte de cinza preta.

Eu me levantei, fui até a cama e tirei do dedo o anel de diamante.

Esse anel já tinha sido meu tesouro mais precioso. O Dante tinha colocado ele no meu dedo com as próprias mãos no dia em que me pediu em casamento. Eu me lembrava dele ajoelhado, em uma perna só, com os olhos tão sinceros.

Eu não vou duvidar de que o amor dele foi real naquela época, mas o coração é uma coisa instável.

Coloquei a aliança no criado-mudo, em cima dos papéis de divórcio assinados.

Depois peguei uma tesoura, agarrei uma mecha do meu cabelo comprido e cortei sem hesitar.

Na tradição siciliana, isso significava cortar todos os laços.

Deixei a mecha ao lado dos papéis e, em seguida, me virei para o guarda-roupa.

Não levei uma única coisa que a família Russo tivesse comprado para mim.

Vesti apenas um vestido meu, vermelho vivo.

Eu tinha esse vestido desde antes do casamento. Vermelho como fogo, como sangue. Dante nunca me deixou usá-lo; dizia que era chamativo demais, que não era adequado para uma dama da família Russo.

Mas eu não sou mais essa dama, sou?

Arrumei minhas coisas e me preparei para ir embora.

A mansão estava estranhamente silenciosa, já que era o dia de folga dos empregados; nenhum funcionário tinha aparecido para trabalhar.

Evitei as câmeras de segurança com cuidado enquanto seguia para a saída dos fundos.

Um Rolls-Royce Phantom preto esperava ali, silencioso nas sombras.

O vidro desceu, revelando metade de um rosto de traços bem definidos. O homem segurava um charuto entre os dedos. Através da fumaça, aqueles olhos profundos, de gavião, irradiavam uma intensidade sufocante.

Abri a porta do carro e entrei.

— Já se decidiu? — Ele apagou o charuto e se virou para me encarar.

O olhar dele caiu no hematoma no canto da minha boca, a marca do tapa que Dante tinha me dado. Vi a expressão dele ficar ainda mais fria.

— Por favor, me leve embora. — Encarei os olhos dele sem desviar. — E o casamento em um mês. É só isso que eu estou pedindo.

De repente, ele estendeu a mão. As pontas ásperas dos dedos dele roçaram de leve no ferimento no meu lábio, num gesto surpreendentemente delicado.

Eu não me afastei. Só olhei para ele, em silêncio.

— Vingança é só os juros — a voz grave dele preencheu o espaço pequeno. — A partir de hoje, você é a senhora da família Severino. Lembre-se: ninguém vai encostar em você de novo.

Ele tirou o casaco preto e colocou sobre meus ombros finos. O casaco ainda guardava o calor do corpo dele e um leve cheiro de charuto.

Eu não disse mais nada. Apenas fiquei olhando pela janela.

Foi quando meu celular vibrou de repente.

Um nome que eu conhecia bem demais apareceu na tela: Dante.

Sem hesitar, apertei “recusar”.

— Amanda, você... — Ele parou no meio da frase.

— Não tem mais nada a dizer. — Eu me recostei no banco. — A partir de agora, Dante e eu não temos mais nada a ver um com o outro.

Abri meus contatos, achei o nome dele; meu dedo pairou sobre a tela por um segundo.

Então apertei “Adicionar à lista negra”.

Confirmar.

Dante, de agora em diante, você não vai deixar nenhum rastro no meu coração.

POV do Dante

A ligação do Dante foi encerrada de novo, e a tela, fria, voltou a exibir: “Chamada recusada”.

Ele franziu a testa com força enquanto discava outra vez, apenas para ouvir a voz mecânica feminina: “O número que você ligou está ocupado...”.

Cada vez mais ansioso, Dante pisou fundo e voltou para a villa. Ele empurrou a porta do quarto deles; como esperava, ela não estava lá.

O quarto estava completamente silencioso, com um cheiro de queimado no ar.

— Amanda?

Nenhuma resposta.

Ele foi até a cama e viu a aliança solitária, junto dos papéis do divórcio e da mecha de cabelo embaixo dela.

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