Capítulo 1 A proposta
Valentina Montenegro
O elevador subiu em silêncio absoluto, um silêncio tão denso que eu quase conseguia ouvir o próprio coração batendo contra as costelas. O espelho de aço polido refletia uma mulher de vinte e sete anos com os cabelos pretos presos num coque severo demais para o meu rosto, maquiagem discreta que não conseguia esconder as olheiras profundas e um vestido preto simples, comprado em promoção três anos antes, que ainda servia porque eu mal comia. As minhas mãos, apertadas em volta da alça da bolsa de couro sintético, tremiam discretamente. Eu as escondi atrás das costas quando as portas se abriram no trigésimo sétimo andar do edifício de vidro e concreto no coração de São Paulo.
O escritório de Adriano Vilela ocupava quase metade do andar. Paredes de mármore branco, carpete cinza-chumbo que engolia o som dos passos, e um cheiro frio de ar-condicionado misturado a café caro e papel novo. A recepcionista, uma loira de expressão neutra, levantou os olhos apenas o suficiente para confirmar o meu nome.
— Senhora Montenegro. O doutor Vilela a espera. Pode entrar.
Eu caminhei pelo corredor estreito sem responder. Cada passo ecoava dentro de mim como um tambor de guerra. Eu conhecia aquele tipo de lugar. Lugares onde homens poderosos decidiam o destino de pessoas como eu com a mesma indiferença com que assinavam um cheque de gorjeta. Desde que o meu pai morrera, seis meses antes, a minha vida se resumira a correr de um credor para outro, a mentir para a minha irmãzinha de dezessete anos, Isabela, dizendo que tudo ia ficar bem, enquanto o tratamento experimental no hospital particular ameaçava ser interrompido a qualquer momento por falta de pagamento.
A sala do advogado era maior do que o apartamento inteiro onde eu e Isabela morávamos no Brás. Janelas do chão ao teto mostravam a cidade cinzenta sob um céu de outono. Adriano Vilela, um homem de cerca de cinquenta anos, magro, cabelos grisalhos penteados para trás e óculos de armação fina, levantou-se apenas o suficiente para cumprir o protocolo. Não estendeu a mão.
— Sente-se, senhorita Montenegro.
Eu permaneci de pé por dois segundos a mais do que o necessário, só para provar a mim mesma que ainda podia escolher alguma coisa. Depois sentei-me na cadeira de couro preto em frente à mesa de madeira escura. A bolsa ficou no colo, como um escudo.
— O senhor pediu para eu vir. Estou aqui — disse eu, a voz firme apesar do nó na garganta. — Direto ao ponto, por favor. Não tenho tempo a perder.
Vilela abriu uma pasta grossa. O som do papel ecoou na sala silenciosa.
— Seu pai, Ricardo Montenegro, deixou uma dívida consolidada de vinte e três milhões de reais com o Grupo Ferraz. Dívida que, segundo os documentos que temos, ele transferiu informalmente para o nome da filha mais velha — a senhora — poucos dias antes do… acidente.
A palavra “acidente” saiu da boca dele com um tom quase irônico. Eu senti o sangue gelar.
— Meu pai está morto. Eu não herdei nada além de vergonha e contas. O senhor não pode me cobrar o que eu não tenho.
— Pode, sim. A lei é clara em casos de fraude sucessória. E o Grupo Ferraz não tem o hábito de perdoar. — Vilela tirou um envelope de dentro da pasta e o deslizou na minha direção. — Dentro há o extrato atualizado. Juros, multas, bloqueio de bens. Sua irmã, Isabela Montenegro, dezessete anos, está internada no Hospital Sírio-Libanês sob tratamento experimental para leucemia aguda. O convênio particular vence em onze dias. Sem o pagamento integral da próxima etapa, ela será transferida para a rede pública. A senhora sabe o que isso significa para o prognóstico dela, não sabe?
Eu não abri o envelope. Já conhecia aqueles números de cor. Vivia com eles na cabeça todas as noites, quando Isabela dormia e eu ficava acordada contando quantos dias ainda restavam. Levantei os olhos para o advogado, o orgulho queimando por baixo do desespero.
— O que o senhor quer de mim, de verdade?
Vilela inclinou-se para a frente, entrelaçando os dedos.
— Não sou eu quem quer. Sou apenas o intermediário. Meu cliente, o senhor Dante Ferraz, propõe um acordo. Um casamento civil de doze meses de duração. A senhora se torna sua esposa legal. Em troca, a dívida de vinte e três milhões é considerada quitada no ato da assinatura do contrato. Além disso, o tratamento completo de sua irmã será pago integralmente, incluindo qualquer complicação futura, por tempo indeterminado. Proteção jurídica total. Segurança residencial. Uma mesada generosa durante a vigência do casamento. Ao final dos doze meses, anulação limpa, sem contestação, e a senhora sai com uma quantia suficiente para recomeçar a vida em outro país, se desejar.
O silêncio que se seguiu foi tão pesado que eu quase engasguei nele. Senti o peito apertar. A imagem de Isabela no hospital, pálida, com o cabelo ralo caindo aos poucos, invadiu minha mente com uma força brutal. Lembranças de infância se sobrepuseram: o pai rindo alto demais em jantares caros, a mãe já morta há anos, a casa grande que foi sendo vendida pedaço a pedaço, os colegas de escola que sumiram quando o escândalo estourou. Eu trabalhara desde os quinze anos — primeiro como caixa de farmácia, depois em uma loja de roupas, depois como assistente administrativa em escritórios medíocres — sempre escondendo o sobrenome, sempre tentando provar que não era igual ao pai. Inteligente demais para me deixar enganar, orgulhosa demais para pedir esmola, emocionalmente resistente porque não tinha outra escolha. Mas aquela proposta… aquela proposta era a faca no pescoço.
— Casamento — repeti, a voz rouca. — Com Dante Ferraz. O homem que destrói empresas no café da manhã e sorri enquanto faz isso.
— Exatamente.
— E por que eu? Existem milhares de mulheres desesperadas em São Paulo.
Vilela deu um sorriso fino, quase imperceptível.
— O senhor Ferraz tem seus motivos. Motivos que não me cabem revelar. O que importa é a oferta. Ela é irrecusável, senhorita. Ou a senhora assina, ou em menos de duas semanas sua irmã perde o tratamento e a senhora enfrenta um processo de cobrança que pode resultar em prisão por fraude.
Eu senti o mundo inclinar. Levantei-me de súbito, andando até a janela. Lá embaixo, os carros se moviam como formigas. A cidade continuava viva, indiferente. Fechei os olhos por um segundo e vi Isabela aos cinco anos, correndo atrás de mim no parque, pedindo para ser empurrada no balanço. Vi a mesma Isabela agora, com a voz fraca perguntando se nós ainda teríamos Natal juntas.
— Eu quero ver o contrato — disse finalmente, sem me virar.
Vilela abriu a segunda pasta. Várias páginas impressas em papel de alta gramatura. Eu voltei à mesa e comecei a ler. As cláusulas eram claras, quase cruéis na precisão:
Doze meses de casamento, sem possibilidade de divórcio antecipado por vontade unilateral.
Aparições públicas obrigatórias como casal apaixonado.
Dormitórios separados, salvo quando precisássemos representar intimidade diante de terceiros.
Nenhum envolvimento emocional.
Nenhuma pergunta sobre os negócios particulares de Dante.
Multa milionária para quem quebrasse cláusulas específicas de confidencialidade.
Levantei os olhos.
— Ele acha que pode me comprar.
— Ele está oferecendo uma solução. A senhora está em posição de recusar?
— Eu não sou mercadoria.
— Ninguém está dizendo que é. Mas a senhora é realista. Sempre foi. Foi isso que o relatório sobre a senhora destacou: inteligente, orgulhosa, resistente. Não se intimida com homens poderosos. Exatamente o tipo de mulher que o senhor Ferraz precisa.
Eu ri, um som amargo e seco.
— Relatório. Claro. Ele me investigou.
— A fundo. Sabe onde a senhora trabalha, quanto ganha, com quem fala, o que come. Sabe até que a senhora visita a irmã todos os dias às dezenove horas e que às vezes dorme na cadeira do hospital.
A informação me atingiu como um soco. A privacidade, a última coisa que ainda me restava, havia sido invadida. Apertei o contrato com força, amassando levemente as bordas.
— E se eu disser não?
— Então a senhora sai daqui e em onze dias recebe a notificação oficial de que o tratamento de Isabela foi suspenso. E o processo criminal começa logo em seguida.
Sentei-me de novo. As mãos tremiam agora sem disfarce. Pensei em todas as noites em que me recusei a chorar, em todos os empregos humilhantes que aceitei, em todas as vezes que engoli o orgulho para não deixar Isabela perceber o quanto estávamos sozinhas. Pensei no pai — o homem charmoso e irresponsável que me amara à sua maneira torta, mas que deixara um rastro de destruição atrás de si. Pensei na possibilidade de que a morte dele não tivesse sido acidente, naquela suspeita que me corroía desde o enterro.
— Eu quero uma cláusula adicional — disse eu, a voz mais firme do que esperava. — Proteção total e irrestrita para minha irmã, mesmo que eu quebre o contrato. E eu quero o direito de visitar o hospital sempre que quiser, sem pedir permissão a ninguém.
Vilela arqueou uma sobrancelha, surpreso pela primeira vez.
— Posso incluir. O senhor Ferraz autorizou negociação limitada.
— E dormitórios separados de verdade. Sem exceções forçadas.
— Já está no contrato.
— Então coloque por escrito que eu não sou obrigada a tocar nele, a beijá-lo ou a fingir qualquer intimidade além do estritamente necessário para as aparições públicas.
O advogado anotou algo rapidamente.
— Feito. Mais alguma exigência?
Olhei para o homem frio à minha frente e senti o gosto metálico da derrota na boca. Mas também senti alguma coisa que há meses não experimentava: uma centelha de controle.
— Sim. Eu quero ler cada página com calma. E quero uma cópia para levar.
— A senhora tem quinze minutos.
Eu li. Cada palavra. Cada vírgula. O coração martelava, mas a mente permanecia afiada. Quando terminei, peguei a caneta que Vilela ofereceu. A tinta preta deslizou sobre o papel com uma suavidade quase obscena. Meu nome — Valentina Montenegro — apareceu no final da última página, ao lado de uma linha em branco onde, em breve, Dante Ferraz colocaria a própria assinatura.
— Está feito — murmurei.
Vilela recolheu as vias com eficiência profissional.
— Uma cópia será enviada ao senhor Ferraz ainda hoje. O casamento civil está marcado para daqui a sete dias. A senhora receberá instruções sobre o vestido, o local e a segurança. Até lá, recomendo que não fale sobre este acordo com ninguém. Nem com a irmã.
Eu me levantei. As pernas pareciam de borracha, mas forcei-me a ficar ereta. Sem me despedir, virei-me e saí da sala. O corredor parecia mais longo agora. A recepcionista nem levantou os olhos. O elevador desceu com a mesma indiferença com que subira.
No térreo, o hall de mármore estava quase vazio. Atravessei as portas de vidro e senti o vento frio da avenida bater no rosto. O ar da rua cheirava a escapamento e chuva distante. Parei na calçada, tentando respirar, tentando aceitar que acabara de vender os próximos doze meses da minha própria vida.
Foi então que alguém esbarrou em mim com força suficiente para me fazer cambalear. Uma mão anônima empurrou um envelope branco contra a palma da minha mão antes de desaparecer na multidão. Olhei em volta, o coração disparado, mas só vi o fluxo constante de pessoas apressadas. Ninguém olhava para mim.
Com dedos trêmulos, abri o envelope. Dentro havia uma única folha de papel, dobrada ao meio. A mensagem, escrita à mão em letra firme e angular, era curta e devastadora:
“Seu pai não morreu por acidente.
O homem que vai colocar a aliança no seu dedo sabe disso.”
Senti o chão oscilar sob os pés. O papel tremeu na minha mão. O barulho da cidade ficou distante, abafado pelo zumbido no ouvido. Ergui os olhos para o edifício de vidro atrás de mim, como se pudesse enxergar através dos andares até a sala onde acabara de assinar o meu próprio destino.
Pela primeira vez desde que o pai morrera, o medo que eu sentia não era apenas pelo futuro de Isabela.
Era por mim mesma.
