Capítulo 2 A escolha
Dante Ferraz
Eu observava a tela com a mesma atenção com que analisava um balanço consolidado antes de destruir uma empresa rival. A câmera de segurança do escritório de Adriano Vilela transmitia em alta definição, sem áudio — eu não precisava de áudio. Lia as pessoas pelo corpo, pelo ritmo da respiração, pela forma como os dedos se contraíam quando a verdade as atingia. E Valentina Montenegro estava exatamente como eu esperava: orgulhosa até o osso, a espinha ereta demais para alguém que acabara de descobrir que a vida dela valia vinte e três milhões de reais e um ano de liberdade.
Eu estava no meu escritório privado, no último andar da torre do Grupo Ferraz, as luzes baixas, as persianas fechadas contra o final da tarde de São Paulo. A cidade lá fora continuava a girar, indiferente. Eu não. Eu controlava cada peça. Sempre controlei. Desde que a minha mãe saiu de casa numa manhã de segunda-feira, quando eu tinha nove anos, deixando apenas um bilhete curto e o cheiro de perfume caro no ar, eu aprendi que sentimentos eram o tipo de dívida que ninguém conseguia pagar. Meu pai morreu anos depois ainda acreditando que ela o traíra. Eu nunca tive essa ilusão. Eu simplesmente parei de acreditar.
O investigador particular, Rafael Mendes, estava sentado do outro lado da mesa, em silêncio. Ele sabia melhor do que ninguém que eu odiava interrupções desnecessárias. Na tela, Valentina se levantava e andava até a janela. Eu inclinei a cabeça, estudando o modo como ela cruzava os braços, o modo como o queixo se erguia. Não era uma mulher quebrada. Era uma mulher encurralada. E isso a tornava perigosa… e útil.
— Confirme de novo — disse eu, sem tirar os olhos da tela.
Rafael abriu a pasta que já eu conhecia de cor.
— Valentina Montenegro, vinte e sete anos. Filha legítima de Ricardo Montenegro e Helena Costa Montenegro, falecida há onze anos. Trabalhou desde os quinze. Histórico limpo de antecedentes, mas o pai deixou um rastro de fraudes que a coloca em posição jurídica vulnerável. A irmã, Isabela, dezessete anos, leucemia aguda, tratamento experimental no Sírio-Libanês. Convênio vence em onze dias. Sem o pagamento, ela vai para a fila do SUS. A menina não resiste seis meses lá.
Eu já sabia de tudo isso. Mas precisava ouvir outra vez. Precisava sentir o peso da informação se acomodar no lugar certo dentro da minha cabeça.
— E o sobrenome? — perguntei.
— Confirmado. DNA cruzado com amostras antigas do arquivo do seu avô. Ela é Montenegro de sangue. Exatamente o que o senhor precisava.
Eu não sorri. Eu quase nunca sorria de verdade. Mas algo frio e satisfeito se moveu no peito. O testamento do meu avô era claro: para assumir o controle definitivo do Grupo Ferraz, eu precisava permanecer casado por pelo menos doze meses com uma mulher que não pudesse ser controlada pela família. Uma mulher de fora. Uma mulher que Augusto não pudesse comprar, ameaçar ou seduzir. Valentina Montenegro era mais do que isso. Ela era a filha do homem que, segundo as histórias oficiais, quase destruiu a nossa família seis anos antes. O sobrenome dela era uma arma de dois gumes. Eu pretendia usá-la primeiro.
Na tela, ela voltava para a mesa e começava a ler o contrato. Eu observei cada página virada, cada linha que ela relia. Inteligente. Eu gostava disso. Mulheres tolas eram previsíveis. Mulheres inteligentes eram peças de xadrez mais interessantes.
— Ela vai assinar — murmurei.
— Parece que sim, senhor.
— Claro que vai. Eu não deixei outra escolha.
Rafael permaneceu em silêncio. Ele sabia quando eu estava falando sozinho.
Eu me levantei e andei até a janela panorâmica. Lá embaixo, os carros eram apenas pontos de luz. Eu construíra aquele império tijolo por tijolo depois da morte do meu pai. Não com herança — a herança viera depois —, mas com decisões frias, noites sem dormir e a capacidade de transformar qualquer fraqueza alheia em vantagem minha. Augusto sempre esteve à espreita, sorrindo demais, apertando mãos demais, esperando o momento em que eu falhasse. O testamento do avô era a última barreira entre mim e o controle absoluto. E Valentina Montenegro era a chave.
Voltei para a mesa e abri a pasta preta que continha a versão final do contrato. A cláusula secreta estava na página dezessete, redigida de forma que só eu e Vilela compreenderíamos o alcance real. Ela não sabia. Não precisava saber ainda. Eu já conhecia o sobrenome dela. Eu já sabia o que o pai dela entregara a alguém seis anos antes. Eu já suspeitava que Augusto estava por trás de mais coisas do que eu conseguira provar. Casar com a filha de Montenegro não era apenas cumprir o testamento. Era atrair o inimigo para perto o suficiente para eu poder cortar a garganta dele.
— Ela exigiu cláusulas adicionais — disse Rafael, consultando o relatório em tempo real que Vilela enviava. — Proteção total para a irmã mesmo em caso de quebra de contrato. Direito de visitar o hospital sem autorização prévia. E uma redação mais rígida sobre contato físico.
Eu arqueei uma sobrancelha.
— Interessante.
— O senhor autoriza?
— Autorize. Deixe-a acreditar que ganhou alguma coisa. Pessoas que acreditam ter negociado são mais fáceis de controlar depois.
Rafael anotou e enviou a mensagem. Eu voltei a olhar a tela. Valentina pegava a caneta. O momento exato em que a tinta preta tocou o papel fez alguma coisa se contrair no meu peito. Não era satisfação. Era reconhecimento. Eu acabara de adquirir a peça mais importante do tabuleiro.
— Ela assinou — informou Rafael.
— Eu sei.
Peguei a caneta-tinteiro que meu avô me dera no dia em que completei dezoito anos. A mesma caneta com a qual ele assinara o testamento que agora me forçava a esse jogo. Deslizei a ponta sobre a linha ao lado do nome dela. Dante Ferraz. O contraste entre as duas assinaturas era quase obsceno: a dela firme apesar do desespero, a minha controlada demais para ser humana.
Fechei a pasta.
— Prepare o casamento civil para daqui a sete dias. Vestido, segurança, lista de convidados mínima. Quero a família presente. Quero que Augusto veja o rosto dela.
— Sim, senhor.
Rafael se levantou, mas eu levantei a mão.
— Espere.
Ele parou.
— Quero vigilância total sobre ela a partir de agora. Não a perca de vista. E aumente a segurança no hospital da irmã. Se alguém se aproximar de Isabela Montenegro, eu quero saber antes que a pessoa respire duas vezes.
— Entendido.
Assim que a porta se fechou atrás dele, eu voltei a olhar a gravação. Rebobinei até o momento em que Valentina leu a cláusula sobre dormitórios separados. O canto da boca dela se contraiu. Orgulho. Raiva. Medo. Tudo misturado. Eu me perguntei, por um segundo absurdo, como seria ouvir a voz dela de verdade. Como seria vê-la de perto, sem o filtro da câmera. Eu a desejara desde a primeira fotografia que Rafael me trouxera. Não de forma sentimental — eu não acreditava em sentimentalismo —, mas de forma crua, estratégica, como se deseja uma arma afiada. Ela era bonita de um jeito que não tentava agradar. Alta, pele escura, olhos que não baixavam. O tipo de mulher que homens como eu deveriam evitar. E exatamente por isso eu a escolhi.
Meu telefone vibrou sobre a mesa. Uma mensagem de número desconhecido, mas eu reconheci o estilo imediatamente. Augusto.
“Interessante a noiva que escolheu. Espero que ela sobreviva ao ano.”
Eu li a frase duas vezes. Depois três. O sangue subiu quente pelo pescoço, mas o rosto permaneceu impassível. Augusto sempre soubera como me provocar. Sempre soubera onde apertar. Eu digitei uma resposta curta e fria:
“Cuide da sua sobrevivência primeiro, tio.”
Apaguei o histórico e bloqueei o número temporário. Depois me levantei e andei até o bar embutido na parede. Despejei dois dedos de uísque de dezoito anos e bebi de um gole só. O líquido queimou a garganta, mas não apagou a imagem de Valentina Montenegro assinando o próprio nome ao lado do meu.
Eu não acreditava em amor. Acreditava em contratos, em poder, em controle. Acreditava que qualquer sentimento era uma porta aberta para a destruição. Minha mãe provara isso. Meu pai provara isso. E ainda assim, enquanto olhava a tela agora congelada no momento em que ela saía da sala de Vilela, alguma coisa dentro de mim — alguma coisa que eu jurara ter matado aos nove anos — se moveu.
Eu a usaria.
Eu a controlaria.
E, se necessário, eu a destruiria antes que ela pudesse destruir o que eu construíra.
Mas enquanto o uísque descia e a mensagem de Augusto ainda queimava na memória, uma verdade desconfortável se instalou: pela primeira vez em m
uitos anos, eu não estava completamente certo de quem era a presa e quem era o caçador.
