Capítulo 3 O confronto

Eu entrei na sala de reuniões do último andar da torre Ferraz com a coluna reta e o queixo erguido, exatamente como fazia desde os quinze anos, quando aprendi que o mundo só respeitava quem não baixava a cabeça. A porta de madeira escura se fechou atrás de mim com um clique suave demais para o peso daquilo que eu estava prestes a enfrentar. O espaço era vasto, com janelas do chão ao teto que mostravam São Paulo inteira a meus pés, como se o homem que me esperava quisesse me lembrar, antes mesmo de abrir a boca, que ele dominava a cidade e, a partir daquele momento, pretendia dominar a mim também. Eu não ia permitir. Orgulhosa demais para me deixar intimidar por concreto e vidro, eu cruzei o ambiente com passos firmes, a bolsa apertada contra o corpo como o único escudo que ainda me restava.

Dante Ferraz estava de pé ao lado da longa mesa de reuniões, as mãos nos bolsos das calças impecáveis, o terno preto cortado sob medida que não escondia a largura dos ombros nem a tensão controlada em cada linha do corpo. Trinta e seis anos, olhar escuro e calculista, a boca em uma linha que poderia ser tanto um sorriso quanto uma ameaça. Eu já o vira em fotografias, em reportagens, em capas de revistas de negócios. Nada daquilo preparara para a presença real. Ele irradiava poder da mesma forma que eu irradiava resistência. E eu não pretendia ceder nem um centímetro sem lutar.

— Senhorita Montenegro — disse ele, a voz grave e baixa, como se já tivesse ensaiado o tom exato para me desestabilizar. — Achei que fosse preferir a segurança do advogado entre nós.

— Eu prefiro olhar nos olhos de quem está tentando me comprar — respondi, sem hesitar, porque a inteligência que me mantivera viva todos aqueles anos não me permitia recuar. — Vamos ao que interessa, Ferraz. Eu li o contrato. Agora quero renegociar.

Ele ergueu uma sobrancelha, o canto da boca se movendo em algo que não chegava a ser humor. Caminhou até a cabeceira da mesa e puxou a cadeira para mim com um gesto deliberadamente cortês. Eu ignorei a oferta e permaneci de pé. Sentar-me seria o primeiro sinal de submissão, e eu recusava qualquer gesto que pudesse ser interpretado como fraqueza. Minha vida inteira fora uma sequência de recusas: recusei depender do sobrenome do pai, recusei pedir ajuda quando as contas apertavam, recusei chorar na frente de Isabela mesmo quando o medo me consumia. Não seria diferente agora.

— Sente-se — repetiu ele, mais baixo. — Ou prefere negociar de pé, como se estivéssemos em um ringue?

— Prefiro o ringue — retruquei. — Pelo menos ali as regras são claras.

Ele soltou um som curto, quase um riso, e se sentou. Eu continuei de pé por mais alguns segundos, só para provar a mim mesma que ainda controlava alguma coisa, antes de ocupar a cadeira oposta. A distância entre nós era de poucos metros, mas parecia um abismo carregado de eletricidade. Eu sentia o olhar dele percorrendo meu rosto, minha postura, o modo como eu mantinha as mãos quietas sobre a mesa apesar da vontade de apertá-las até doer. Ele estava me estudando. Eu também o estudava.

— Você exigiu cláusulas adicionais com Vilela — começou Dante, abrindo a pasta preta à sua frente. — Proteção total para a irmã, mesmo em caso de quebra de contrato. Direito irrestrito de visita ao hospital. E uma redação mais rígida sobre contato físico. Eu autorizei. Agora você quer mais.

— Quero o que é justo — disse eu, a voz firme, porque a resistência emocional que eu cultivara desde a adolescência não me permitia mostrar o quanto o coração batia rápido. — Dormitórios separados. De verdade. Sem exceções forçadas, sem “quando for necessário para a imagem pública”. Se precisarmos fingir intimidade, será no mínimo indispensável e com aviso prévio. Eu não sou uma atriz de aluguel.

Ele inclinou a cabeça, os dedos longos tamborilando levemente na madeira.

— Continua.

— Proteção total e irrestrita para Isabela. Tratamento, segurança, qualquer custo futuro. Mesmo que eu quebre cada cláusula deste maldito papel. Ela não paga pelo que eu decidir fazer.

— Já está no contrato.

— Quero por escrito, com linguagem que nenhum advogado seu consiga contornar depois.

Dante segurou meu olhar por um tempo longo demais. Eu não baixei os olhos. Orgulhosa até o último fio de cabelo, eu o desafiei em silêncio, exatamente como fazia com qualquer homem que tentasse me diminuir. Ele foi o primeiro a falar.

— Concedido. Próximo.

Eu respirei fundo, sentindo o gosto metálico da adrenalina. A inteligência prática que me fizera sobreviver a empregos ruins e noites sem dormir agora trabalhava a todo vapor.

— Cláusula de saída em caso de violência. Física, psicológica, qualquer forma. Se você ou qualquer pessoa a seu serviço me tocar de maneira agressiva, ou tentar me controlar além do que está escrito, o contrato se dissolve imediatamente. Sem multa. Sem contestação. E a proteção de Isabela permanece intacta.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Dante se reclinou na cadeira, os olhos estreitos, estudando-me como se eu fosse um problema matemático especialmente irritante. Eu mantive a postura. Não era apenas orgulho. Era a certeza de que, se eu cedesse ali, perderia o pouco de mim mesma que ainda restava.

— Você acha que eu sou o tipo de homem que usa violência contra mulheres? — perguntou ele, a voz perigosamente baixa.

— Eu acho que você é o tipo de homem que está acostumado a conseguir o que quer a qualquer custo — respondi, sem recuar. — E eu não pretendo descobrir na prática quais são os seus limites. Ou a cláusula entra, ou eu levanto e saio. E você pode explicar para o seu testamento por que a noiva perfeita desapareceu.

Ele ficou em silêncio por vários segundos. Eu via a mandíbula se contrair, o controle absoluto que todos diziam que ele nunca perdia sendo testado pela primeira vez na minha presença. Quando finalmente falou, a voz saiu mais rouca.

— Concedido. Mas se você inventar uma acusação falsa, Montenegro, eu destroço o que restar da sua vida. E da dela.

— Não invento. Eu sobrevivi tempo demais mentindo só o necessário.

Ele anotou algo no contrato com a caneta-tinteiro. O som da ponta no papel era irritantemente preciso. Eu aproveitei o momento para observar as mãos dele: grandes, veias aparentes, unhas impecáveis. Mãos de quem nunca precisou sujar-se de verdade. Ou de quem sujava e depois pagava para limpar.

— Mais alguma exigência? — perguntou, levantando os olhos.

— A duração.

Ele parou.

— Doze meses. Não negociável.

— Seis.

— Doze.

— Nove.

— Doze, Valentina.

O uso do meu primeiro nome pela primeira vez me atingiu como um toque físico. Eu odiei a forma como ele o pronunciou, baixa e deliberada, como se já tivesse direito sobre ele. Orgulhosa e teimosa, eu me inclinei para a frente, os cotovelos na mesa, o olhar travado no dele.

— Você precisa de uma esposa por um ano para cumprir uma cláusula de testamento. Eu preciso de dinheiro e de proteção. Mas eu não pretendo passar trezentos e sessenta e cinco dias fingindo ser sua propriedade. Seis meses. Ou eu caminho até a porta e você encontra outra desesperada.

Dante se levantou devagar. A altura dele se impôs sobre a mesa, sobre mim, sobre o espaço inteiro. Eu forcei-me a permanecer sentada, a não recuar, porque a resistência que eu carregava no sangue não me permitia ceder terreno. Ele rodeou a mesa com passos lentos, calculados, até parar ao meu lado. O cheiro dele — madeira, algo cítrico e caro — invadiu meu espaço pessoal. Eu não me mexi.

— Você é a primeira pessoa em muito tempo que ousa me dar ordens dentro do meu próprio prédio — murmurou ele.

— Eu não estou dando ordens. Estou negociando o preço da minha liberdade.

Ele se inclinou, uma mão apoiada na mesa perto da minha, o corpo quase me cercando. Eu sentia o calor dele, a tensão contida. Meu coração batia rápido demais, mas eu recusava mostrar. Emocionalmente resistente até o fim, eu mantive a voz firme.

— Doze meses, Montenegro. É o mínimo que o testamento exige. E é o máximo que eu estou disposto a oferecer. Você assina por um ano, ou não assina. E a sua irmã perde o tratamento em onze dias.

A menção a Isabela foi o golpe baixo que eu esperava. Eu fechei os olhos por uma fração de segundo, o suficiente para ver o rosto pálido da minha irmã, a voz fraca perguntando se eu voltaria no dia seguinte. Quando os abri de novo, Dante estava ainda mais perto.

— Você é cruel — disse eu, a voz mais baixa.

— Eu sou eficiente. E você é inteligente o bastante para saber a diferença.

Eu o odiei naquele instante. Odiei o controle, a certeza, a forma como ele usava a única coisa que eu amava de verdade como arma. Mas a inteligência prática que me mantivera de pé todos aqueles anos falou mais alto. Seis meses não bastavam. Nove não bastavam. Ele não ia ceder. E Isabela não podia esperar.

— Doze meses — aceitei, finalmente, o gosto da derrota amargo na boca. — Mas cada cláusula que eu pedi entra no papel. Hoje. Agora. Antes de eu tocar em qualquer caneta.

Dante endireitou o corpo, um brilho de vitória rápida passando pelos olhos escuros. Ele voltou para o lado dele da mesa, anotou as alterações com precisão cirúrgica e empurrou o contrato na minha direção. Eu li cada linha de novo. Cada palavra. Cada vírgula. A inteligência que eu cultivara como escudo não me permitia confiar em ninguém, especialmente nele.

Quando terminei, peguei a caneta. A assinatura saiu firme, apesar do tremor que eu sentia por dentro. Empurrei o papel de volta.

— Feito.

Ele não pegou a caneta imediatamente. Em vez disso, levantou-se mais uma vez e veio até mim. Eu me levantei também, porque permanecer sentada enquanto ele se aproximava era inadmissível. Orgulhosa demais para ficar em desvantagem, eu o enfrentei de igual para igual.

Dante estendeu a mão. Eu pensei que fosse para um aperto formal. Em vez disso, os dedos dele fecharam-se em volta do meu pulso, firmes, quentes, possessivos demais para um simples contrato. O toque me atravessou como um choque. Eu tentei puxar o braço, mas ele não soltou. Aproximou o rosto do meu, a voz baixíssima, quase um sussurro contra a minha pele.

— Não tente me enganar, Montenegro. Eu já sei quem você é.

O mundo parou por um segundo. O coração disparou. A resistência que eu carregava como armadura sofreu a primeira rachadura real desde que entrara naquela sala. Eu olhei para os olhos escuros dele e, pela primeira vez, senti o peso real da armadilha em que acabara de entrar.

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