Capítulo 4 Segurança máxima
Dante Ferraz
Eu não deixava nada ao acaso. Nunca deixara. Desde que minha mãe desaparecera numa manhã qualquer, deixando apenas o perfume residual e um bilhete curto demais para explicar a traição, eu aprendera que o controle absoluto era a única forma de sobreviver. E agora, com o casamento marcado para daqui a seis dias, cada detalhe precisava estar sob minha mão. Eu estava no centro de comando de segurança do Grupo Ferraz, no subsolo blindado da torre, cercado por monitores que mostravam ângulos diferentes da cidade, do hospital onde Isabela Montenegro lutava pela vida e do pequeno apartamento no Brás onde Valentina ainda insistia em morar. O ar cheirava a metal e eletricidade. Eu respirava aquele cheiro como quem respira poder.
— Quero segurança máxima em todos os pontos — ordenei, a voz baixa e precisa, porque arrogância controlada sempre funcionava melhor do que gritos. — Três equipes rotativas no hospital. Duas no prédio dela. Uma equipe exclusiva acompanhando cada deslocamento de Valentina a partir de amanhã. Ninguém se aproxima das duas sem que eu saiba o nome, a intenção e o histórico completo em menos de três minutos.
O chefe de segurança, um ex-militar chamado Borges, assentiu sem hesitar. Ele me conhecia o suficiente para saber que qualquer falha seria tratada como traição pessoal.
— Já está em andamento, senhor. Mas há algo que o senhor precisa ver.
Ele deslizou uma pasta digital na minha direção. Eu abri o arquivo com os dedos firmes, a mente estratégica já separando o essencial do ruído. Relatórios médicos de Isabela Montenegro. Evolução do quadro. Dosagens. Horários de medicação. Tudo parecia normal… até a terceira página. Uma alteração sutil na composição do protocolo experimental. Uma substância que não deveria estar ali. Uma redução quase imperceptível na dosagem do medicamento principal exatamente nos dias em que o convênio particular ameaçava vencer.
Eu sentei-me mais devagar do que o necessário, porque o controle absoluto exigia que eu nunca demonstrasse urgência. Mas por dentro o sangue gelou. Alguém estava sabotando o tratamento da menina. Alguém que conhecia os horários, os protocolos e a fragilidade financeira da família Montenegro.
— Quem tem acesso a esses registros? — perguntei, a voz ainda mais baixa.
— Equipe médica restrita e o setor administrativo do hospital. Mas os logs mostram acessos externos criptografados. Alguém de fora.
— Rastreie. Quero nomes até o final do dia. E aumente a vigilância para nível vermelho. Se alguém tocar nessa menina de novo, eu quero a pessoa viva o tempo suficiente para me explicar o motivo.
Borges saiu. Eu permaneci sozinho diante dos monitores, a imagem de Isabela dormindo no leito hospitalar ocupando o canto superior esquerdo da tela. Ela se parecia com Valentina de um jeito que me irritava: a mesma determinação silenciosa no rosto pálido. Eu não sentia pena. Pena era fraqueza. Mas eu reconhecia utilidade. Enquanto a irmã estivesse ameaçada, Valentina permaneceria sob meu controle. E eu precisava dela sob controle.
Levantei-me e caminhei até a sala anexa, onde Rafael Mendes, meu investigador particular, já esperava com uma nova pasta. O homem sabia que eu odiava atrasos e odiava ainda mais surpresas.
— Fale — ordenei.
— O tratamento está sendo interferido há pelo menos três semanas. A alteração é sofisticada. Não é amadora. Alguém com recursos e conhecimento médico está por trás. Eu cruzei os acessos. Há um padrão que aponta para empresas de fachada ligadas… a pessoas próximas ao senhor.
Eu travei o olhar nele. A desconfiança que eu cultivara desde a infância se ergueu como um animal pronto para atacar.
— Nomes.
— Ainda não tenho certeza absoluta. Mas o dinheiro passa por contas que já foram usadas por Augusto no passado.
O nome do meu tio ecoou na sala como um tiro. Eu não reagi de imediato. Reagir era perder o controle. Em vez disso, virei-me para o monitor maior e abri o arquivo de vigilância sobre Augusto. Ele aparecia em reuniões, jantares, sorrisos largos demais. O homem que sempre esperara o momento em que eu tropeçasse. O homem que eu suspeitava ter ajudado a empurrar meu pai para a cova.
— Continue a investigação. Quero provas concretas, não suspeitas. E a partir de agora Isabela Montenegro tem cobertura médica particular paga diretamente por mim, fora do convênio. Qualquer alteração no protocolo precisa da minha autorização pessoal.
— Sim, senhor.
Rafael hesitou.
— Sobre o casamento… a lista de convidados.
— Mínima. Família direta. Augusto precisa estar presente. Eu quero ver a cara dele quando Valentina entrar.
— E a noiva?
— Ela recebe o vestido amanhã. Preto. Eu escolhi. Nada de branco. Não há pureza nenhuma nesse acordo.
Eu dispensi o investigador e fiquei sozinho novamente. A solidão nunca me incomodara. Era o único estado em que eu conseguia pensar com clareza. Caminhei até o elevador privado que descia para o arquivo restrito do meu avô — o lugar que só eu e, enquanto vivera, o velho Ferraz tínhamos acesso. O ar lá embaixo era mais frio, mais seco, cheirando a papel antigo e segredos. Eu acendi as luzes uma a uma, o controle absoluto se estendendo até mesmo sobre a memória da família.
As pastas estavam organizadas por ano, por nome, por nível de perigo. Eu abri a seção marcada como “Proibido – Acesso Restrito”. Dentro havia documentos que meu avô nunca quisera destruir, mas também nunca quisera que viessem à luz. Relatórios sobre fraudes antigas. Nomes riscados. Fotografias. Eu folheava com a mesma precisão com que analisava um contrato, porque estrategista de nascença não deixava nenhuma peça fora do tabuleiro.
Foi na terceira pasta que eu a encontrei.
Uma fotografia em preto e branco, levemente amarelada pelo tempo. Ricardo Montenegro, mais jovem, de terno, sorrindo para a câmera em algum evento social. Ao fundo, parcialmente ofuscado pela luz, mas inconfundível, estava o rosto de Augusto. Mais magro, cabelos escuros, a mesma expressão calculista que eu reconhecia no espelho algumas manhãs. Os dois estavam próximos demais para ser coincidência. A mão de Augusto repousava no ombro de Montenegro de um jeito que sugeria cumplicidade… ou posse.
Eu segurei a foto entre os dedos, o coração batendo uma única vez com força excessiva antes de voltar ao ritmo controlado. A desconfiança que eu carregava como segunda pele se confirmava. Augusto conhecera o pai de Valentina. Augusto estivera perto o suficiente para sorrir em uma fotografia que meu avô guardara sob sete chaves. E agora o mesmo Augusto sabia que eu ia me casar com a filha daquele homem.
Guardei a fotografia no bolso interno do paletó. O metal do isqueiro que eu sempre carregava tocou o papel antigo. Eu acendi um cigarro — o único vício que permitia a mim mesmo — e fiquei olhando a fumaça subir até o teto baixo do arquivo.
Valentina Montenegro não era apenas a peça que eu precisava para cumprir o testamento. Ela era a chave para uma porta que eu nem sabia que existia. E alguém, muito próximo, já tentava trancar essa porta antes que eu a abrisse.
Voltei para o centro de comando. Os monitores ainda mostravam Isabela dormindo e Valentina andando pelo pequeno apartamento, alheia ao fato de que eu a observava. Eu a observava com a mesma intensidade com que observava um adversário no tabuleiro. Ela era orgulhosa, inteligente, resistente. Exatamente o tipo de mulher que eu deveria manter à distância. E exatamente o tipo que eu não conseguia parar de estudar.
Peguei o telefone e disquei o número de Borges.
— Aumente a segurança no hospital para o nível máximo. E prepare uma equipe de extração. Se o tratamento dela for interferido de novo, eu quero a menina fora daquele prédio em menos de dez minutos.
— Entendido, senhor.
Desliguei. Depois abri a mensagem mais recente de Augusto, aquela que eu recebera na noite anterior: “Interessante a noiva que escolheu. Espero que ela sobreviva ao ano.”
Eu digitei uma resposta curta, fria, definitiva:
“Ela vai sobreviver. Você é quem deveria se preocupar.”
Apaguei o histórico. Guardei o telefone. E fiquei olhando a fotografia antiga sobre a mesa, o rosto de Augusto ao fundo, o sorriso de Ricardo Montenegro na frente.
O casamento estava a seis dias de distância. A guerra, eu percebi naquele instante, já começara.
