Capítulo 5 A cobertura

Valentina Montenegro

Eu entrei no elevador privativo com a coluna reta e o queixo erguido, exatamente como fazia sempre que o mundo tentava me lembrar do meu lugar. O espelho de aço refletia uma mulher de vinte e sete anos vestindo o mesmo vestido preto simples de sempre, o cabelo preso num coque severo e a bolsa de couro sintético apertada contra o corpo como se fosse o último pedaço de dignidade que ainda me restava. Orgulhosa demais para baixar a cabeça, eu forcei o olhar a enfrentar o próprio reflexo enquanto o elevador subia em silêncio absoluto até o último andar da torre mais alta do bairro. Cada segundo da subida era um lembrete de que eu estava prestes a entrar no território de um homem que comprara doze meses da minha vida. E eu não pretendia entrar de joelhos.

As portas se abriram diretamente na cobertura. O impacto visual foi tão brutal que precisei de dois segundos inteiros para recuperar o fôlego. Mármore branco que parecia brilhar por conta própria, paredes de vidro do chão ao teto mostrando São Paulo inteira a meus pés, um living tão vasto que o meu apartamento no Brás caberia nele pelo menos três vezes. O cheiro era de madeira cara, flores brancas e ar-condicionado perfeitamente regulado. Eu senti o estômago revirar. Inteligente o bastante para reconhecer a armadilha do luxo, eu me recusei a demonstrar admiração. Em vez disso, dei um passo à frente com a mesma determinação com que enfrentara cada credor nos últimos seis meses.

Dante Ferraz estava de pé no centro do ambiente, as mãos nos bolsos das calças pretas, o terno impecável contrastando com a indiferença calculada no rosto. Ele não se moveu para me receber. Apenas observou enquanto eu atravessava o espaço, o olhar escuro avaliando cada centímetro de mim como se eu fosse mais um item a ser catalogado no inventário dele. Eu o enfrentava de igual para igual, porque emocionalmente resistente era a única forma que eu conhecia de sobreviver.

— Pontual — comentou ele, a voz baixa e fria. — Gosto disso.

— Eu não vim aqui para agradar — respondi, sem hesitar. — Vim para ver onde vou passar os próximos doze meses. Então mostre o que precisa ser mostrado e vamos logo com isso.

O canto da boca dele se moveu em algo que poderia ter sido um sorriso se houvesse qualquer calor na expressão. Ele fez um gesto curto com a cabeça e duas pessoas se aproximaram. A primeira era uma mulher de meia-idade, cabelos grisalhos presos num coque perfeito, uniforme preto e branco de uma elegância quase militar. A segunda era um homem alto, ombros largos, terno escuro e um fone discreto na orelha.

— Esta é Dona Íris, a governanta — apresentou Dante. — Ela cuida de tudo o que acontece nesta casa. E este é Borges, chefe da minha segurança pessoal. A partir de agora, a segurança de vocês duas também é responsabilidade dele.

Dona Íris inclinou a cabeça com respeito formal.

— Seja bem-vinda, senhora Ferraz.

O título me atingiu como um tapa. Eu não era senhora Ferraz. Ainda não. E talvez nunca fosse de verdade. Orgulhosa até a medula, eu corrigi na hora:

— Montenegro. Valentina Montenegro. O sobrenome Ferraz é temporário e apenas no papel.

A governanta não demonstrou reação. Borges apenas assentiu, o olhar profissional e vazio. Dante, no entanto, manteve os olhos fixos em mim, como se a minha recusa o divertisse de um jeito perigoso.

— Mostre a casa a ela — ordenou ele à governanta. — Eu estarei no escritório. Quando terminar, quero conversar a sós.

Dona Íris começou o tour com a eficiência de quem já repetira aquele roteiro dezenas de vezes. Eu a segui em silêncio, absorvendo cada detalhe com a inteligência prática de quem sempre precisara calcular o valor real das coisas. A cozinha era um espetáculo de aço inox e mármore, com eletrodomésticos que custavam mais do que eu ganhara em cinco anos de trabalho. A sala de jantar tinha uma mesa para doze pessoas e lustres de cristal que pareciam roubados de um castelo europeu. Havia uma biblioteca com pé-direito duplo, um cinema particular, uma academia completa e uma piscina aquecida no terraço com vista para o rio.

Cada novo cômodo apertava o peito. Eu cresci sabendo o preço de cada centavo. Trabalhei como caixa de farmácia aos quinze anos, depois em loja de roupas, depois em escritórios onde o ar-condicionado era um luxo. Eu sabia o valor de um pacote de arroz, de uma passagem de ônibus, de um remédio genérico. Aquele excesso todo me ofendia. E, ao mesmo tempo, me lembrava do quanto eu precisava daquilo para manter Isabela viva.

— O quarto da senhora fica neste corredor — informou Dona Íris, abrindo uma porta dupla. — O senhor Ferraz determinou que os dormitórios sejam separados, conforme o contrato.

O quarto era maior do que o meu apartamento inteiro. Cama king-size, roupa de cama de linho branco, um closet que parecia uma boutique e um banheiro de mármore com banheira de hidromassagem. Eu entrei com a coluna reta, recusando-me a demonstrar o choque. Emocionalmente resistente, eu me forcei a analisar o espaço como quem analisa um campo de batalha.

— Onde fica o quarto dele? — perguntei.

— No extremo oposto do corredor, senhora. Há trinta metros de distância e duas portas entre os dois ambientes.

— Bom — murmurei. — Quanto mais longe, melhor.

Dona Íris não comentou. Apenas continuou o tour, mostrando a área de serviço, a entrada de serviço e o sistema de segurança que transformava a cobertura numa fortaleza. Câmeras em cada canto. Sensores de movimento. Portas blindadas. Eu absorvia tudo com a mente afiada, porque a inteligência que me mantivera viva não me permitia baixar a guarda nem por um segundo.

Quando o tour terminou, ela me deixou sozinha no living novamente. Dante ainda não aparecera. Eu aproveitei a ausência para caminhar até as janelas panorâmicas. A cidade se estendia a meus pés, brilhante e indiferente. Eu pensei em Isabela, no hospital, no sorriso frágil que ela me dera na noite anterior quando eu disse que o tratamento estava garantido. Orgulhosa demais para chorar, eu engoli o nó na garganta e forcei a respiração a se normalizar.

Passos ecoaram atrás de mim. Eu me virei. Dante atravessava o living com a mesma presença dominante de sempre, a gravata ligeiramente afrouxada, os olhos escuros fixos em mim.

— E então? — perguntou. — A casa é do seu agrado?

— A casa é excessiva — respondi com honestidade brutal. — Mas serve. Onde fica o escritório? Quero ver o espaço onde você pretende passar a maior parte do tempo, já que aparentemente vamos dividir o mesmo teto.

Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso pela franqueza. Depois fez um gesto para que eu o seguisse. O escritório ficava numa ala separada, protegido por uma porta de madeira maciça que só abria com biometria. Dentro, o ambiente era mais sóbrio: estantes de livros de capa dura, uma mesa enorme de madeira escura, monitores apagados e um armário embutido de portas lisas.

Eu entrei sem pedir permissão, porque recusava ser tratada como visitante em um lugar que, pelo menos no papel, seria minha casa pelos próximos doze meses. Caminhei entre os móveis, tocando a madeira fria, absorvendo o cheiro de papel e de poder. Dante permaneceu perto da porta, observando.

— Você tem restrições de horário? — perguntei, sem me virar. — Ou posso circular livremente?

— Pode circular. Exceto neste escritório quando a porta estiver fechada. E exceto na sala de segurança no subsolo. O restante é liberado.

— Generoso da sua parte.

— Não sou generoso. Sou prático.

Eu me virei para enfrentá-lo. O olhar dele era frio, calculista, exatamente como eu esperava. Não havia calor. Não havia curiosidade real. Apenas a avaliação constante de alguém acostumado a controlar tudo e todos. Eu o odiei um pouco mais por isso. E, ao mesmo tempo, senti o desafio acender algo dentro de mim.

— Eu não pretendo me tornar invisível nesta casa — avisei. — Nem pretendo pedir licença toda vez que quiser tomar um café ou abrir a geladeira. Se isso for um problema, resolva agora.

— Não é um problema — respondeu ele, a voz baixa. — Desde que você cumpra o que está no contrato. Aparições públicas. Discrição. E nenhuma pergunta sobre os meus negócios.

— Eu já li as regras.

— Então cumpra-as.

O silêncio que se instalou foi carregado. Eu me recusei a ser a primeira a desviar o olhar. Orgulhosa e teimosa, mantive o contato visual até ele se mover. Dante caminhou até o armário embutido, abriu uma das portas para pegar alguma coisa e, por um segundo, a porta ficou entreaberta o suficiente.

Foi então que eu vi.

No alto da prateleira interna, entre pastas pretas alinhadas com precisão militar, havia uma com o rótulo branco e letras pretas nítidas:

"MONTENEGRO – CONFIDENCIAL"

O mundo parou. O coração disparou com tanta força que eu quase ouvi o som dentro da cabeça. Inteligente demais para reagir de imediato, eu forcei o rosto a permanecer neutro, os olhos a se desviarem como se nada tivesse acontecido. Mas a imagem ficou gravada. Montenegro. Confidencial. Dentro do escritório particular do homem com quem eu ia me casar em menos de uma semana.

Dante fechou a porta do armário e se virou, a pasta que buscara agora em suas mãos. Ele não pareceu notar o que eu vira. Ou fingiu muito bem.

— Amanhã o vestido chega — disse ele, como se a conversa anterior não tivesse sido interrompida. — Preto. Eu escolhi. Não haverá branco neste casamento.

— Eu não esperava branco — respondi, a voz controlada apesar do sangue latejando nos ouvidos. — Branco é para quem acredita em recomeços. Eu só acredito em contratos.

Ele me observou por um longo segundo, o olhar escuro tentando ler o que eu não dizia. Eu mantive a postura. Emocionalmente resistente até o fim, eu não ia lhe dar a satisfação de ver o impacto daquela pasta.

— Dona Íris vai preparar o jantar — informou ele finalmente. — Você pode comer aqui ou no seu quarto. A escolha é sua.

— Vou comer no meu quarto — decidi na hora. — Quanto menos tempo eu passar na sua presença desnecessária, melhor para os dois.

Dante não respondeu. Apenas assentiu ligeiramente e se afastou, deixando-me sozinha no escritório. Eu esperei até ouvir a porta se fechar. Depois, com o coração ainda disparado, olhei mais uma vez na direção do armário fechado.

A pasta estava ali com o meu sobrenome. E a palavra que mudava tudo: confidencial.

Pela primeira vez desde que assinara o contrato, eu senti o chão verdadeiro da armadilha se abrir sob os meus pés.

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