Capítulo 1 Não é uma noite de amor
Há quase três meses, eu sequer tinha para onde ir, e agora entrava em uma mansão adornada do mais puro luxo. Nada naquele lugar parecia familiar, embora eu tentasse fingir que o conhecia perfeitamente.
Os nomes das pessoas que surgiam no ambiente foram ditos com educação, mas eu nem sequer as conhecia de verdade. Eu nem mesmo sabia quem seria meu marido, ou como ele tratava sua esposa verdadeira. Esperava apenas que ele se mantivesse desinteressado o bastante para que eu não fosse obrigada a me deitar com ele toda noite.
Mas as mulheres frenéticas ainda insistiam em me arrumar como uma princesa em minha primeira noite de núpcias, e, naquele momento, senti meu coração acelerar ainda mais. Como me entregar para um homem que sequer vi? Tanto tempo me guardando para a pessoa certa e agora entregaria meu maior tesouro a um completo desconhecido.
A sensação de estar naquela situação me deixava tensa e magoada. Eu ainda não havia superado a primeira traição do meu noivo com a minha mãe, e as contas do hospital passaram a se acumular com muita rapidez. Eu não tive escolha. E, no momento em que uma mulher me abordou, propondo que eu assumisse o lugar de sua filha no casamento, não recuei. O que mais eu poderia fazer? Já estava à beira da falência e tinha certeza de que não poderia fazer o tratamento se continuasse a gastar tanto dinheiro. Tudo de que eu tinha certeza era de que queria viver com toda a minha força de vontade.
Encarei-me de frente para o espelho, ansiando pelo momento em que aquele homem me deixaria plantada, esperando-o como uma boba durante toda a noite. E torci por isso com cada músculo do meu corpo.
A porta se abriu, e o homem alto e imponente surgiu, rompendo as barreiras do quarto. Ele já estava sem camisa quando invadiu o ambiente, forçando-me para junto de si. Era um marido apaixonado? Provavelmente não.
Embora eu tentasse manter as esperanças em meus olhos confusos, ele me agarrou pelas bochechas e me encarou com firmeza. O olhar penetrante era tão frio que quase me congelou por dentro.
Tive certeza de que um homem poderoso como aquele pretendia exercer poder em tudo que fazia, e eu sabia que ele não seria delicado. Tentando ser firme, evitei que as lágrimas caíssem, maculando a roupa branca, mas meus olhos ainda estavam marejados.
Ele não sorriu, ele não demonstrou felicidade. Nada naquele rosto impassível se alterou. Ele era como um cubo de gelo imenso que estava pronto para me ferir ferozmente. A forma séria com a qual ele me encarava me deixou em estado de alerta.
— O que foi? Por que você está tão assustada? — Ele pareceu bravo.
Eu não sabia o que pensar enquanto o encarava. Ele ainda era lindo como um anjo e cruel como o diabo em pessoa.
— Eu não sei. Eu só estou com medo.
— Medo de mim? — Ele ainda manteve os lábios sérios colados um ao outro. — Por quê?
A voz grossa, como a de um leão rugindo, me deixava apavorada, e tudo que ele dizia para mim parecia cruel, ainda que não fosse a intenção.
— Eu não sei. É a nossa primeira noite, e eu...
Ele contorceu o rosto, cheio de indignação.
— Primeira? Você só pode estar de sacanagem comigo, Pax.
— N-não. É que eu... — comecei a gaguejar, tomada pelo desespero por estar tão perto daquele homem. O coração acelerado me deixava completamente trêmula, e por pouco não fugi pela única janela aberta do quarto.
— Esqueça! Apenas tire a roupa e deite na cama.
— O quê? — Meus olhos se arregalaram, em desespero.
— É uma ordem! Vai agora!
— Eu não sou sua escrava, Sr...
Foi a primeira vez que aquele homem sorriu para mim, mas, de alguma forma, pareceu diabólico, e tive a certeza de que odiava a visão daqueles dentes brancos perfeitos exibidos para mim.
— Você atormentou a minha vida para se casar. E você sabia que droga encontraria comigo. Mesmo diante das minhas propostas, você foi uma desgraçada e quis se casar. Então, agora, meu amor, você vai pagar todo o martírio que o seu pai me fez por anos.
— Meu pai? O que o meu pai fez, eu... — Tateei para trás, temendo os passos que o homem dava em minha direção.
Era visível que Sebastian ainda conseguia sentir cada uma das torturas daquele maldito velho, que lhe custaram uma vida realmente miserável por bastante tempo. E agora, rico, ele devia ter certeza de que eu estava tentando lhe aplicar um golpe. Ele jamais deixaria Pax sair livre disso — na mente dele, ela merecia uma lição, e ele estava pronto para dar essa punição das piores formas.
— Se você é inútil até para me obedecer, então de que me serviu casar com você? — Ele nem mesmo piscou ao revelar as palavras duras para mim.
Senti-me tonta de tanto medo, mas ainda era atrevida demais para ficar calada:
— Se você acha que mulheres servem apenas para isso, então nem deveria mesmo se casar! — Percebi o erro logo depois.
Lá estava: a expressão de ódio disfarçada em um sorriso sinistro no rosto daquele homem, que me apavorava mais uma vez. Senti cada membro do meu corpo se contrair em um medo genuíno, e eu já nem sabia mais se estava sentindo mal-estar da doença ou do pavor que percorria por minhas veias cansadas.
— Ótimo. Você gosta de me desafiar, pequena. Vamos jogar.
— Jogar? — Senti um súbito alívio e, por dois segundos, cheguei a exibir um breve sorriso, mas logo o desfiz. Ele não falava sobre uma brincadeira real, e só consegui lamentar por perceber tarde demais. — Do que você está falando?
— Eu vou ser um pouco mais cruel a cada segundo que você continuar usando as roupas. É escolha sua.
— Não quero isso! — afirmei, tremendo de medo.
— Então tire a roupa e deite na cama! — ele ordenou mais uma vez, e, apesar de o rosto não ter se modificado, havia uma clara falta de paciência. — Um, dois, três, quatro... — ele começou a contar. As lembranças das chicotadas que a verdadeira Pax deu nele apenas para zombar ainda deviam estar vívidas na memória daquele homem enorme.
Os números foram pausados quando eu, lentamente, ergui minhas mãos trêmulas e deslizei a alça da camisola pelo ombro delicado. Meus olhos marejados eram orgulhosos demais para deixar escapar as lágrimas que eu tentava esconder. O orgulho ainda fazia parte da forma como eu o olhava e até de como me portava diante dele.
Mas eu não era uma rainha. Sebastian Black, no entanto, poderia se considerar o rei. Ele era dono daquela cidade e mandava em todo o estado em que morava.
— Agora deite na cama. De bruços! — Ele parecia levemente divertido ao falar aquelas palavras.
Senti um zumbido no ouvido me atingir com brutalidade e lamentei minha própria sorte no mundo. Para que nasci em um destino tão cruel, em que minha vida parecia recém-saída de um roteiro de terror?
— Mas...
— Tudo que você tem que dizer é: "Sim, senhor!"
