Capítulo 3 Isso não é nada
Eu ainda podia escutar os sons da madeira batendo vigorosamente contra a parede. Era como um assombro da noite anterior, que sempre voltava a atormentar os sonhos de uma noite em que quase não dormi.
Ainda debruçada sobre a poça de sangue seco da cama, onde fora jogada brutalmente em meio à madrugada longa, embarquei em um sono profundo.
Ainda consegui ouvir o momento em que o monstro ordenou que eu me limpasse e saísse do quarto, mas estava incapaz de mexer as pernas.
O som da porta se arrastando no tapete luxuoso me alertou. Ergui o corpo rapidamente, temendo que tudo se iniciasse mais uma vez. Meus olhos caíram de vergonha quando a empregada me observou.
Aqueles olhos frios nem mesmo pareciam surpresos pela minha visão desastrosa, mas havia uma certa pena na forma como a senhora olhava para mim.
— É melhor você comer um pouco. — A senhora foi ríspida.
Eu não conseguia entender o porquê, embora tentasse imaginar todas as teorias possíveis.
— A senhora conhece uma mulher chamada Irina?
A velha exibiu uma careta de insatisfação assim que ouviu aquele nome. Assemelhava-se quase a sentir dor.
— A sua mãe?
— Minha mãe? — Arregalei os olhos. As coisas finalmente pareciam fazer algum sentido. E entendi que a maldita mulher havia substituído a filha do destino de torturas, enquanto gozava dos luxos que o dinheiro de Sebastian Black poderia proporcionar.
Por alguns segundos, esqueci-me de que estava completamente nua, apesar do frio. Minha doença deixava qualquer hematoma ainda mais intenso, e não demorou para que a velha senhora percebesse.
— Deus meu! Menina, você está bem?
Olhei finalmente as marcas roxas espalhadas pelo meu corpo, e a dor física que sentia não pareceu sequer chegar perto da dor no meu coração. Era como ser rasgada ao meio e ressuscitada mil vezes, apenas para passar pelo mesmo ciclo de destruição.
— Não, eu não estou bem! — gritei. — Eu quero sair daqui!
— Se acalme. É melhor que tome um banho e coma um pouco. Eu preciso trocar esses lençóis.
— Não! Eu não vou tomar banho nenhum. Eu preciso sair dessa casa agora.
— Você não pode sair. O Sr. Black deu ordens para que a senhora ficasse no quarto até segundas ordens. — A velha mulher ainda era irritantemente calma.
Arregalei os olhos, desesperada. Eu ainda não podia acreditar que havia me metido em uma desgraça tão grande que nada no mundo poderia me salvar, além da verdade.
— Ninguém vai me impedir de sair dessa casa. Eu vou para onde eu quiser. Eu não sou escrava daquele homem.
— A senhora se casou com ele e assinou aquele contrato. Por acaso leu?
Paralisei, enquanto ondas de choque invadiam meu corpo magro. Meu cabelo ruivo e longo estava embaraçado; eu quase não me sentia humana, depois da noite infernal em que aquele homem me usou como um animal perverso.
— Contrato?
— Sinto muito, senhora Pax, mas se vendeu porque quis. Estava mais interessada na fortuna do Sr. Black, e, pelo que vejo, aplicou um belo golpe da barriga!
Senti meu corpo inteiro congelar. Era isso. Eu estava condenada a sofrer o martírio. Se ao menos tivesse lido o contrato firmado com aquela maldita senhora... Mas eu estava desesperada demais por dinheiro. Precisava quitar a dívida antes de prosseguir com o tratamento, e agora sequer conseguia sair de casa para ir até o hospital.
Tanta luta para sobreviver ao destino cruel da doença, e eu sentia que morreria definhando aos poucos, presa àquele quarto, como a escrava de um homem sádico.
— Não apliquei golpe nenhum. Eu só quero ir embora! — chorei, desesperada por alguma ajuda.
Joguei-me aos pés da senhora e toquei seus pés, estranhamente calejados demais. Havia cicatrizes que subiam pelas pernas idosas, por baixo da saia.
— Saia daí, menina! Isso não vai te redimir das atrocidades que fez. Nada te perdoaria por tudo!
— O que eu fiz? — Meus olhos estavam completamente inundados de desespero quando olharam para cima, encontrando como resposta apenas a frieza da mulher.
A senhora era bondosa demais para me chutar no rosto, mesmo naquela posição desfavorável, mas a verdade é que a vontade parecia cada vez mais intensa e tentadora.
— Ora, levante-se e vá para o banheiro. O Sr. Black não vai gostar de chegar e ver você toda suja desse jeito.
— Eu não posso mais fazer isso. Eu não quero mais dormir com ele, por favor... — implorei, desesperada por alguma ajuda para fugir do destino que me aguardava em algumas horas. — Ele é um monstro. Você não vê o que ele fez comigo?
A senhora praticamente escaneou meu corpo franzino, e o olhar de desdém me atingiu em cheio. Não havia um único sentimento de remorso nos olhos daquela senhora, como certamente não deveria haver para o seu chefe também.
— Ele não é um monstro. O Sr. Black é um homem muito bom.
— Ele é um monstro, sim. Você não vê? Como pode não enxergar... Olhe só o que ele fez para mim. Ele foi tão...
A senhora contorceu o rosto, sentindo a irritação cada vez mais intensa. Ainda assim, a voz que saiu dela parecia tão pacífica quanto no momento em que entrou no quarto, carregando a bandeja com a refeição que eu sequer merecia.
— Acredite em mim quando digo que ele foi muito bondoso com você. Qualquer outro homem nessa cidade teria dilacerado você e depois compartilhado com pelo menos mais meia dúzia de homens. Agora vá tomar um banho e pare de lamentar pelo destino que você implorou para ter!
Meu corpo inteiro estremeceu. Como eu poderia ter alguma ajuda se todos me odiavam? A única saída daquele lugar seria contar a verdade, mas talvez meu marido não acreditasse em mim. Talvez a forma autoritária com a qual ele lidava com tudo só me fizesse morrer mais rápido, porque eu tinha certeza: ele odiava ser enganado.
Tudo o que pude fazer foi chorar. Então, virei-me e andei em direção ao banheiro do quarto, sem ouvir as reclamações da velha senhora me proibindo de usar aquele cômodo específico.
Não a ouvi enquanto ligava o chuveiro. A dor no meio das minhas pernas praticamente me torturava tanto quanto a noite de terror. Era como se eu ainda pudesse sentir o latejar dele dentro de mim e, enquanto me banhava, mal podia tocar em minha parte íntima machucada.
Chorei de desespero. Eu sabia que não suportaria outra noite e tinha certeza de que desfaleceria se ele me tratasse da mesma maneira outra vez. Eu ainda antecipava cada som vindo do quarto, temendo que ele pudesse chegar a qualquer momento para me machucar mais uma vez.
