Capítulo 4 Por favor

Forcei a abertura da porta, mas estava trancada. Ainda assim, eu não podia desistir. Eu não ficaria parada, esperando que aquele homem me usasse como um animal no cio mais uma vez. Então, meus olhos aflitos focaram na única janela aberta para o lado de fora da mansão.

Não havia qualquer roupa capaz de esconder minha nudez, mas busquei pela camisa do homem que me odiava e repudiei o cheiro. Em qualquer circunstância, eu preferiria a morte a ter o perfume daquele homem exalando tão próximo ao meu corpo mais uma vez, mas, naquele instante, eu aceitaria qualquer coisa se pudesse me impedir de sentir o toque de suas mãos ásperas.

Meu coração já antecipava que a queda doeria mais do que eu esperava, mas não seria tão terrível quanto as estocadas que aquele monstro me daria, se me encontrasse tentando escapar. Então, olhei aflita para baixo, esperando que, se aquilo me machucasse, ao menos ele me deixasse em paz por algum tempo.

Fechei os olhos e pulei. Eu estava tão anestesiada que sequer senti a dor do pé quando ele torceu para o lado. Então, me agarrei à parede para conseguir me levantar.

Não havia como correr, mas andei o mais rápido que consegui, esperando que fosse o bastante para me livrar daquele inferno que me esperava se o homem me pegasse.

O medo era como um companheiro fiel, e a paranoia se tornava cada vez mais perturbadora, à medida que eu olhava para trás, esperando que ele não me encontrasse novamente.

Meus olhos, inundados de lágrimas, focaram em um casebre no meio do nada, depois de andar exaustivamente à procura da casa mais próxima. Eu podia jurar que ouvira a velha dizer que aquela era uma cidade; no entanto, que tipo de lugar era aquele se não havia uma única casa por perto, além da mansão dos Black?

Tateei com dificuldade em direção à pequena casa de madeira, até que consegui bater na porta de um jeito desesperado. Eu ainda olhava para trás a cada segundo, temendo ser vista por alguém. Se todos na cidade me odiavam, ser encontrada pelo Sr. Black era o melhor entre todos os pesadelos que poderiam me acontecer.

A porta se abriu, e o espanto tomou conta dos meus olhos já assustados. Senti um alívio percorrer todo o meu corpo, mas não durou por muito tempo. Quando a mulher bateu a porta novamente, senti que deveria perder as esperanças. Eu, no entanto, jamais desistiria de me livrar daquele triste fim, ao lado do maldito homem que me aprisionaria e me torturaria até o limite da vida.

Bati exaustivamente na porta até que a maldita velha, cansada, a abriu.

— O que você quer? — Os olhos dela eram tão frios, e as marcas roxas no meu corpo não a impressionaram.

— Eu preciso conversar com você — implorei. — Por favor, me deixe entrar!

— Não! Diga o que você quer de onde está! É o bastante.

— Por favor, eu quero desfazer o nosso acordo. Eu posso devolver todo o dinheiro se você quiser.

— Que dinheiro, garota! — A mulher zombou.

— O que você vai me dar pelo acordo? Eu não posso mais fazer isso. Deveria ser apenas por uma noite, mas você nunca apareceu.

A velha senhora sorriu:

— Olhe para mim, inútil. Acha mesmo que eu tenho algum dinheiro para te dar? Primeiro, você deve conseguir isso para mim.

— O quê? — Arregalei os olhos. Meu corpo inteiro tremia de pavor. Eu jamais seria capaz de aplicar um golpe a quem quer que fosse, e definitivamente não faria aquilo ao Sr. Black. Ele me mataria sem pensar um único segundo.

— É isso que você ouviu. Eu não tenho dinheiro, e você, querida, vai nos deixar ricas.

— Eu não vou fazer nada! — cuspi as palavras, repudiando a figura da velha.

— E o que você vai fazer? Acha que consegue fugir? — Ela riu. — O Sr. Black tem tentáculos por todos os cantos. Boa sorte tentando escapar dele. Só vai piorar essas suas marcas no pescoço... — Irina zombou.

Eu não podia acreditar que havia me livrado de um destino de humilhações ao lado do meu noivo para algo ainda pior que aquilo. Jamais teria lutado tanto se soubesse que acabaria parando em mãos piores que as anteriores.

Meu coração se inundava de desespero a cada segundo em que eu continuava ali, parada em frente à porta. A vulnerabilidade era uma constante e, conhecendo a mãe de Pax, entendi o motivo para que as pessoas a odiassem tanto na cidade.

— Eu vou contar a verdade para o Sr. Black! — afirmei, mas nem mesmo eu tinha certeza se seria uma boa ideia.

A mulher de traços fortes gargalhou. Ela tinha aproximadamente cinquenta e seis anos, mas ainda possuía traços lindos e nada sutis em seu rosto cansado. Mesmo morando naquele lugar estranho, ainda mantinha a aura de realeza, como se a soberba fosse o último bem que poderia ser arrancado à força dela, mas o Sr. Black se encarregaria de fazê-lo a todo custo.

— Você acha que ele vai fazer o quê quando disser isso?

— Eu não sei, mas ele odeia a sua filha, e eu não posso pagar pelos pecados da sua família.

— Ele não odeia apenas a minha filha. Ele odeia o pai dela e a mim. Ele odeia as pessoas de classe dessa cidade.

— Por quê? Por que esse homem odeia tanto assim?

A senhora riu mais uma vez:

— Apenas volte para casa antes que ele descubra que você fugiu. Vai ser melhor assim.

— Eu não posso. Eu vou escapar, e se ele me encontrar, vou contar tudo.

A mulher liberou um riso sinistro mais uma vez, e cada centímetro da minha pele alva se ouriçou.

— Se você acha que ele vai acreditar no que diz, boa sorte. Eu vou adorar ver como ele vai te destruir ainda mais, e essas marcas ridículas não vão ser nada perto do que ele vai fazer se achar que você está mentindo. Agora saia da minha porta e espere que eu volte a te procurar.

Escutei quando a porta de madeira se arrastou até ser trancada mais uma vez. Era como estar dentro de um pesadelo sem fim. Eu havia me enfiado em um labirinto de mentiras e não sabia como fazer para sair.

Virei-me para ir embora, mas senti quando olhos queimavam minhas carnes. Eu sabia que deveria sentir medo e permiti que cada membro do meu corpo tremesse com o pesadelo prestes a acontecer outra vez.

— Você gostava tanto de chicotear a gente. Vamos ver como é sentir a carne se partir!

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