Capítulo 6 O que há de errado
Eu ainda mantive meus olhos suplicantes, mas não parecia surtir qualquer efeito. Aquele homem de ferro não transmitia emoção alguma.
Seus olhos cor do mar profundo continuavam parados, encarando-me. As pessoas ocupadas nem mesmo pareciam tê-lo notado ali, mas, de toda forma, eu sabia que ele nunca me ajudaria.
Mais um golpe, e eu não reagi. Eu não podia sentir mais nada. Estava completamente imersa na frieza dos olhos daquele homem para perceber qualquer coisa ao redor. Não sentia nada, nem mesmo a forma como o maldito agressor colocava um dedo em mim. Não havia nada se passando por minha mente além do pensamento repetitivo que eu não conseguia entender: como um homem seria capaz de permitir que sua esposa fosse usada por outro homem? Sebastian havia sido o primeiro a tocar em mim, e as lembranças daquela noite ainda causavam dor ao meu coração como queimaduras recentes.
Ele ainda não esboçava qualquer reação, e por isso interrompi o contato. Eu não podia ver o momento em que seria violada daquela forma. Eu não podia mais olhar para ele, e por isso fechei meus olhos tristes.
Um som estridente fez eco por todo o ambiente, e ainda assim não abri os olhos. Não poderia, mesmo que quisesse. As emoções tinham me tirado da estabilidade, e eu sabia que isso pioraria minha doença terrível. Não havia nada a ser feito, mas talvez, se pudesse me entregar à morte, fosse melhor assim.
Sebastian Black invadiu o ambiente com sua postura impecável de realeza, alcançando-me, completamente exposta. Os olhos dele pareciam brilhar de ódio, mas o rosto continuava impecável, sem qualquer emoção. Depois de tudo o que havia passado por causa da verdadeira Pax, não devia ter restado um único traço de amor em seu coração, e ele parecia nem entender o motivo de ter impedido aquela atrocidade.
Ele devia saber que deixar aquilo acontecer ia contra os próprios princípios, mas como recusar àqueles homens quando muitos haviam passado pelo mesmo que tentavam fazer comigo? Como fazer alguém entender?
— S-Sr. Black! Nós só... Nós só estávamos...
Mas um olhar cruel dele o interrompeu:
— Poupe-me dos seus argumentos.
— Nós sentimos muito. Achávamos que o senhor não se importaria com ela! — um deles afirmou, com os olhos cheios de medo e respeito.
Era claro que aqueles não eram homens totalmente maus, mas o que esperar de pessoas que foram tratadas como animais no passado? Como pedir que se comportassem diferente agora?
— Já basta! — ele esbravejou. — Não quero explicações.
Havia uma repulsa clara no rosto dele. Mesmo assim, ele ainda me envolveu em seu blazer caro, evitando que eu sentisse ainda mais vergonha da exposição terrível a que me obrigaram. Um nojo estampado em seu rosto duro se fez presente quando ele me pegou no colo, embora eu ainda parecesse a mais frágil das mulheres. Foram longos minutos até chegar ao carro, e tive a sensação de que, a cada passo, ele se imaginava me jogando no chão.
A cicatriz no meio do peito dele não havia chegado ao coração, mas parecia tê-lo ferido de outra maneira, porque aquela proximidade parecia lhe causar dor. Ter a minha cabeça encostada no meio de seu peito... Para ele, devia ser como estar em um pesadelo que o envolvia em lembranças que odiava recordar.
As memórias de Pax abraçada a ele, para logo depois a sensação terrível de ser levado para longe de sua casa, da sua vida e de tudo o que amava. Ele nem mesmo pudera proteger o que era seu... O ódio dele só parecia aumentar enquanto me carregava, visivelmente desejando me machucar.
Quando o carro começou a seguir seu curso, senti que ele observava meu rosto sereno. Na mente dele, devia parecer que eu fingia não ter culpa alguma, e ele devia pensar no quanto Pax podia ser mentirosa, mesmo dormindo. Na cabeça dele, eu era uma maldita mulher. Ele poderia facilmente ter me matado se quisesse, mas não... Para ele, Pax não merecia a morte; o sofrimento deveria ser uma constante em sua vida.
O Sr. Black encarava-me com frieza, decidido a me fazer ter uma vida muito diferente da que julgava que eu conhecia. Ele queria que eu sentisse o que ele sentiu e sofresse o que as mulheres da região também sofreram. As sensações de pânico e terror, o medo e a certeza de que não havia justiça no mundo deveriam me acompanhar para sempre em minha vida miserável.
Aquela nunca fora a intenção do Sr. Sebastian Black, mas, quando descobriu que a esposa mentia, soube que não deveria tê-la perdoado por tudo. Por que inventar a maldita história da gravidez? Por que dar a ele a esperança de um filho? Na mente dele, eu era uma mulher mil vezes maldita.
Quando o carro parou, ele me pegou no colo. Parecia ofensivo para ele que dormíssemos na mesma cama, e ele parecia ter jurado a si mesmo que não se descontrolaria mais. Que não deveria me tocar nunca mais — embora estivesse mentindo para si mesmo.
Ele me jogou na cama e, embora não tenha sido cuidadoso, pareceu sentir um arrependimento instantâneo. Para ele, eu era uma maldita, mas ainda linda como um anjo. Ele devia estar confuso por não entender como a mulher diante dele havia conseguido mudar tanto a forma de olhar, mudado tão rápido. Eu devia parecer mais linda, mais jovem, mais inocente... angelical. Uma droga de mulher!
Ouvi quando ele saiu do quarto, tomada a fúria em cada músculo de seu corpo. Ele devia ter cerrado os punhos, até que bateu violentamente contra a parede do corredor. Em sua mente, remoía o fato de como Pax conseguira destruir uma amizade sincera... Eram muito diferentes em idade, e ele jamais seria capaz de fazer aquilo de que fora acusado injustamente, mas pagara por erros que nunca cometeu. Minha virgindade intacta fora a prova disso, e se o pai da maldita mulher estivesse vivo, Sebastian o faria arrepender-se da acusação. Faria a todos. Mas já era tarde demais: todos haviam morrido.
— O que há com você, meu bem? — uma mulher alta como uma gazela perguntou, surgindo no corredor.
— O de sempre. A droga da minha esposa!
