Capítulo 1

Capítulo Um: Eu Me Vinguei

No porão, jazia uma mulher jovem, na casa dos trinta e tantos anos, quase inconsciente, sobre um colchão imundo. Uma cicatriz irregular se estendia de sua pálpebra esquerda até o lado direito do rosto. O nariz sangrava abundantemente, e seu rosto estava pálido. Mal se ouviam as palavras que saíam de sua boca enquanto vários homens a agrediam. Acontecia todos os dias havia dez anos. Era quanto tempo ela estava presa ali, talvez. Era o karma cobrando o preço pelos seus atos.

De repente, uma ânsia de vômito a atingiu, mas, em vez de vomitar naquele homem, ela engoliu, porque nunca sabia quando seria sua próxima refeição e não comia nada havia vários dias.

— Meu Deus, é a décima vez, e ela ainda é tão apertada. — O líder daquele abuso era Henry Rowan, e a mulher era Elsie Ross. Ele parecia acabado, com aparência de alguém duas vezes mais velho do que um homem no fim dos cinquenta; as roupas rasgadas e amarrotadas, completamente careca. Os dentes, antes bons, haviam amarelecido por causa do excesso de cigarro, e alguns tinham caído por causa de comida lixo. Aquilo fazia Elsie se perguntar, todas as vezes, como tinha se apaixonado por ele.

Pouco depois, terminaram com ela. Todos cuspiram em seu corpo e a xingaram:

— Puta. Você é uma puta do caralho, fingindo que não gostou de nada. Vadia!

Mesmo que Henry e os amigos a abusassem diariamente, ela sabia que ele não era o mentor. Henry era focado demais em maconha, e mulheres estavam arquitetando um plano tão sórdido que arruinara sua vida. Elsie Ross, anteriormente Elsie Scott, era a única filha e herdeira exclusiva da família Ross. Nascera com colher de ouro na boca — e não era uma puta para aqueles viciados.

A isso, Elsie não deu atenção; em vez disso, esforçou-se para recordar momentos felizes com a família, especialmente com o ex-marido, Aiden Scott; ela ouvira dizer que ele se casara de novo cinco anos após o divórcio. Ela se perguntava quem era a mulher de sorte e rezava para que ela o fizesse feliz. Embora uma pontada de ciúme se agitasse em seu estômago ao imaginar outra mulher nos braços dele...

— Por que você está sorrindo, sua vadia? — Uma bela mulher vestida com um vestido-corset branco apareceu na escada. Tinha cabelos loiros e olhos azul-gelo. E um corpo pelo qual homens morreriam. Era Trickson Dale, a captora de Elsie e prima maligna. A mão direita do mentor.

Ela continuou, cruzando os braços de um jeito que deixava à mostra o anel de noivado de dois milhões de dólares.

— Não acredito que você ainda consegue rir. Você ainda é capaz de usar essa emoção?

Com preguiça, Elsie desviou os olhos do anel, que lhe dava náuseas por ser dinheiro da sua família. Aquilo lhe apertava o coração. Ela reuniu coragem para sorrir.

— Enquanto eu tiver as lembranças dele, posso viver mais mil anos.

— Ah, é mesmo? — Trickson não conseguiu evitar explodir numa risada contagiante. Sua expressão se suavizou, e ela ficou ainda mais bonita. Aproximando-se, tirou um documento. — Que lembranças? As que não duram nem dois fins de semana?

Isso foi como uma adaga atravessando o coração de Elsie. Era verdade: ela só tinha boas lembranças com o ex-marido, Aiden, quando estava grávida do filho deles; depois do nascimento, ela deixou aquela puta convencê-la de que Aiden a tinha drogado só para prendê-la com a criança. Aquilo a deixava tão furiosa que ela queria cuspir sangue.

Uma fragrância estranha invadiu o nariz de Elsie conforme Trixson se aproximava; cheirava bem, mas ainda assim a repelira. Percebendo isso, Trixson riu com vontade, com a voz enjoativamente doce:

— Ah, bobinha, essa é minha nova fragrância, lançada na semana passada. E hoje também lancei meu aplicativo para meus fãs e minha gravadora. Quero retribuir ao mundo.

Elsie encarou Trix com uma expressão feroz, ridicularizando aquele altruísmo falso.

— Retribuir ao mundo? Ha! Nada disso é seu. Eu te dei aqueles papéis e dinheiro. Eu fiz de você quem você é.

Era verdade. Elsie crescera assistindo a muitos filmes e lendo livros. Tinha talento para prever quais filmes se tornariam famosos ou não. Por isso, ajudou Trix em cada filme que ela conseguiu. Mas o que recebeu em troca? Trancada num porão, sem comida nem cuidados médicos.

— Ah, querida, você tem razão. Eu te retribuí deixando você viver tanto tempo. Abaixo fica a minha luxuosa mansão de duzentos e dez milhões de dólares, com comida e água pelo menos uma vez por semana. Você devia ser grata. Sua mãe não te ensinou a não ser ingrata?

Incapaz de ouvir mais daquele lixo, Elsie falou com a voz fraca, por causa da fome:

— Cala a boca! Não desonre ela chamando-a assim com essa sua boca podre.

“Olha só quem está falando. Um saco de lixo ambulante. Quando foi a última vez que você tomou banho? Tá vendo? Nem consegue lembrar. Deixa eu te ajudar.” Ela tirou um perfume dourado da bolsa e borrifou em Elsie, tapando o nariz com a palma da mão.

“Vai embora! Isso fede igual à sua personalidade podre!” Ela gritou, odiando a si mesma por estar vulnerável. Por fim, reuniu toda a força que lhe restava e berrou: “Eu era feliz e amava meu marido até você aparecer e estragar tudo. Você me fez acreditar que ele era um estuprador, um traidor em série e até um assassino. Eu maltratei meu filho por sua causa. Você me apresentou a um estuprador, por quem eu deixei meu marido. Como você me ajudou? Como? Me convencendo a transferir toda a minha pensão para a sua conta e a do Henry. Você é maligna e vai morrer de uma forma terrível!”

“Não me culpe pela sua estupidez de nascença, vadia”, ela zombou.

“Sério? Você quer que eu vá embora. Não quer saber como seu marido e seu filho estão?” perguntou, com um sorriso distorcido no rosto, enquanto enfiava a mão na bolsa de grife para pegar o celular. A galeria continha fotos de Aiden e do filho dele, Eldon. Eram fotos aleatórias deles no parque, na escola, na empresa dele e no túmulo dela.

Ah, sim. O mundo inteiro sabia que ela tinha morrido em um avião indo encontrar o namorado, Henry. Obviamente, mais um plano arquitetado por seus captores; depois que ela transferiu seus bens, eles os receberam para desperdiçá-los da forma que bem entendessem. Enquanto Trix gastava subornando gente por papéis, já que Elsie não a ajudaria mais, Henry gastava apenas com drogas e mulheres.

Ao ouvir aquilo, o corpo de Elsie, antes fraco e violentado, ganhou força. Ela se apoiou na parede manchada de sangue, com excitação e anseio faiscando em seus olhos.

“Estou vendo nos seus olhos.” Trix riu com deboche, jogando o cabelo ondulado para trás. Passou para a esquerda até uma foto em que havia uma terceira pessoa entre eles. As pupilas de Elsie se arregalaram ao reconhecer quem era. “Aiden está bem e agora é casado. Seu filho, Eldon, não poderia estar mais feliz. Li que ele escreveu uma música para o aniversário de casamento dos pais.” Agachando-se de joelhos, Trix jogou alguns lenços para Elsie e, com uma voz suave, disse: “Eles estão bem sem você. Agora você pode morrer.”

Bang

Antes que Elsie pudesse entender o que Trix queria dizer, ouviu um som alto quando um objeto disparado em alta velocidade atravessou sua pele. Era inacreditável e doloroso.

Bang bang

Dois tiros ecoaram, perfurando seu estômago e seu peito. Seus olhos encontraram os de seu assassino, Henry, o homem que ela amou tão profundamente até descobrir que ele não a amava. Ela murmurou, no que pareceu ser seu último suspiro: “Eu sei.”

Trixson zombou com desdém, revirando os olhos. “Aff. Eu odeio essa energia triste que você está irradiando agora.”

Bang bang!

“Rodnaya?”

Aquele apelido.

Em seus últimos momentos, ela ouviu uma voz familiar chamá-la. Não podia ser. Seus cílios tremularam enquanto tentava abrir os olhos. Uma figura alta e vaga se aproximou dela. Ela conseguia ver dois corpos no chão.

As mãos grandes dele seguraram seu rosto, a preocupação dominando seus traços lindos. “Rodnaya? Meu amor, não morra. Eu amo você.”

“E-eu a-”

Bang bang bang

A figura alta caiu no chão, afundando todas as suas esperanças de uma vida feliz após a morte. Elsie não conseguiu evitar gritar e chorar. Sentiu uma dor aguda no coração. Seu coração se partiu em um milhão de pedaços. Lágrimas escorreram de seus olhos como se estivessem em fila. Determinada, Elsie decidiu descobrir quem era a assassina antes de entregar a alma. Arrastou o corpo de Aiden para o colo.

“Ele está morto?” perguntou uma voz familiar e ao mesmo tempo estranha, seguida de uma risada cruel. Era uma mulher alta, vestida de couro e com salto de cinco polegadas. Por causa da escuridão, apenas a luz fraca que entrava pelas janelas trancadas permitia distinguir a cor do cabelo dela. Castanho e sedoso.

Será que ela era a mente por trás de tudo?

A mulher soltou uma risadinha e virou o rosto para longe da luz, deixando as costas voltadas para Elsie. “Ele sacrificou toda a fortuna dele para descobrir onde você estava. Conseguiu ver você, e eu consegui minha vingança. No fim, todos nós ganhamos, não acha?”

Tomada pela fúria, Elsie ergueu o olhar para o céu com o corpo do ex-marido nos braços. Ela jurou, enquanto lágrimas quentes escorriam por seu queixo: “Trixson, Henry e você. Eu vou fazer vocês pagarem por isso, nesta vida ou na próxima. Eu prometo!”

Instantaneamente, a risada arrogante da mulher reverberou por todo o cômodo. Ela revirou os olhos enquanto apontava a arma para Elsie. “Tá. Tanto faz.”

Bang!

As janelas trancadas começaram a sacudir quando um vento forte soprou. Elas se abriram de repente, e o espírito indomável de Elsie Ross partiu, jurando vingança.

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