Capítulo 1
Ponto de vista de Elise:
Minha vida virou de cabeça para baixo e eu não sei como consertar. Recentemente comemorei meus 21 anos, mas também tive a maior surpresa da minha vida. Descobri que fui adotada.
Meus pais me disseram que não havia nenhuma informação sobre meus pais biológicos. É quase como se eles não existissem. Algumas pessoas me encontraram na mata.
Não muito depois de desligar o telefone com a minha mãe, fiquei deitada na cama pensando em várias perguntas para as quais eu provavelmente nunca vou ter resposta.
A manhã chegou rápido demais depois de eu pegar no sono tarde da noite. Meu cérebro não desligava. Mas, assim que começo a acordar, algo parece errado. Meu corpo está frio demais e rígido. Abro os olhos de supetão e me dou conta de que não estou mais no meu quarto.
Sento depressa e olho ao redor. Estou cercada por árvores e deitada sobre um leito de flores.
— Mas que porra é essa? — digo para mim mesma. Estou sonhando? O que está acontecendo?
Olho ao redor, confusa com tudo aquilo. Pouso as mãos no colo; minhas roupas parecem diferentes. Olho para baixo e vejo que não estou mais de pijama. Estou com um vestido preto e vermelho. Há uma fenda de um lado que sobe pela minha perna inteira, parando a uns dez centímetros do meu quadril. Botas pretas de combate cobrem meus pés.
Tento me levantar e quase perco o equilíbrio. Seguro na árvore mais próxima para me apoiar. Começo a andar, tentando encontrar uma saída daquele lugar. Consigo ver uma clareira mais à frente. Mas, quando me aproximo da borda da linha de árvores, paro abruptamente. Ouço vozes masculinas que não reconheço. Isso com certeza é um sonho, né? É normal ter estranhos em sonhos. Mas alguma coisa não parece certa.
— Você acha que vamos conseguir encontrar a garota que o príncipe das trevas está procurando? Se a gente achar ela antes das fadas, vamos ter vantagem. Nem todo mundo sabe que o príncipe está procurando por ela. Aposto que a gente consegue descobrir como ela é — diz um dos homens.
— O Ezra ia tentar destruir a raça dos lobisomens se a gente pegasse a garota antes dele. Essa garota parece ser alguém especial pra ele, se ele está tentando encontrá-la em segredo e não quer que os lobisomens saibam. Dizem que ele teve visões dela. E também estão dizendo por aí que ele falou muito bem da beleza dela — diz outro.
Do que eles estão falando? Fadas? Lobisomens?
Consigo vê-los de leve, a alguns metros de distância. Se eu der um passo à frente, eles vão conseguir me ver. Vejo quatro homens. Cada um deles parece estar em péssimo estado. O olhar no rosto deles me dá arrepios.
Dou um passo para trás e ouço um estalo sob o meu pé. Em silêncio, me xingo e torço para que eles não tenham ouvido. Mas, claro, minha vida nunca acontece do jeito que eu quero. Os quatro homens surgem de repente bem na minha frente.
— O que temos aqui, rapazes? — pergunta um deles, dando um passo na minha direção.
Meu coração dispara de medo. Dou um passo para trás. Mas todos eles continuam avançando. Dou mais um passo para trás, então me viro e corro o mais rápido que consigo.
Consigo ouvi-los vindo atrás de mim, mas continuo correndo. Nem ouso olhar para trás. Galhos e outras coisas batem nos meus braços e pernas. Arde, mas eu não posso parar.
— Para de correr. Não tem pra onde você ir. Uma hora a gente te pega. Você não é muito rápida. A gente só tá deixando você achar que vai conseguir escapar.
Sinto dedos roçarem meu braço quando um deles tenta me agarrar. Solto um gritinho quando meu pé prende em alguma coisa e eu caio para a frente. Estico as mãos para amortecer a queda. Uma fisgada de dor sobe pelos meus braços quando bato no chão.
— Olha só, rapazes, hoje a gente vai se divertir. E é ainda melhor que a gente nem precisou procurar; ela veio direto pra gente. Você tá exatamente onde a gente quer, sua coisinha bonitinha. — A voz dele soa áspera, e eu sinto ele perto das minhas costas.
— Não encosta em mim! — grito quando ele põe a mão nas minhas costas.
Eles não ligam; sinto mãos me apalpando onde conseguem. Tento me afastar, mas um deles me puxa de volta com brutalidade. Isso não é bom. Eu não sei como sair dessa. Um deles agarra minha coxa e me puxa agressivamente na direção dele.
— Não, por favor, para — imploro.
Antes que consigam fazer qualquer outra coisa, os toques somem. Ouço grunhidos e um barulho como se eles estivessem caindo no chão. Não tenho coragem de olhar para ver o que está acontecendo. Aperto os olhos, esperando acordar desse pesadelo. Mas, conforme os minutos passam, percebo que não estou acordando.
A curiosidade fala mais alto e, por fim, eu espio. Baixo as mãos, fazendo uma careta quando elas encostam no chão áspero, e me empurro até ficar sentada.
Olho ao redor e vejo alguém de pé à minha esquerda. Ergo o olhar e vejo um homem me encarando de cima. Ele é bonito, mas está me fuzilando com os olhos. Eu me encolho ao lembrar do que aqueles homens estavam prestes a fazer. Será que esse cara vai fazer o mesmo? Mas, quando olho em volta, vejo os outros homens desacordados a alguns metros de mim.
— Você devia ter mais juízo do que ficar zanzando sozinha por essa parte da mata. Sempre tem uns tarados se escondendo por aqui — ele me repreende.
Como eu ia saber? Eu nunca estive aqui antes. Eu estou tão confusa.
Olho para ele mais uma vez, e ele bufa para mim. Reviro os olhos quando a irritação me sobe. Abaixo o olhar para as minhas mãos e noto que estão raladas e cheias de hematomas. Tento me levantar, mas acabo cambaleando.
— Porra.
Ergo o olhar e vejo ele revirando os olhos para mim. Mas que encanto, hein?
— Obrigada por me ajudar. Eu não sei como teria conseguido fugir deles.
— Não precisa agradecer. Você só não devia ter vindo pra cá e se metido numa situação de merda. Da próxima vez, fica em casa. — Dá pra ouvir a irritação no tom dele.
Não consigo evitar me sentir incomodada. Cruzo os braços sobre o peito e noto ele baixar o olhar por um instante antes de levantar de novo rapidamente.
— Eu não moro por aqui. Eu quase achei que estava sonhando.
Ouço ele soltar uma risadinha. Eu lanço um olhar fulminante. Ele tenta segurar o riso, mas não consegue.
— Odeio te decepcionar, mas isso com certeza absoluta não é um sonho.
