Chapter 1
Eu bati palma.
Nao porque a musica era boa. Ela era. Eu tinha escrito cada verso.
Bati palma porque Bianca Monteiro, a mulher que o Brasil chamava de Rainha do Pop, acabava de cantar a minha tristeza com a mao no peito, os olhos molhados e a voz tremida na medida certa para virar corte no TikTok.
E porque meu noivo estava atras do vidro do estudio particular dela, sorrindo como se tambem tivesse criado alguma coisa.
Rafael Nunes nao me viu entrar.
A porta lateral do estudio em Pinheiros ainda abria com a minha digital. Eu mesma tinha cadastrado aquela biometria tres anos antes, numa madrugada em que Bianca chorava dizendo que precisava de mim para salvar um album inteiro. Na epoca, Rafael me beijou a testa e disse:
"Amor, fica tranquila. O seu momento vai chegar."
Meu momento chegou com ele passando a mao pela cintura de Bianca.
Nao foi um toque de produtor. Nao foi um gesto distraido. Foi posse antiga. Foi intimidade ensaiada. Foi a mao de quem conhecia o caminho sem pedir licenca.
Bianca riu baixo. A voz dela saiu pelo retorno do estudio.
"Para, Rafa. A Livia pode aparecer."
Ele respondeu:
"Ela sempre aparece quando a gente precisa. Depois some."
Eu fiquei parada no corredor, com a mochila no ombro e o cafe esfriando na mao.
Eles achavam que eu era quieta.
O problema e que gente quieta tambem aprende a guardar prova.
No computador principal, a sessao do Pro Tools estava aberta. O titulo do projeto brilhava no monitor: "Cicatriz Bonita - BM final vocals". Eu conhecia aquele nome. Nao era o nome que eu tinha dado. O meu arquivo original se chamava "nao consegui entrar no quarto da minha mae".
Eu tinha escrito aquela musica depois de vender os moveis da casa dela. Minha mae morreu num domingo de chuva, e eu passei meses sem conseguir abrir a porta do quarto onde ela guardava vestidos, recibos e bilhetes de supermercado. A primeira demo era feia, baixa, quase sussurrada. Nao tinha glamour. Nao tinha coreografia. Tinha so uma filha admitindo que luto nao tem estetica.
Agora Bianca cantava:
"Eu pintei minha dor de brilho."
Eu nunca escreveria essa frase. Parecia legenda de marca de maquiagem.
Rafael entrou na cabine com uma garrafa de agua. Encostou o polegar no queixo dela.
"De novo no pre-refrao. Mais quebrada. O publico precisa sentir que voce esta abrindo uma ferida."
Bianca fechou os olhos.
"Mas a ferida e dela."
"Agora e sua", ele disse.
Foi ai que parei de sentir frio.
Nao gritei. Nao joguei o cafe. Nao invadi a cabine. Eu tinha vinte e nove anos, oito anos de credito roubado e uma alianca no dedo que de repente parecia feita de chumbo. Uma mulher aprende a escolher onde sangra.
Eu dei dois passos para tras e puxei o celular. Filmei a tela do computador. Filmei o nome da sessao, a data, a pasta de vocais, os takes com as iniciais BM sobre a minha guia antiga. Dei zoom no canto inferior, onde aparecia o arquivo "LD demo rough - 03h12".
Meu nome. Pequeno. Quase lixo.
Mas estava la.
Rafael saiu da cabine primeiro. Eu guardei o celular no bolso e virei para a maquina de cafe como se tivesse acabado de chegar.
"Livia." O sorriso dele quase me enganaria em outro dia. "Voce veio."
"Voce pediu os arranjos das pontes ate hoje."
Bianca apareceu atras dele, descalca, vestindo uma camisa larga que eu reconheci. Era de Rafael. Azul, com uma mancha de vinho perto da barra.
Ela abriu os bracos.
"Minha salvadora."
Eu olhei para a camisa. Depois para Rafael. Depois para a tela.
"A musica mudou bastante."
Bianca passou por mim e pegou meu cafe, como sempre fazia. Como se tudo que eu levasse para dentro daquele estudio ja pertencesse a ela.
"A gente precisou deixar mais universal."
Universal. Era a palavra que usavam quando queriam vender uma dor sem pagar por ela.
Rafael encostou a mao nas minhas costas. Meu corpo inteiro rejeitou o toque.
"Voce entende, amor. A Bianca precisa de uma narrativa para o single."
"E eu preciso do que?"
Ele piscou, rapido.
"Como assim?"
Eu sorri. Foi um sorriso pequeno, educado, quase morto.
"Nada. Esquece."
Bianca bebeu meu cafe e fez uma careta.
"Sem acucar de novo. Livia, voce tem alma de viuva."
Eu pensei na minha mae. Pensei na porta do quarto dela. Pensei na minha demo virando produto na boca daquela mulher.
"Talvez."
A reuniao durou mais duas horas. Bianca pediu uma ponte nova. Rafael pediu que eu limpasse "as marcas pessoais demais". Eu sentei no sofa, abri meu notebook e escrevi. Eles queriam uma musica perfeita. Eu daria uma musica perfeita.
Enquanto digitava, copiei a pasta inteira para um HD pequeno escondido no forro da mochila. Vi Rafael assinar no tablet uma aprovacao de "consultoria criativa". Vi o percentual dele. Vi o meu espaco em branco.
Quando sai, a madrugada tinha lavado Sao Paulo de neon e garoa. Rafael tentou me acompanhar ate o carro.
"Voce esta estranha."
"Estou cansada."
"Depois do lancamento a gente fala do casamento, ta?"
Olhei para a alianca. O metal refletiu a luz amarela da rua.
"Claro."
Ele me beijou a testa. O mesmo beijo. A mesma mentira.
No carro, tranquei as portas, apoiei as maos no volante e esperei meu estomago parar de virar. Nao chorei ali. Chorar ocuparia espaco demais.
Abri o notebook outra vez. A ponte nova estava pronta. Melhor que a anterior. Mais forte. Mais grudenta. Mais cruel.
Escrevi ate o sol nascer.
Se eles queriam terminar aquela era com a minha voz enterrada, eu terminaria o album.
So que agora cada faixa seria uma pa.
E aquela seria a cova deles.
