Chapter 2
Durante anos, o publico achou que eu e Bianca Monteiro nos odiavamos.
Nao foi acidente. Foi estrategia.
Quando uma jornalista perguntou por que eu nunca aparecia nos creditos principais, Bianca riu e respondeu que eu era "temperamental demais para a luz". Quando um fa descobriu uma demo minha antiga na internet, Rafael pediu para eu apagar tudo e disse que aquilo alimentava fofoca. Quando uma cantora menor me chamou para produzir um EP, a gravadora de Bianca vazou que eu era dificil, instavel, ingrata.
A suposta briga protegia a unica verdade que importava: eu trabalhava para ela sem poder dizer que trabalhava.
Na manha depois do estudio, sentei no chao da sala com tres HDs, dois celulares antigos e uma caixa de contratos. Meu apartamento em Santa Cecilia parecia menor que de costume. Talvez porque, pela primeira vez, eu enxergava tudo que tinha cabido ali: oito anos de obediencia, noites sem dormir, musicas vendidas como favor.
Rafael mandou mensagem as nove e doze.
Rafa: Sumiu?
Rafa: Bianca amou a ponte.
Rafa: Voce e genial quando nao complica.
Eu nao respondi. Tirei print.
Depois abri conversas antigas. Bianca pedindo:
"Manda tudo que voce tiver sobre abandono."
"Preciso de uma historia triste para o bridge."
"Escreve como se eu tivesse perdido alguem. Mas sem ficar pesado demais."
"Livia, manda a guia com sua voz. A minha ainda nao chegou nesse lugar."
Eu ouvia as mensagens com o volume baixo. A voz dela era doce, preguiçosa, acostumada a receber.
Uma delas me fez parar.
"Rafa disse que voce nao liga para credito. Que voce gosta mesmo e de criar. Entao manda tudo, ta? Confio em voce."
Meu corpo inteiro endureceu.
Rafael nao tinha apenas assistido. Ele tinha construído a jaula e chamado de cuidado.
As dez e quarenta, mandei uma mensagem para Thiago Reis.
Thiago era engenheiro de gravacao. Tinha trabalhado com Bianca no segundo album, o primeiro que explodiu. Na epoca, em uma festa da gravadora, ele bebeu demais e disse alto o suficiente para tres pessoas ouvirem:
"Essa musica nao e dela. Pergunta para a Livia."
Uma semana depois, foi demitido. A versao oficial dizia que ele era "dificil no set". Eu nunca agradeci. Tambem nunca o defendi. Eu tinha medo demais.
Livia: Preciso de ajuda tecnica. Sem perguntas por WhatsApp.
Ele respondeu em menos de um minuto.
Thiago: Finalmente.
Nos encontramos numa padaria perto da Paulista, longe dos estudios onde todo mundo conhecia todo mundo. Thiago chegou de bone, barba por fazer, olhar cansado. Ele nao me abracou. Apenas sentou, colocou o celular virado para baixo e empurrou um pendrive pela mesa.
"Eu guardei algumas coisas."
Olhei para o pendrive.
"Por que?"
"Porque eu fui covarde, mas nao fui cego."
A frase abriu um buraco pequeno entre nos. Nao era pedido de perdao. Era pior. Era uma conta antiga sendo colocada na mesa.
"O que tem aqui?"
"Bounce de sessoes antigas. Logs de exportacao. Fotos de tela. Alguns e-mails em que pediam para eu trocar o nome do arquivo antes de mandar para masterizacao."
Meu cafe chegou. Eu nao toquei.
"Voce sabe que isso pode acabar com sua carreira de novo."
Thiago soltou uma risada seca.
"Minha carreira ja foi parar no porao por ter dito uma frase verdadeira. Pelo menos agora eu escolho a frase inteira."
Pela primeira vez em vinte e quatro horas, senti alguma coisa parecida com ar.
Ele abriu o notebook. Mostrou uma pasta chamada "BM_2018_archive". Dentro, havia uma sessao de uma musica que todo brasileiro conhecia. O hit que fez Bianca sair de cantora promissora para fenomeno nacional. Na trilha guia, minha voz aparecia rouca, antes da producao, antes da maquiagem sonora. No campo de comentarios, escrito pelo assistente da epoca:
"melodia e letra LD, revisar split."
"Split foi revisado?" perguntei.
Thiago me olhou por cima da tela.
"Foi apagado."
Ele abriu outro arquivo. Uma planilha interna da gravadora. Coluna A: titulo. Coluna B: compositores oficiais. Coluna C: consultoria. Meu nome aparecia so na C. Rafael aparecia em "consultoria criativa" com percentual maior que o meu pagamento fixo.
Eu senti enjoo, mas dessa vez nao era fragilidade. Era calculo.
"Preciso provar que esses arquivos existiam antes das versoes dela."
"Da para fazer ata notarial em cartorio", Thiago disse. "Levar os arquivos, registrar hash, data, conteudo. E melhor falar com advogado antes de soltar qualquer coisa."
"Eu vou falar."
"Ainda tem mais."
Ele clicou em uma pasta bloqueada.
"Bianca esta ensaiando uma menina nova. Manu Carvalho. Dezenove anos, interior de Minas. Voz parecida com a sua."
Meu estomago caiu.
"Parecida quanto?"
"O bastante para eles chamarem de 'textura Livia' quando acham que ninguem esta ouvindo."
A padaria ao redor continuou viva. Pratos batendo, maquina de espresso gritando, gente pedindo pao na chapa. Eu olhava para aquela tela e via minha historia tentando se repetir no corpo de outra menina.
"Voce tem certeza?"
"Tenho um pedaço de ensaio. Nao trouxe por WhatsApp. Esta no backup frio."
"Por que me contar agora?"
Thiago fechou o notebook devagar.
"Porque, se voce so quiser se salvar, eu ajudo. Mas se quiser parar a maquina, a gente precisa agir antes do show do Rio."
O show do Rio. O grande festival transmitido por streaming, onde Bianca lancaria "Cicatriz Bonita" ao vivo.
Minha ferida, com luz, dancarinos e patrocinio.
Voltei para casa com o pendrive escondido dentro do sapato. Parecia exagero. Depois de oito anos com Bianca, eu nao acreditava mais em exagero.
No fim da tarde, abri a primeira sessao antiga e comparei os metadados. Minha demo era de 2018. A gravacao oficial, dois meses depois. A letra original carregava meu usuario: livia.duarte.home.
Meu nome estava no arquivo antes de estar fora do contrato.
Salvei tres copias. Uma no HD. Uma na nuvem. Uma com Thiago.
Na tela, a primeira prova piscava simples e fria.
Eu tinha sido apagada.
Mas o apagador tinha deixado marca.
