Chapter 3

A gravadora chamou de "audicao intima".

Havia quarenta pessoas numa sala preta com luz baixa, drinks de patrocinador e celulares lacrados em envelopes cinza. Executivos, influenciadores, dois jornalistas escolhidos a dedo e gente que sorria antes de ouvir qualquer nota. No telão, o rosto de Bianca aparecia em close, sem poros, sem culpa.

Rafael chegou comigo.

Ele segurou minha mao na entrada. Para quem visse de fora, eramos o casal discreto da industria. O produtor talentoso e a noiva quieta que ajudava com letras quando alguem precisava.

"Hoje e importante", ele murmurou.

"Para quem?"

Ele apertou meus dedos.

"Para todos nos."

Eu quase ri.

Bianca apareceu vestida de branco. Uma imagem de renascimento. A plateia aplaudiu antes que ela dissesse uma palavra. Ela levou a mao ao peito, o gesto preferido de quem aprendeu a vender sinceridade.

"Esse album nasceu da parte mais escondida de mim", ela disse. "Eu demorei anos para ter coragem de transformar minhas cicatrizes em musica."

Minhas unhas entraram na palma.

Rafael inclinou a cabeca perto do meu ouvido.

"Se controla."

Eu olhei para ele. Ele nao estava preocupado comigo. Estava preocupado com a mercadoria.

Bianca continuou:

"A proxima faixa fala de uma noite especifica. Uma noite em que eu nao consegui entrar no quarto da minha mae depois que ela morreu."

O mundo perdeu som.

Eu nao esperava aquilo.

Esperava que ela mudasse a frase. Esperava que colocasse brilho, maquiagem, metafora barata. Esperava que pegasse a emocao e trocasse a roupa.

Mas ela pegou a porta.

Pegou o quarto.

Pegou minha mae.

E disse "minha".

A musica começou. Piano baixo. Minha progressao. Minha respiracao na guia escondida sob a voz dela. O refrao que eu escrevi sentada no corredor do apartamento antigo, porque entrar no quarto parecia trair a ausencia.

Bianca cantava melhor do que de costume. Talvez porque ladroes ensaiem mais quando sabem que a vitima esta na sala.

Ao meu lado, uma editora chorou.

"Meu Deus", ela sussurrou. "Que verdade."

Verdade.

A palavra me atravessou como vidro.

Na tela, imagens de Bianca crianca com a mae apareceram em preto e branco. Eu sabia que a mae dela estava viva. Tinha falado com ela por chamada de video meses antes, quando Bianca pediu que eu ajudasse a escrever um texto de aniversario.

Rafael nao olhou para mim. Ficou encarando o palco, maxilar duro.

Quando a musica acabou, a sala explodiu em aplausos. Bianca chorou do jeito certo. Nao feio. Nao inchado. Bonito. Comercial.

Um jornalista perguntou:

"Como foi revisitar essa perda?"

Bianca respirou fundo.

"Foi como abrir uma porta que eu mantive trancada por anos."

Outro convidado, um diretor de conteudo que vivia dizendo que artista precisava ter "verdade exportavel", levantou a mao.

"Bianca, essa faixa parece muito pessoal. Voce chegou a hesitar em lancar?"

Ela abaixou os olhos. Eu conhecia aquele movimento. Era o mesmo que fazia antes de pedir para eu trocar uma palavra honesta por uma palavra vendavel.

"Hesitei. Tinha medo de parecer fraca. Mas uma mulher nao deveria esconder a propria dor para ser amada."

A sala murmurou aprovacao.

Eu pensei em todas as vezes que escondi minha dor para que ela fosse amada.

Entao a tela mostrou um trecho de letra manuscrita. Minha letra. Nao a fonte do computador. A minha letra torta, apressada, de uma pagina arrancada do caderno que eu deixava no estudio de Rafael. Eles tinham fotografado, cortado minha assinatura no canto e usado como material de campanha.

Rafael percebeu no mesmo instante que eu.

"Livia", ele sussurrou.

Nao era pedido. Era aviso.

Na tela, a legenda dizia: "Primeira anotacao de Bianca para Cicatriz Bonita."

Pela primeira vez naquela noite, minhas maos tremeram. Nao pela musica. Pela letra. Aquele caderno tinha ficado no apartamento de Rafael numa noite em que eu dormi chorando depois de uma reuniao em que Bianca me chamou de dificil diante de seis pessoas. Ele tinha guardado. Ou vendido. Ou apenas entregue porque nada meu parecia sagrado quando servia ao projeto.

O publico nao viu roubo. Viu intimidade.

E foi essa intimidade fabricada que terminou de me empurrar para fora da vida que eu ainda tentava negociar por dentro.

Eu levantei.

Rafael segurou meu pulso.

"Nao faz isso."

"Solta."

"Livia, pensa."

"Eu pensei por oito anos."

Ele soltou, mas o olhar dele dizia que aquilo teria preco.

Fui ao banheiro. Nao para chorar. Para lavar as maos, porque a sensacao do toque dele ainda estava na minha pele. Me olhei no espelho. O batom estava intacto. Os olhos tambem. Eu parecia calma. Por dentro, alguma versao antiga de mim tinha terminado de morrer.

Abri o e-mail no celular.

Para: contato@amaralfontes.adv.br

Assunto: Direitos autorais e creditos de composicao

Escrevi:

"Meu nome e Livia Duarte. Sou compositora, arranjadora e produtora musical. Acredito ter provas de que minhas obras foram exploradas por terceiros durante anos sem credito adequado, incluindo musicas ja lancadas comercialmente por uma artista de grande alcance. Tambem ha possivel conflito de interesses envolvendo contratos de consultoria criativa assinados pelo meu noivo, produtor do projeto. Preciso de orientacao urgente sobre preservacao de provas, autoria e medidas cabiveis."

Parei antes da ultima frase.

Na sala, ouvi outra rodada de aplausos.

Bianca devia estar contando mais uma historia. Talvez a minha. Talvez a de alguem que ainda nem sabia que tinha sido roubada.

Acrescentei:

"Eu quero recuperar o meu nome."

Enviei.

Quando sai do banheiro, Bianca estava no centro da sala cercada de elogios. Rafael me encontrou no corredor.

"Voce esta fazendo uma cara pessima."

"A cara e minha. Pelo menos isso ainda e."

Ele se aproximou.

"Cuidado com o que voce acha que sabe."

Foi a primeira vez que ele deixou a mascara cair de verdade. Nao havia amor no rosto dele. So propriedade contrariada.

"Eu sei que a mae dela esta viva."

Rafael ficou branco por meio segundo.

Depois sorriu.

"Ninguem liga para detalhe quando a emocao e verdadeira."

Eu dei um passo para longe.

"A emocao era minha."

"Era. Agora esta no album."

A frase nao doeu como ele esperava. Ela organizou tudo.

Voltei para a sala e aplaudi Bianca junto com os outros. Ela me viu. Sorriu com a boca pequena de quem tinha certeza de que eu continuaria calada.

Meu celular vibrou.

Resposta automatica do escritorio. Uma advogada entraria em contato pela manha.

Na tela bloqueada, minha propria frase me encarou.

Eu quero recuperar o meu nome.

Pela primeira vez, nao pareceu pedido.

Pareceu processo.

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