Capítulo 1 A família não gosta

—Sr. Thornton, eu aceito o seu convite para ser sua intérprete-chefe —disse Eleanor Mitchell, com calma.

Depois de desligar, Eleanor baixou os olhos, e seu olhar caiu sobre o marido e a filha, sentados à mesa de jantar na sala.

O marido, Harold Hernandez, cortava o bife no prato, enquanto Jessica Hernandez, a filha de quatro anos, sentada de frente para ele, tagarelava sem parar.

—Pai, deixa eu te contar, a Lavinia é incrível mesmo! Com ela, meu serafim tá melhorando tão rápido! —disse Jessica, com desenvoltura, em serafim. —Não que nem a mamãe… ela não sabe nada.

Eleanor estacou. Um frio se espalhou por dentro.

Casada com Harold havia cinco anos, ele não fazia ideia de que ela, na verdade, falava oito idiomas com fluência —e que o serafim era uma de suas especialidades.

Era justamente por acharem que Eleanor não entendia que agiam com tanta cara de pau na frente dela.

A Lavinia de quem Jessica falava era o primeiro amor de Harold: Lavinia Saunders.

Lavinia e Harold tinham crescido juntos, com uma ligação profunda, mas foram obrigados a terminar por oposição das famílias.

Seis meses antes, Lavinia tinha voltado do exterior e, assim que retornou, sem esforço algum, capturou toda a atenção de Harold e de Jessica.

Eleanor só se sentia exausta, mas não queria mais ficar remoendo aquilo.

Porque ela iria embora em breve.

Até lá, Eleanor só queria passar o tempo que restava em paz, com Harold e Jessica.

Eleanor não contou a Harold e a Jessica que ia embora —eles não se importariam de qualquer jeito.

No coração deles, só existia Lavinia.

Eleanor foi até a mesa, como quem não quer nada, e colocou no prato de Jessica o sanduíche que acabara de fazer.

Ao ver o sanduíche, Jessica franziu a testa na hora e empurrou o prato, contrariada.

—De novo isso! Por que não tem geleia de morango? Eu quero coisa doce!

Eleanor explicou com paciência:

—Você anda perdendo os dentes de leite. O médico disse que você tem que comer menos doce… faz mal pros dentes.

—A mamãe é tão chata!

Jessica revirou os olhos para ela e, em seguida, virou-se para reclamar com Harold em serafim:

—A Lavinia compra um monte, um montão de doces gostosos pra mim.

Harold limpou o canto da boca com o guardanapo, lançou um olhar indiferente para Eleanor e respondeu a Jessica, também em serafim:

—Não fala essas coisas na frente da Eleanor.

Jessica fez uma careta de desdém e disse em serafim:

—E daí? Ela não entende mesmo.

O coração de Eleanor afundou, e seus dedos tremeram.

Claro que ela entendia.

Antes de se casar com Harold, ela tinha sido a aluna destaque do renomado intérprete Efrain Hubbard, com um futuro sem limites pela frente.

Mas por Harold, por aquela família, ela recusou a oportunidade de treinamento avançado que Efrain Hubbard lhe recomendara, se confinou àquela casa, à vida de dona de casa.

Ela amava Harold havia dez anos. Para se casar com ele, estava disposta a abrir mão de tudo.

Mas, aos olhos de Harold, tudo aquilo era apenas obrigação dela.

Harold não dava a menor atenção ao passado de Eleanor e, pior, até guardava certo ressentimento, por acreditar que, anos atrás, ela tinha usado artimanhas para agradar os pais dele, forçando-o a se casar com Eleanor e a se separar de Lavinia.

Depois do café da manhã, Harold pegou o paletó do terno, pronto para levar Jessica à escola.

Eleanor ficou parada na entrada da cozinha, observando as costas dos dois, e disse baixinho, em serafim:

—Cuidado no caminho.

Harold interrompeu o movimento de calçar o sapato, e Jessica também se virou, surpresa.

Antes que os dois conseguissem reagir, Eleanor já tinha voltado para a cozinha.

Ela ouviu Jessica resmungando baixinho do lado de fora, em serafim: “A mãe sabe mesmo falar serafim?”

Harold disse, frio: “Ela provavelmente assistiu a uns programas em serafim esses dias e só sabe essa frase.”

Jessica acreditou na hora. “Verdade, a mãe só sabe lavar roupa e cozinhar. Como é que ela ia saber serafim? A Lavinia é muito melhor — bonita e competente. Ela prometeu me levar a um show hoje. Mal posso esperar!”

Na cozinha, Eleanor ficou paralisada, com a água fria escorrendo pelas pontas dos dedos.

Uma lágrima caiu, espirrando nas bolhas de sabão na pia.

Um show.

Eu já tinha sugerido, toda animada, que a gente fosse junto, em família, mas Harold sempre me cortava, dizendo que estava ocupado com o trabalho.

Agora, ele ia levar Lavinia e Jessica.

Então não era que ele estivesse ocupado — ele só não queria ir comigo.

Todos esses anos, eu dei tudo por esta família, só para, no fim, ser vista por Harold e Jessica como alguém que só sabe lavar roupa e cozinhar.

Eleanor fechou a torneira e enxugou as lágrimas com força.

O celular vibrou — um e-mail de Seraphim: [Sra. Mitchell, seu ingresso está reservado. Além disso, o chefe soube que a senhora é casada e ficou preocupado que talvez não queira se afastar da sua família. Ele está perguntando se devemos reservar ingressos para o seu marido e seu filho também. Não se preocupe, nós cobriremos todas as despesas.]

Eleanor se lembrou do que Jessica disse antes de sair e respondeu, sem expressão: [Não precisa. Vou sozinha.]

Depois, Eleanor marcou com calma um horário para o dia seguinte, para tirar o visto de trabalho no consulado de Seraphim.

Já que a família não precisava mais dela, não havia motivo para ficar.

No dia seguinte, depois de terminar a papelada do visto, Eleanor estava prestes a ir embora quando deu de cara com Harold e Lavinia no saguão do consulado, cada um segurando uma das mãos de Jessica.

Os três riam e conversavam, parecendo, em tudo, uma família feliz e perfeita.

Eleanor quase tinha esquecido que Lavinia trabalhava ali.

Eleanor sentiu o coração apertar, dolorido, e virou de supetão, por instinto, querendo fingir que não os tinha visto.

“Não é a mãe?”

A voz de Jessica soou atrás dela.

Os passos de Eleanor travaram, e ela se virou, a contragosto.

Ao vê-la, Harold veio a passos firmes, com o tom gelado. “O que você está fazendo aqui?”

Depois de falar, ele reparou, pelo canto do olho, no passaporte na mão de Eleanor e franziu levemente a testa. “O que é isso na sua mão?”

Eleanor enfiou o passaporte depressa na bolsa, fingindo calma. “Nada.”

Harold analisou o rosto dela por um instante e então disse, contrariado: “Eleanor, eu só estou levando a Jessica pra sair um pouco. Você precisa mesmo vir atrás da gente até aqui?”

Eleanor ficou sem reação por um momento, e então entendeu que Harold tinha interpretado tudo errado.

De repente, aquilo pareceu até ridículo — então, para Harold, ela era uma mulher paranoica, maluca, que só sabia perseguir ele.

Eleanor não quis explicar que estava ali por causa do visto. Disse, seca: “Eu só estava passando.”

“Passando?” Harold soltou um riso de deboche, com os olhos cheios de ironia. “Isso aqui fica a quase cinquenta quilômetros de casa. Você estava passando por aqui por acaso?”

Jessica se meteu, com a carinha cheia de desagrado. “A mãe é muito maldosa, não deixa o papai ter liberdade.”

“Harold, não fala assim.” Lavinia deu um passo à frente, com um sorriso compreensivo. “A Eleanor se importa com você. Não seja tão duro com ela.”

Lavinia não era só jovem e bonita; também era delicada e elegante, com uma voz doce.

Não era à toa que Harold e Jessica gostavam tanto dela.

Jessica segurou a mão de Lavinia, com os olhos cheios de carinho. “A Lavinia é a melhor, a mais sensata!”

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