Capítulo 3 Desmaio devido ao sangramento gástrico

Jessica olhou de relance para Eleanor, desviou o olhar e então gritou bem alto:

— Ela não é minha mãe! Ela é a nossa empregada!

Naquele instante, o coração de Eleanor se despedaçou por completo.

Eu finalmente entendi por que Jessica nunca deixava eu levá-la à escola, por que ela nunca deixava eu participar de nenhuma atividade escolar dela.

Acontecia que, naquela escola, quem fazia o papel de mãe da Jessica era Lavinia.

Lavinia se levantou e foi se aproximando devagar, dizendo com doçura:

— Eleanor, não leva isso a sério. A Jessica ainda é nova e gosta de brincar.

Eleanor não tinha forças para lidar com aquele sorriso falso. Ela balançou a cabeça, amargurada, com a voz rouca:

— Então vou deixar a Jessica nas suas mãos.

Dito isso, ela saiu da escola sem olhar para trás.

Se antes ainda existia alguma hesitação em abrir mão de Jessica, desta vez Eleanor largaria de vez.

Lavinia não percebeu o sentido escondido naquelas palavras. Um sorriso satisfeito apareceu no canto da boca dela, mas ela logo o trocou por uma expressão meiga ao se virar para Jessica.

Eleanor vagou sem rumo pelas ruas. Ela se lembrou de quando Jessica tinha acabado de nascer — tão pequenina, tão macia, aconchegada nos braços dela.

Quando Jessica chorava de madrugada, só o colo de Eleanor e as canções de ninar conseguiam acalmá-la.

Naquela época, os olhos de Jessica eram só para ela. Em que momento tudo ficou tão distorcido?

Quanto mais Eleanor pensava, mais triste ela ficava. De repente, uma dor aguda atravessou o estômago dela, fazendo-a se curvar.

Ela tinha feito uma cirurgia no estômago alguns anos antes, e sentir dor já era algo comum, mas nunca tinha sido assim — tão forte que a visão escureceu e ela mal conseguia respirar.

Ela tentou se apoiar num poste de luz ali perto, mas os dedos tremiam e não conseguiam segurar.

Então, tonta e desorientada, Eleanor perdeu a consciência.

Quando acordou de novo, viu que estava deitada numa cama de hospital, com soro no braço.

— A senhora acordou? — uma enfermeira observou, aproximando-se para checar os sinais vitais. — Como está se sentindo? Ainda dói?

Eleanor balançou a cabeça, com a voz áspera:

— Bem melhor...

— A senhora teve espasmos gástricos agudos e sangramento no estômago — disse a enfermeira, em tom de repreensão. — Como é que a senhora deixou chegar a esse ponto? Eu vi seu exame de endoscopia: gastrite crônica com erosão. A senhora costuma pular refeições e viver estressada?

Eleanor apertou os lábios, sem se defender.

Desde que se casou com Harold, ela vinha se matando de trabalhar por aquela família. Comer em horários irregulares já tinha virado rotina havia muito tempo.

A enfermeira suspirou.

— Dessa vez a senhora deu sorte: trouxeram a senhora a tempo. Se não se cuidar, pode ser que na próxima não dê. Ligue para o seu marido. Alguém da família precisa assinar a sua alta.

Alguém da família?

Eleanor, fraca, pegou o celular, e foi então que apareceu uma nova postagem no Instagram de Jessica.

Eleanor seguia escondida o perfil secundário secreto de Jessica — uma realidade triste à qual ela tinha sido empurrada desde que Jessica bloqueou o perfil principal dela.

Na foto, Harold estava de terno preto, e Lavinia sentava ao lado dele, com a cabeça levemente inclinada e um sorriso suave e radiante.

Entre os dois, Jessica sorria, iluminada.

Os três pareciam calorosos e em harmonia, como uma família feliz de três pessoas.

A legenda dizia: [Fazendo um banquete com a minha querida Lavinia! Tô tão feliz!]

Os dedos de Eleanor tremeram ao apertar o celular, e os nós dos dedos ficaram brancos.

A dor surda no estômago dela, que tinha começado a aliviar, de repente se intensificou, e o coração também pareceu contrair em espasmos, deixando-a sem ar.

Enquanto ela quase tinha morrido de dor no estômago, Harold e Jessica estavam por aí, se esbaldando num banquete com Lavinia.

Havia algo no mundo mais irônico, mais desesperador do que aquilo?

Os olhos de Eleanor se avermelharam quando ela mordeu com força o lábio inferior.

— Você fez a ligação? — perguntou a enfermeira, interrompendo o turbilhão de pensamentos dela.

Eleanor ergueu o olhar, o rosto pálido:

— Não precisa.

A enfermeira se surpreendeu.

— O quê? Ninguém vem buscar você? Assim não dá. Você precisa de alguém para cuidar de você, e o hospital tem regras...

— Eu não tenho mais família — interrompeu Eleanor, com um olhar morto e vazio.

A enfermeira ficou paralisada e pegou o prontuário no pé da cama, folheando.

— Mas aqui diz que você é casada. Como assim não tem família? E quem era aquele homem que trouxe você pro pronto-socorro?

Eleanor se esforçou para lembrar. Antes de desmaiar, ela se recordava vagamente de ter visto uma silhueta — alta e forte, mas desconhecida.

— Eu não conheço ele. Imagino que tenha sido só um estranho gentil — murmurou, baixando o olhar para o colo.

— Mas aquele homem parecia conhecer você — apontou a enfermeira. — Ele até sabia dizer o seu nome.

Eleanor ficou em silêncio. Ela não tinha parentes naquela cidade e, depois de se casar, tinha se dedicado inteiramente à família, com pouca vida social. Ela realmente não conseguia pensar em quem a conheceria.

A enfermeira a encarou com uma expressão complicada e disse, sem ter muito o que fazer:

— Se estiver mesmo difícil, ligue para um amigo. É política do hospital, é pra sua segurança. Caso contrário, a gente não pode deixar você ir embora.

Eleanor pegou o celular, se preparando para ligar para a mãe, Maya Coleman.

Mas, ao chegar no número de Maya, Eleanor hesitou.

Embora a mãe de Harold, Clio Webb, tivesse gostado muito de Eleanor naquela época, Maya tinha sido contra o casamento de Eleanor com Harold.

Maya achava que Eleanor devia continuar os estudos em vez de jogar o futuro fora por um homem.

Eleanor tinha rompido com a família por causa disso e se casado com Harold sem hesitar.

Depois de tudo o que tinha acontecido, como ela conseguiria ligar para Maya agora?

Eleanor guardou o celular e olhou para a enfermeira.

— Hum... eu posso assinar os papéis sozinha?

— De jeito nenhum — insistiu a enfermeira, com firmeza. — Mesmo que a gente ignorasse a responsabilidade do hospital, você precisa levar a sua saúde a sério! Você acabou de ter um sangramento interno!

No instante em que Eleanor ficou presa naquele dilema, uma voz masculina, grave e envolvente, veio da porta:

— Com licença. Espero não ter chegado tarde demais.

Eleanor paralisou e virou o rosto na direção da voz.

Um homem de postura ereta estava na entrada.

Ele usava um sobretudo escuro; tinha traços bonitos e olhos fundos. Entrou com passos firmes, assentiu para a enfermeira e, num tom educado e seguro, disse:

— Eu sou amigo da Eleanor. Só fui buscar o remédio dela.

A enfermeira olhou para Eleanor e disse:

— Tá vendo? Eu falei que ele conhecia você!

Em seguida, ela disse a ele:

— Sua amiga teve espasmos gástricos agudos com um pequeno sangramento. Ela já recebeu medicação e precisa repousar bem. Tem algumas coisas que eu preciso explicar, e o senhor vai ter que ajudar com a papelada e as assinaturas.

Depois que ele terminou de assinar os papéis, caminhou até a beira da cama, inclinou-se um pouco e falou com uma voz gentil:

— Senhorita Mitchell, você está se sentindo melhor?

Eleanor o encarou, chocada, por um instante, antes de conseguir dizer:

— Quem é você?

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