Capítulo 5 Voltando-se um contra o outro

—Eleanor! —Harold estava tão furioso que as veias nas têmporas saltavam.

Em contraste com a expressão tomada de raiva dele, o rosto de Eleanor continuava calmo. Ela não tinha a menor intenção de contar a Harold que o problema no estômago tinha atacado de novo.

Provavelmente ele nem se importaria com esse tipo de coisa.

Afinal, desde que Lavinia tinha voltado, os dois estavam grudados. Até quando foram ao show, Harold e Jessica esconderam isso de Eleanor.

Ao lembrar do que Jessica tinha dito na escolinha, Eleanor ainda sentia aquela dor sufocante no peito.

Os olhos de Harold estavam sombrios e ameaçadores; o tom, cortante e amargo:

—O quê? Seu relacionamento é tão suspeito que você nem tem coragem de falar sobre ele?

Eleanor respondeu, fria:

—Só um amigo comum.

Pensando no casamento completamente apodrecido dos dois, ela não queria arrastar gente inocente para aquilo. Além disso, Terrence tinha salvado Eleanor, e, dali pra frente, ela ainda ia precisar trabalhar com ele.

Harold soltou uma risada gelada. Como é que ele acreditaria nisso?

Lavinia deu um passo à frente e puxou de leve a manga de Harold.

—Harold, não fica com raiva. Talvez seja mesmo como a Eleanor disse — só amigos. Afinal, aquele rapaz foi gentil o suficiente pra trazer a Eleanor em casa tão tarde da noite, não deve ser nada...

Por fora, as palavras de Lavinia pareciam defender Eleanor; na verdade, insinuavam que ela podia estar tendo um caso.

A expressão de Harold ficou ainda mais fria.

Um lampejo de triunfo passou pelos olhos de Lavinia. Ela ergueu o olhar para Eleanor e disse com suavidade:

—Eleanor, não pensa demais. O Harold não quis dizer nada com isso. Ele só está preocupado com a sua segurança. Homem de fora é diferente, né... vai saber o que está passando pela cabeça deles.

Lavinia rebaixava Terrence de forma sutil.

—Cala a boca! —Eleanor disparou, interrompendo-a, e a raiva ondulou nos olhos frios.

O corpo de Lavinia tremeu, o rosto cheio de mágoa.

O olhar afiado de Harold se voltou para Eleanor.

—Por que você está gritando com a Lavinia?

—Quem mandou ela se meter? —o rosto de Eleanor estava carregado de deboche.

Harold soltou a mão de Eleanor e usou o próprio corpo para proteger Lavinia atrás dele. Encarou Eleanor com frieza e rosnou:

—Peça desculpas pra Lavinia agora!

—Nem em sonho. —Os lábios de Eleanor se curvaram enquanto ela cuspia aquelas poucas palavras.

Era óbvio que Lavinia estava provocando de propósito, mas Harold não enxergava.

Ou melhor: ele simplesmente não queria enxergar. Ele aceitava ficar preso no abraço gentil de Lavinia, porque, aos olhos dele — e no coração dele — Lavinia era simplesmente melhor do que Eleanor!

Eleanor cerrou os punhos; uma desolação infinita subiu dentro do peito.

—Harold, não briga com a Eleanor por minha causa. Eu vou ficar muito mal. —Lavinia o acalmou, macia, e então virou a cabeça e jogou mais lenha na fogueira: —Já que a Eleanor não aceita minha boa vontade e insiste em proteger aquele homem, então eu não vou falar nada de ruim sobre ele.

Ao ouvir isso, os olhos de Harold quase soltaram fogo.

Eleanor estava prestes a explodir.

—Você...

Um palavrão já estava na ponta da língua.

Jessica, que tinha ficado calada o tempo todo, de repente avançou.

—Mamãe má, eu te odeio! —o rostinho de Jessica se contorceu de raiva. —Por que você vive implicando com a Lavinia? A Lavinia até falou por você na frente do papai. Como você consegue ser tão cruel?

—Eu odeio mamãe má, eu te odeio!

—Por que você não some de uma vez? Eu não quero ser filha de uma mamãe má que nem você! —Depois de gritar, ela esticou o braço, furiosa, e empurrou Eleanor.

Pega de surpresa, Eleanor cambaleou alguns passos para trás. O pé escorregou, e ela caiu com força no chão.

Eleanor ergueu os olhos.

Três pessoas estavam diante dela — o marido, Harold, e a filha, Jessica. As duas figuras, uma grande e outra pequena, encaravam-na com nojo e raiva nos olhos. As duas a protegiam, como um escudo, com Lavinia atrás delas.

Como se ela fosse algum tipo de inimiga.

A palma da mão dela tinha arranhado no cascalho do chão, mas Eleanor nem sentiu dor — porque o coração dela já tinha adormecido de tanto sofrer.

Jessica — a filha que ela carregou por dez meses e trouxe ao mundo — agora estava atacando a própria mãe por causa de Lavinia. Por causa de Lavinia.

Que ridículo!

Ao ver Eleanor cair, um lampejo de pânico passou pelos olhos de Jessica. Ela abriu a boca, querendo dizer alguma coisa.

Mas, ao lembrar do que Eleanor tinha feito...

Jessica virou o rosto. Ela se recusou a olhar para ela, ainda resmungando baixinho:

— Bem-feito.

Eleanor ouviu, e o coração dela esfriou.

Nem era inverno, mas, naquele momento, ela se sentiu como se estivesse dentro de uma câmara fria, o coração completamente congelado.

Lavinia puxou Jessica para perto, agachou-se diante dela e disse com suavidade:

— Jessica, você não pode falar assim com a Eleanor.

— Ela não é minha mamãe. Ela é cruel demais. Eu não quero uma mamãe tão ruim! — Jessica retrucou. — Lavinia, você é sempre tão gentil e boazinha... Você devia ser minha mamãe. Você quer ser minha mamãe?

Jessica se jogou nos braços de Lavinia, abraçando-a com força.

— Jessica. — A voz de Harold ficou um pouco mais grave.

Lavinia se apressou em defendê-la:

— Harold, não culpa a Jessica. Ela só está falando o que pensa.

Depois de falar, ela lançou um olhar para o rosto pálido de Eleanor e, sem emitir som, articulou algo para ela.

“Você perdeu”!

Eleanor entendeu o que ela dizia e encarou sem expressão Jessica, aninhada nos braços de Lavinia, fazendo caretas para ela.

— Já que você me odeia tanto...

Ela mal tinha começado a falar quando Harold a interrompeu.

— A Jessica não quis dizer isso. Por que você tem que fazer esse drama todo? — Harold franziu a testa. As palavras de Jessica tinham sido mesmo um pouco pesadas, mas, desde o começo, quem estava errada era Eleanor.

Ao ouvir aquilo, Eleanor soltou uma risada de repente.

Não quis dizer?

Ele estava enganando a si mesmo, ou achava que ela era completamente idiota?

Claro.

Era porque, uma vez, ela se rebaixou ao nível mais baixo diante deles que Harold e Jessica a tratavam com tanto desprezo — como se ela nem fosse gente!

Uma dor fina e aguda começou a retorcer o estômago de Eleanor, e uma camada de suor frio surgiu na testa dela.

Ela engoliu a dor à força, cerrou os dentes e se levantou do chão.

Ao vê-la de pé, Harold sentiu um alívio inexplicável.

Harold pressionou os lábios finos, com um tom de acusação:

— Na verdade, você só tem a si mesma para culpar. Você é uma mulher casada — quando estiver socializando com homens lá fora, tem que ter cuidado com os limites. Não faça nada que manche a reputação da família Hernandez.

— Sr. Hernandez, guarda esse discurso para o senhor mesmo. — Eleanor zombou, devolvendo as palavras na mesma moeda.

Quem é que está sendo mais sem-vergonha aqui?

Ele vive de chamego com Lavinia todo santo dia — que direito ele tem de criticar as relações sociais normais da própria esposa?

Como ele consegue ser tão descarado?

— Eleanor! — Harold rangeu os dentes.

Mas Eleanor não queria mais se enroscar com eles. Ela estava cansada, com o coração em pedaços. Então disse, direto:

— Harold, vamos nos divorciar.

Já que não há lugar para mim nesta família, já que no coração de Harold e de Jessica só existe a Lavinia, eu vou sair de cena por vontade própria.

Ao ouvir isso, as pupilas de Harold se contraíram e a voz dele subiu de repente:

— O que foi que você disse?

Diante do olhar chocado e furioso dele, Eleanor o encarou como se fosse um estranho, repetindo, palavra por palavra:

— Eu disse: divórcio!

Ao ouvir a repetição clara de Eleanor, a expressão de Harold travou.

Como ela ousava falar em divórcio?

Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, Jessica de repente comemorou:

— Eba! A mamãe ruim finalmente não vai ser mais minha mamãe! Que ótimo! — Jessica parecia radiante; puxou a mão de Harold e insistiu, ansiosa: — Papai, diz que sim! Anda logo, divorcia da mamãe ruim!

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