Capítulo 11
Naquela noite, no nosso casamento de juramento de sangue, cada convidado na propriedade dos Coleone cochichava sobre a minha “vergonha”.
“O Luca ainda aceita casar com ela… que devoção.”
“Aceitar uma mulher manchada… como ele é generoso.”
Eu fiquei ali, dentro do meu vestido de noiva, ouvindo a fofoca escancarada, com o coração sangrando a cada palavra.
Mesmo assim, quando Luca deslizou no meu dedo o anel de obsidiana com o brasão da família, ele fez o voto solene: “Nesta vida, eu não vou me casar com ninguém além de Avelina.”
Mas depois do casamento, Luca começou a passar a noite inteira fora. Eu nem conseguia levantar a cabeça na frente dos empregados.
Eu dizia a mim mesma que aquilo era o castigo que eu merecia. Só que a minha insônia piorou — todas as noites eu me revirava na cama vazia.
Tentei me convencer de que talvez ele só precisasse de tempo para aceitar a minha versão imperfeita.
Às duas da manhã, desci até a adega para pegar meu vinho medicinal. Assim que enchi a taça, passos ecoaram pela escada.
“Vamos ver que tesouros a sua adega esconde.”
Aquela voz, tão familiar e ao mesmo tempo apavorante, fez meu coração falhar uma batida. Por instinto, agarrei a taça e me escondi atrás dos barris de carvalho.
“Tony, não mexe desse lado — esses são os vinhos medicinais da Avelina”, disse Luca.
Eu encarei o vinho de erva-de-são-joão na minha mão.
Luca tinha preparado aquele vinho especialmente depois de saber da minha insônia, seguindo a recomendação do doutor Martinez.
Ele ainda se importava comigo. Isso bastava.
Eu já ia beber quando ouvi outra voz rir: “Que safra a gente escolhe pra comemorar a nossa ‘obra-prima’ de seis meses atrás?”
Obra-prima? Que obra-prima? Minha mão travou, apertando a borda da taça com força.
“Luca, tua esposa foi incrível pra caralho naquela noite”, Tony riu, nojento. “Chorando e implorando, mas molhada pra porra lá embaixo, igual torneira. Ela já tava encharcada antes da gente sequer entrar — puta de nascença.”
Não… essas vozes… por que elas soam tão familiares? A taça tremia violentamente nas minhas mãos, o vinho tinto quase transbordando.
“Eu arranquei o vestido dela numa puxada só — aqueles peitões pularam pra fora, tão macios, tão empinadinhos.” Outra voz riu, obscena. “Ela tava cagada de medo, mas o jeito que ela se contorcia parecia que tava pedindo. Quase gozei na cara dela.”
Para… para de falar… Luca, faz eles pararem… Eu gritei por dentro, mas nenhum som saiu.
“Quando a gente foi revezando nela, ela ainda tentou bancar a inocente”, entrou uma terceira voz. “No fim, parou de fingir — gemendo mais alto do que qualquer puta. Só de lembrar daqueles sons eu já fico duro.”
Então a voz de Luca cortou o ar, pingando nojo: “Não me vem com essa porra. Aquela vadia ainda mora na minha casa — só de olhar pra ela me dá vontade de vomitar.”
Então é assim que ele me vê? Minhas pernas amoleceram, eu mal consegui ficar de pé, me apoiando no barril de carvalho para não cair.
“Mas a filmagem ficou boa pra caralho”, disse Tony. “Aquele close… ela gozando enquanto chorava de desespero, que nem um coelhinho assustado. Arte pura.”
Eu desabei no chão, o mundo inteiro girando. Imagens explodiram na minha cabeça — flashes de câmera, sorrisos depravados, dor rasgando. Eles estavam me humilhando desse jeito, às escondidas.
“Luca, aquele teu teatrinho de ‘herói salvando a donzela’ merecia um Oscar”, Tony disse, admirado. “Na hora certinha.”
Luca soou presunçoso. “Um minuto mais cedo e a gente ia ser pego. Um minuto mais tarde e vocês, seus desgraçados, teriam realmente matado ela.”
“‘Não tenha medo, eu tô aqui’”, Tony imitou, repetindo o tom daquela noite. “Até eu acreditei naquela cara, imagina ela, aquela vaca burra.”
Aquelas palavras tinham sido a minha única luz no escuro. Mas era tudo armado. Só que eu não sabia. Eu achei que tinha encontrado amor de verdade, feito uma idiota.
A taça de vinho escorregou das minhas mãos, e o vinho tinto espirrou na minha camisola branca como manchas de sangue daquela noite.
“Como é que eu ia deixar ela desesperada o suficiente pra casar comigo?”, Luca debochou. “Meu pai me ameaçou com um juramento de sangue antes de morrer: ou eu casava com a garota Ross ou perdia o direito à herança completa. Eu tinha que garantir que tudo saísse perfeito.”
Olhei para o anel no meu dedo. Todo aquele amor... era só pra ganhar poder? Até os votos de casamento eram mentira.
“Agora ela tá agradecida pra caramba, né?”, alguém perguntou.
“Claro. Por isso eu trouxe a Isabella pra morar aqui, e ela não se atreve a abrir a boca. A madrinha tem que estar impecável.”
“Luca”, Tony perguntou, com malícia, “você comeu ela na noite de núpcias, né? E aí? Foi do jeito que a gente falou?”
“Ela é uma puta nata, né?”, outra voz se empolgou. “Uma mulher que a gente treinou tem que saber agradar um homem.”
“Ela toma iniciativa? Ou ainda faz a santa, como naquela noite?”
Prendi a respiração, esperando a resposta do Luca.
“Comer ela?” A voz do Luca veio carregada de nojo. “Eu não aguento nem olhar pra ela. Ela fede a vocês, seus desgraçados — me dá ânsia.”
Meu coração se despedaçou.
“E como você mantém esse casamento então?”, Tony perguntou, curioso. “Ela não desconfia?”
“Eu finjo”, Luca zombou. “Abraço de vez em quando, deixo ela achar que eu tô aceitando. A verdade é que eu prefiro transar com uma puta de rua do que encostar naquela vadia usada.”
“Ela ainda acha que você ama ela de verdade. Seus votos viraram modelo pra um monte de casal recém-casado”, alguém riu alto.
“Quanto mais ela acredita, mais fácil fica controlar. Eu quero aquela putinha completamente devota a mim — de joelhos, pra nunca ousar se levantar. Mulher bem quebrada é a mais obediente.”
Nessa humilhação final, alguma coisa dentro de mim morreu de vez.
Ao mesmo tempo, uma calma aterrorizante começou a se cristalizar no meu coração. Não era mais medo nem desespero, e sim uma lucidez de gelar os ossos.
“Você já aguenta ela há seis meses. Quando é que a papelada da herança vai ficar pronta?”
“Vamos fazer ela vestir o vestido de noiva de novo pra um filme inteiro”, outro sugeriu.
Uma explosão de gargalhadas tomou conta do lugar.
“Quando o contrato do porto estiver assinado, ela não serve pra nada. Aí vocês podem brincar com ela do jeito que quiserem.”
“Vamos acabar com essa garrafa hoje. Vem cá, deixa eu te mostrar outras ‘mercadorias’.”
Então, do começo ao fim, eu era só um brinquedo pros olhos deles... Até a minha dor virava diversão... Até a minha culpa era a reação que eles esperavam...
As risadas foram diminuindo. Eu me levantei devagar, pisando no vinho tinto derramado no chão.
Disquei o número do advogado da família, com uma calma assustadora na voz.
“Aqui é Avelina Ross. Eu quero iniciar o procedimento de execução da cláusula do juramento de sangue.”
“E prepare os papéis do divórcio pra mim. Agora.”
