Capítulo 1

Seis dias depois de perder todo contato com Alexander, fui sozinha, às cegas, até a Gala Nightfall para encontrá-lo.

A expressão do guarda se retorceu numa coisa estranha quando ele ouviu o meu propósito.

— Você está dizendo que está procurando o seu companheiro, o príncipe Alexander? E qual é o seu nome?

— Eu sou Cecilia.

O guarda soltou um bufar áspero, debochado.

— Para de fazer escândalo! Uma mendiga cega tentando aplicar um golpe? Não ache que pode simplesmente se passar por ela só porque sabe o nome da companheira do príncipe.

— Todo mundo sabe que o príncipe acabou de presentear Cecilia com o Cristal da Noite Abissal, de milênios, para celebrar a gravidez dela! Que porra você é?

Foi então que a tela gigante de LED mudou para a transmissão ao vivo da Gala.

— Permitam-me apresentar formalmente minha parceira, Cecilia. Além disso, ela está esperando. Nossa família está prestes a receber um novo herdeiro. — Era a voz de Alexander.

— Obrigada a todos. Este é o maior presente que Alexander e eu poderíamos receber.

No instante em que aquela voz doce e tímida ecoou pelo salão, uma corda se rompeu violentamente dentro da minha cabeça. Um zumbido agudo atravessou meus tímpanos.

— Era a voz da minha irmã gêmea, Elena.

...

Dois anos atrás, para expurgar o veneno letal de prata que devastava o corpo de Alexander, eu drenei além do limite a essência do meu núcleo para extrair as toxinas à força.

Como reação daquele ato, meus olhos foram completamente queimados.

Naquela época, Alexander estava num momento crucial da sua luta por poder. O Conselho de Anciãos jamais permitiria que uma mulher cega ocupasse o posto de companheira do príncipe.

Eles o pressionaram a me substituir por Elena.

Eu nunca vou esquecer Alexander naquele dia.

Ele virou a mesa do conselho na frente de todos, prensando agressivamente o Ancião que deu a sugestão pela garganta, as presas carmesim totalmente expostas.

— Qualquer mulher usando um rosto como o dela, que não seja ela, me enoja até a alma!

Mais tarde, ele invadiu o quarto, me apertando com força — eu, cega —, e lágrimas quentes caindo sobre a minha clavícula.

— Mesmo que eu precise tornar o mundo inteiro meu inimigo, tudo o que eu quero é você. — Ele beijou meus olhos arruinados e jurou um pacto de sangue para mim.

E, ainda assim, agora ele tinha entregado pessoalmente o nome “Cecilia” e o único lugar ao lado dele justamente à mulher que um dia disse que o enojava.

Por quê?

— Deixem eu ver ele!

Minha sanidade se despedaçou. Guiada pelo instinto cru de uma louca, eu tropecei em pânico na direção do salão interno.

— Joguem essa vadia maluca pra fora!

Eu me debati desesperadamente, mas fui empurrada para trás com violência.

Minha têmpora bateu com força numa quina afiada.

Um líquido quente escorreu de imediato pela minha pele. Dor. Uma agonia rasgando, dilacerante, atravessou meus órgãos.

— Um lixo barato desses ainda tem coragem de se passar pela companheira do príncipe?

O escárnio de um homem ecoou acima de mim. Ninguém se importava se eu ia viver ou morrer; só me viam como uma lunática tentando se agarrar aos poderosos.

Pouco antes de apagar de vez, ouvi um rugido cortar o ar.

— Cecilia…!

Era a voz de Alexander.

Quando abri os olhos de novo, uma luz branca e cortante apunhalou meus globos oculares como uma lâmina. Instintivamente, eu os fechei.

Então a compreensão me atingiu.

Luz?

Um tremor violento percorreu meu corpo inteiro enquanto eu, devagar, forçava as pálpebras pesadas a se abrirem.

Este era o quarto principal da propriedade do Príncipe.

Meus olhos... minha visão tinha voltado. Depois de ficar adormecida na escuridão por dois anos, desencadeada por um trauma físico extremo e um choque emocional, minha visão havia, milagrosamente, rompido a barreira.

Antes que eu conseguisse processar esse milagre absurdo, uma discussão abafada chegou pela porta entreaberta.

— Até quando você vai deixar a Elena ocupar o lugar dela? Já se passaram exatamente dois anos, Alexander!

Era Julian, o segundo no comando mais confiável de Alexander.

— Fale mais baixo — disse Alexander, com a irritação tingindo a voz. — Quando a Cecilia ficou cega, os Anciãos me ameaçaram. Se eu não tivesse encontrado uma cópia idêntica para ficar sob os holofotes e apaziguar aqueles velhos idiotas, a família teria sido engolida inteira. Eu fiz isso para proteger a Cecilia!

— Essa era a sua desculpa dois anos atrás! Você já expurgou a velha guarda. Já que o seu governo está seguro, por que anunciou hoje para todo o clã que ela está grávida!

Um silêncio mortal caiu do lado de fora da porta.

— Porque ela está grávida — respondeu Alexander, em voz baixa. — Além disso... estamos interpretando esse papel há tanto tempo. Não sei exatamente quando, mas me vi incapaz de deixá-la.

— Você enlouqueceu? Se você se apaixonou pela Elena, o que isso faz da verdadeira Cecilia aqui dentro? Se ela descobrir tudo isso...

— Ela nunca vai descobrir. — Alexander cortou Julian com frieza. — Ela é uma mulher cega. Eu a coloquei nesta propriedade; toda a vida diária dela está sob o meu controle. Ela nunca vai saber o que acontece no mundo lá fora!

— Deixe a Elena continuar sendo a Cecilia. É o melhor para todo mundo.

O quarto estava quente, e mesmo assim eu senti como se água gelada estivesse se infiltrando até os meus ossos.

Eu finalmente estava bem desperta. A devoção febril e o favoritismo que antes pertenciam exclusivamente a mim tinham — assim como o nome “Cecilia” — mudado completamente de dona.

Depois que Alexander e Julian foram embora, eu caminhei até o armário.

Ele estava cheio dos presentes que Alexander me dera nesses últimos dois anos. Lótus de neve do Ártico, trabalhos em madeira entalhados à mão, cartas escritas por ele juradas com sangue... e aquela insígnia do “Único”, o voto mais elevado entre vampiros.

[Jurado com sangue, você é a única luz pelo resto da minha vida.]

Uma chama crepitou na ponta dos meus dedos. Pressionei o fogo diretamente contra o pergaminho jurado com sangue.

O papel seco foi engolido na mesma hora. Observei, fria, enquanto o fogo se espalhava pelo armário. Todas aquelas promessas que antes amoleciam meu coração foram reduzidas a cinzas no calor ardente.

Disquei o número em que eu não tocava havia dois anos.

— Achei que você fosse brincar de passarinho cego naquela gaiola hipócrita para sempre. — Uma voz grave ressoou do outro lado da linha, carregando um domínio absoluto e opressivo, mas com um toque de divertimento.

O Progenitor dos Vampiros, Victor.

— Aquele favor que você me devia dois anos atrás... a oferta ainda está de pé?

— Naturalmente. Quando você quiser, considere quitado.

Já que Alexander acreditava que Elena podia me substituir perfeitamente, eu teria prazer em conceder o desejo dele.

— Ajude a organizar a minha partida. Eu quero desaparecer completamente.

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