Capítulo 1
POV da Nadia
Com quatro meses de gravidez, eu fui ao bar levar a carteira do Connor, só que acabei ouvindo uma conversa que fez meu sangue gelar.
“Ela é controladora demais. Eu e o Billy mal conseguimos respirar”, meu marido disse aos amigos. “Vou levar a Kelsey pro interior, lá fora, por três meses de terapia. Vou só dizer pra Nadia que é um programa de pais e filhos no exterior.”
E o pior? Meu filho de dez anos, Billy, ia acobertar ele.
Aí eu perdi o bebê. No meu pior momento, o Connor disse que ia usar uma hipnoterapia experimental pra me ajudar a “esquecer a dor”, pra eu não sofrer nem ficar me agarrando a eles enquanto eles passavam três meses viajando.
Eu aceitei.
Mas quando ele conseguiu tudo o que queria, ele se arrependeu.
...
A porta da sala reservada estava entreaberta. Eu levantei a mão pra bater, mas então ouvi a voz do Connor.
“Sinceramente? Eu tô muito cansado disso.”
Eu congelei.
“Ela controla tudo”, Connor continuou. “Eu e o Billy mal conseguimos respirar.”
Um dos amigos dele riu. “Ué, ela agora controla até o que o Billy come?”
“O Billy tem uma alergia grave a castanhas.” A voz do Connor veio irritada. “Ela usa isso como desculpa pra controlar cada coisa que ele põe na boca. Ele não consegue nem comer um lanche sem ela checar a lista de ingredientes antes. É exaustivo.”
Meu peito apertou. Eu me aproximei mais do batente da porta.
“Mas não era isso que você gostava nela?” outro amigo perguntou. “Você vivia dizendo que isso provava que ela te amava.”
Connor soltou uma risada fria. “Isso era antes. Agora eu só me sinto sufocado.”
Meus olhos ardem. Então é isso: o coração dele muda assim, fácil.
“Ela ainda foi atrás da Kelsey até o estacionamento semana passada”, Connor disse. “Encurralou ela e acusou de tentar me seduzir. Dá pra acreditar?”
Os homens murmuraram, solidários.
“E o que você vai fazer?” alguém perguntou.
“Vou levar a Kelsey pro interior, lá fora, por três meses”, Connor disse. A voz dele se animou. “Lá é tranquilo. Perfeito pra uma terapia intensiva.”
“A Nadia não vai desconfiar?”
“Vou dizer pra ela que vou levar o Billy pra um programa de pais e filhos no exterior.” Eu dava pra ouvir o sorriso na voz do Connor. “O Billy vai me cobrir. A gente já fez isso antes, dá certo toda vez.”
Minhas pernas bambearam.
“Você acha que ela vai cair nessa?”
“Claro. Ela confia completamente no Billy.” Connor fez uma pausa. “E essa gravidez não tá estável. Ela mal sai de casa esses dias. Quando a gente voltar em três meses, o tratamento da Kelsey vai ter terminado. Aí tudo volta ao normal.”
Eu não fiquei pra ouvir mais. Lá fora, o ar da noite parecia fino demais. Eu não conseguia respirar direito.
Quando cheguei em casa, fiquei sentada no sofá por horas.
O apartamento estava em silêncio. O Connor não ia voltar antes de tarde — nunca voltava cedo quando saía com os amigos. Eu encarei a parede, todas aquelas fotos emolduradas. Nossas fotos de casamento, as fotos do Billy bebê. A gente já tinha sido tão feliz. Como é que tudo desandou desse jeito?
Minha mão foi parar na barriga. A barriga ainda era pequena, quase não dava pra ver. Eu tinha tomado tanto cuidado dessa vez.
Mas meu marido está planejando deixar a esposa grávida por três meses, pra ir pro exterior com outra mulher, usando uma desculpa médica como fachada.
Eu fechei os olhos. As lágrimas escaparam mesmo assim.
Não. Eu precisava falar com o Billy primeiro. Ele era só uma criança. Dez anos. Ele não ia mentir pra mim sobre algo tão importante.
O Connor podia ter me enganado. Mas não o Billy. Não o meu filho.
Eu enxuguei o rosto e olhei a hora. A escola ia liberar em uma hora.
Cheguei no portão da escola vinte minutos antes.
Os pais se juntavam em grupinhos, conversando enquanto esperavam. Eu fiquei mais afastada, apertando a bolsa contra o peito. Meu cabelo estava preso num rabo de cavalo bagunçado. Eu nem tinha me dado ao trabalho de passar maquiagem — eu quase não passava mais, com os enjoos de manhã.
O sinal tocou. As crianças começaram a sair do prédio. Eu procurei o Billy no meio da multidão.
Ele vinha com três outros meninos, rindo de alguma coisa que um deles falou.
“Billy!”, eu chamei, levantando a mão.
Ele olhou. O sorriso dele sumiu.
Por um instante, ele só ficou me encarando. Aí o rosto dele se retorceu, e ele virou pros amigos.
“Aquela é a senhora Clark”, ele disse, bem alto. “Nossa empregada.”
