Capítulo 3

POV da Nadia

Billy assentiu com a cabeça.

— É verdade?

— Sim, mãe. É um programa pela escola. A professora disse que ia ficar muito bem nas inscrições para a faculdade.

Minha garganta secou.

— Você tem dez anos — eu disse, baixinho. — Inscrição pra faculdade?

— É pro meu currículo — Billy respondeu. — Todo mundo começa a montar currículo agora.

Connor concordou. — Ele tá certo, Nadia. Hoje em dia a concorrência é grande.

Billy tem só 10 anos, mas já consegue mentir sem piscar, sem nem um traço de culpa no rosto. Ele virou exatamente como o pai, uma cópia perfeita.

E eu só sinto por dentro esse vazio esmagador. Traída pelo meu marido e pelo meu filho ao mesmo tempo.

Essa criança que eu carreguei e pari está acobertando o pai e aquela mulher, sem se importar nem um pouco com o que a própria mãe sente.

Por mais que a traição do meu marido doa, o que o meu filho está fazendo machuca muito mais fundo.

— Eu não quero que você vá — eu disse.

O rosto de Connor mudou.

— Nadia.

— Ele é novo demais — eu disse. — Três meses é tempo demais. Eu não—

— Você não pode ficar controlando tudo. — A voz de Connor ganhou um tom duro. — Isso é importante pro futuro do Billy.

— Eu não tô tentando controlar—

— Tá, sim. — Billy me interrompeu. — Você sempre faz isso. Sempre que eu quero fazer alguma coisa, você diz não.

— Isso não é verdade.

— É verdade, sim! — O rosto do Billy ficou vermelho de novo. — Eu nem posso ir na casa dos meus amigos porque você tem que saber onde eu tô a cada segundo. Tem que saber o que eu tô comendo, com quem eu tô, que horas eu vou voltar. Isso sufoca!

Connor não o interrompeu.

— Billy... — eu comecei, querendo dizer que eu só sou rígida com a alimentação dele porque ele tem alergias tão graves.

— Eu quero ir nessa viagem — Billy me cortou. — Eu quero ir com o pai. Eu não quero ficar aqui com você.

Meu peito doeu, como se alguém tivesse enfiado a mão e apertado.

— Não — eu disse. Minha voz tremia. — Você não vai.

Connor se levantou. — Nadia—

— Eu sei o que é isso. — Eu encarei Connor. — Eu sei o que você tá fazendo de verdade.

A expressão dele vacilou. Só por um segundo.

— Do que você tá falando?

— Você não vai levar o Billy pra lugar nenhum. — Minhas mãos se fecharam em punhos. — Você vai levar é a Kelsey.

A mandíbula de Connor travou.

— Isso é ridículo — Connor disse.

— Ridículo? — Eu também me levantei. — Você acha que eu não sei? Eu te ouvi no bar hoje à noite, Connor. Eu ouvi tudo o que você falou pros seus amigos.

O rosto dele empalideceu.

— Você vai pro interior com a Kelsey por três meses — eu disse. — Pra “terapia”. E você ia me dizer que era um programa de pai e filho. Ia usar o Billy de álibi.

— Mãe—

— E você. — Eu me virei pra Billy. — Você ia mentir por ele. Ia ajudar seu pai a mentir pra mim.

O rosto de Billy ficou vermelho. Não de vergonha. De raiva.

— E daí se eu ia? — ele disse. — Pelo menos o pai não me trata como bebê. Pelo menos o pai não me faz passar vergonha na frente dos meus amigos.

Eu dei um passo pra trás.

— É exatamente disso que eu tô falando — Connor disse. A voz dele agora estava fria. — Você tá histérica. Tá fazendo acusações sem pé nem cabeça—

— Sem pé nem cabeça? — Eu ri. Saiu quebrado. — A “doença” da Kelsey era falsa, Connor. Ela anda pela nossa casa quase pelada. Ela fica te tocando o tempo todo. Ela senta tão perto de você que eu sinto o perfume dela na sua roupa quando você chega em casa.

— Ela é minha paciente—

— Ela não é sua paciente! — eu gritei. — Eu vi as mensagens no celular dela.

— Eu abri mão da minha promoção por você — eu disse. Minha voz falhou. — Eu abri mão da minha carreira pra criar o Billy. Eu tô grávida do seu filho agora, Connor. E você quer me abandonar por três meses pra fugir com outra mulher.

Connor estendeu a mão pro meu braço. — Você precisa se acalmar.

Eu me desvencilhei.

Foi quando Billy se mexeu.

Ele veio correndo pra cima de mim, com o rosto contorcido de ódio.

— Você estraga tudo! — ele berrou.

A cabeça dele bateu na minha barriga.

O mundo ficou branco.

Eu não conseguia respirar, não conseguia pensar. Só dor, aguda e terrível, irradiando pelo meu corpo inteiro.

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