Capítulo 4

Ponto de vista da Nadia

Acordei numa cama de hospital.

Minha mão foi direto para a barriga. Reta, vazia.

Uma médica estava parada ao pé da minha cama.

— Sinto muito, senhora Clark — ela disse. — Fizemos tudo o que foi possível. O bebê não resistiu.

Eu não chorei. Todas as lágrimas já tinham secado dentro de mim.

Connor estava perto da janela. Ele não olhava para mim. Estava de braços cruzados, o maxilar travado.

A médica saiu em silêncio.

Por fim, Connor se virou. O rosto dele não estava triste nem culpado. Estava irritado.

— Tá vendo o que acontece? — ele disse. — É exatamente disso que eu venho falando.

Minha garganta ardia.

— O quê?

— Você está sempre histérica, Nadia. Sempre fazendo cena. — Ele chegou mais perto da cama. — A médica disse que você precisa descansar. Mas eu te conheço. Enquanto eu e o Billy estivermos por perto, você vai continuar com isso. Vai continuar surtando.

Eu encarei ele.

Meu bebê tinha morrido, e ele estava me culpando.

— Eu não… — Minha voz falhou. — O Billy me bateu. Ele…

— Porque você levou ele a isso — Connor me cortou. — Você encurralou ele com essas suas acusações. Fez ele se sentir preso.

Uma lágrima escorreu pela minha bochecha.

Connor suspirou. Sentou na cadeira ao lado da minha cama.

— Eu tenho pensado — ele disse. — Tem uma solução.

Eu não respondi.

— Eu posso fazer em você um tratamento experimental de hipnoterapia — Connor disse. — É algo que eu venho pesquisando. Dá para suprimir temporariamente certas memórias, ajudar você a esquecer eventos traumáticos.

— Esquecer? — eu sussurrei.

— Só por um tempo. — Ele se inclinou para a frente. — Eu vou te colocar numa clínica onde você possa descansar. Você não vai se lembrar de nada dessa dor. Não vai se lembrar do bebê, nem da briga, nem de nada disso. E quando eu e o Billy voltarmos daqui a três meses, eu reverto o tratamento. Você recupera as memórias, e tudo volta ao normal.

Minha cabeça parecia lenta.

— Você quer apagar a minha memória?

— Eu quero te ajudar — Connor disse. — Assim, você não vai sofrer enquanto a gente estiver fora. Você não vai ficar aqui sozinha, pensando em tudo, ficando cada vez mais abalada. Você só vai… descansar.

Ele fazia parecer tão razoável.

Aquela era a solução dele. Me apagar.

— E se eu disser não?

A expressão de Connor endureceu.

— Então você vai ficar aqui sozinha por três meses, pensando em como perdeu o nosso bebê. Se culpando. Me culpando. Piorando cada vez mais. — Ele fez uma pausa. — É isso mesmo que você quer?

Fechei os olhos.

Meu bebê tinha ido embora, meu marido não me amava, meu filho tinha vergonha de mim.

O que importava, afinal?

— Tudo bem — eu disse. — Faz.

A clínica se chamava Riverside Rest.

Connor me levou até lá dirigindo ele mesmo. Billy não foi; ele estava “na casa de um amigo”, disse Connor.

Connor me acompanhou até o meu quarto.

— Você vai ficar confortável aqui — Connor disse. — A equipe vai cuidar bem de você.

Sentei na beira do colchão.

Connor ficou parado na porta.

— Lembra do que a gente combinou, Nadia. Nada de telefonemas. Nada de tentar falar com a gente. Nada de arrumar confusão.

Olhei para ele.

— Eu não vou.

— Ótimo. — Ele ajeitou o relógio no pulso. — Te vejo em três meses.

O experimento começou bem rápido. A cada sessão, eu me sentia me afastando cada vez mais de ter a cabeça no lugar. Meus pensamentos ficaram enevoados, e minhas lembranças começaram a ficar embaralhadas, borradas, misturadas.

Na maior parte do tempo em que estive lá, eu só ficava sentada perto da janela, olhando pro nada.

Numa tarde, eu estava sentada ali quando, de repente, ouvi duas enfermeiras conversando no corredor.

Eu não estava tentando ouvir escondido nem nada, mas a porta estava entreaberta.

“Você viu a nova paciente do quarto 12?”, uma delas perguntou. “A mulher cujo marido fez a internação?”

“A Sra. Clark? Vi, coitada.”

“Eu olhei o prontuário dela. Você sabe o que ele está fazendo com ela?”

“Aquela terapia experimental de memória”, disse a primeira enfermeira. A voz dela ficou mais baixa. “Nunca foi testada em humanos antes. O risco de dano cerebral permanente é—”

“Ele não contou pra ela, contou?”

“Claro que não. E ele pediu especificamente pra gente restringir a liberdade dela. Sem ligações, sem visitas. Ela nem pode saber que tem o direito de recusar o tratamento.”

“Isso não está certo.”

“Ela acabou de sofrer um aborto espontâneo também. Ele largou ela aqui e voou pra fora do país com o filho e outra mulher. Eu vi as fotos nas redes sociais dele.”

“Que fotos?”

“Fotos de férias na praia. Eles pareciam tão felizes.”

Um arrepio atravessou meu peito.

“Ela está aqui há duas semanas e ele não ligou uma vez”, disse a primeira enfermeira. “Uma vez sequer. Até estranhos ficariam com pena dela.”

As vozes foram sumindo enquanto elas se afastavam.

Eu fiquei ali, paralisada. Minha tristeza e meu coração partido pareciam quase completamente drenados de mim.

Os dias se misturaram uns com os outros.

Numa manhã, eu acordei e não conseguia lembrar por que eu estava aqui.

Eu sabia meu nome. Nadia. Mas todo o resto estava nebuloso.

Eu tinha ficado doente? Eu estava aqui para tratamento?

Perguntei à enfermeira que trouxe meu café da manhã, mas ela só disse que eu estava ali para descansar e me recuperar.

Eu me esforcei para lembrar, mas não consegui pensar em nada, então apenas relaxei e tentei aproveitar esse tempo de recuperação.

Naquela noite, eu conheci outra paciente na sala comum. O nome dela era Missy. Ela era muito doce e engraçada. Nós jogamos cartas juntas, e eu me senti feliz.

Nas semanas seguintes, fiz mais amigos. A gente comia junto, assistia a filmes, caminhava no jardim.

Eu não sabia o que tinha esquecido.

Mas fosse o que fosse, devia ser pesado.

POV do Connor

Três meses passaram rápido.

O interior tinha sido exatamente o que a Kelsey precisava. O Billy também se divertiu. Connor se sentia bem com a decisão.

Mas, de vez em quando, Connor ainda pensava na Nadia, que ele tinha deixado na clínica, e, com o tempo, passou a sentir cada vez mais falta dela.

Quando voltaram para Palo Alto, a primeira coisa que ele fez foi ligar para o Dr. Martinez.

“Como ela está?”, Connor perguntou.

“Estável”, disse o Dr. Martinez. “Podemos prosseguir com a restauração da memória quando você estiver pronto.”

“Hoje”, disse Connor. “Eu vou buscar ela hoje.”

Naquela tarde, ele dirigiu até o Riverside Rest. O Dr. Martinez o encontrou no saguão.

“O procedimento correu bem”, disse ele. “Ela deve estar com a lembrança completa agora.”

Connor assentiu. “Alguma complicação?”

O Dr. Martinez hesitou. “Tem... algo incomum. Mas eu prefiro que você veja com os próprios olhos.”

Eles caminharam juntos até o quarto da Nadia.

Nadia estava sentada perto da janela. Ela se virou quando ouviu ele entrar.

Por um instante, Connor só olhou para ela. Ela parecia mais saudável do que quando ele tinha ido embora. O rosto estava corado e os olhos, claros.

“Nadia”, ele disse, dando um passo à frente. “Eu vim te levar pra casa.”

Nadia apenas encarou ele, sem alegria nem tristeza.

Connor sentiu um desconforto enorme.

“Desculpa.” Ele viu Nadia franzir a testa e então dizer, confusa:

“Quem é você?”

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