Capítulo 1
— Sacerdote, estou solicitando a transferência do meu registro para as Terras Proibidas. E preciso dos materiais para forjar um Fantoche de Sombra Lunar. Daqui a três dias, ele ficará no meu lugar no altar de acasalamento.
Falei com a runa de comunicação na palma da minha mão.
Do outro lado, a voz do Sacerdote da Lua se elevou num tom de alerta. — Aria, você tem noção do que está dizendo? As Terras Proibidas são um abismo sem volta! São governadas pelos licantropes. Você nem sequer tem um espírito de lobo — entrar lá é uma sentença de morte!
— Minha decisão é definitiva.
Depois de uma longa pausa, o suspiro pesado e contido dele reverberou. — Usar um substituto de fantoche é um ato de absoluta blasfêmia contra a Deusa da Lua... Você esperou por Kaelen por tantos anos. Por que desistir agora?
— Porque um fantoche nunca vai trair um voto sagrado.
...
Cortando a conexão da runa, olhei para a foto de noivado emoldurada pendurada na parede.
Nela, Kaelen me envolvia com os braços firmes pela cintura por trás, os olhos transbordando de devoção absoluta.
E, no entanto, esse mesmo noivo — o homem que jurou me proteger pelo resto da vida — estava naquele exato momento no andar de cima, no nosso quarto do casal. Com a minha meia-irmã.
Por dezoito anos, a alcateia inteira zombou de mim. Eu era a puro-sangue defeituosa — nascida sem um espírito de lobo, para sempre surda e cega à rede psíquica da alcateia, o Elo Mental.
Mas, instantes atrás, a barreira invisível que selava minha linhagem se despedaçou sem aviso.
[...Ah... Kaelen... não tão forte...]
O gemido ofegante de uma mulher cortou direto meu córtex neural recém-desperto como uma lâmina serrilhada.
[O quê? Você não gosta? Quem foi que estava me implorando por isso na cama?]
A risada rouca e arrogante do homem — acompanhada pelo som úmido e ritmado de carne batendo contra carne — ecoou com perfeição dentro da minha cabeça.
[Para... espera um segundo,] a mulher reclamou, cheia de manha. [Aria está bem aqui embaixo. E se ela ouvir a gente...]
Era Selene. Minha meia-irmã.
Dividíamos metade do sangue, e ainda assim nossas vidas eram mundos à parte.
Selene despertara um raro dom de cura e era reverenciada como a “Santa” da alcateia. Eu, por outro lado, tudo o que eu tivesse — no instante em que Selene quisesse, nosso pai me obrigava a entregar a ela.
Kaelen era a única coisa que eu me recusava a ceder. Meu limite absoluto.
Mas agora até esse último fiapo de esperança tinha apodrecido até o núcleo.
Eu não queria lixo manchado pelo cheiro de outra mulher. Eles podiam ficar um com o outro. Eu embrulharia esse noivo hipócrita junto com o título de Luna e jogaria os dois como caridade.
Era hora de cortar todos os laços e me libertar de vez.
[Do que você está com medo?] Kaelen soltou uma risada curta, desdenhosa. [Ela nem conseguiu despertar o lobo. É completamente surda ao Elo Mental.]
[Só de pensar em você marcando aquele lixo inútil eu fico enjoada. Por que ela é que tem que ser Luna?]
[Bebê, aqueles velhos idiotas do conselho ainda não me respeitam. Aria é a herdeira puro-sangue. Marcá-la é o único jeito de eu garantir o cetro de Alfa.]
Uma náusea extrema se revirou violentamente no meu estômago.
Alguns minutos depois, Kaelen desceu as escadas com a maior naturalidade. Um leve rubor de esforço ainda marcava seu rosto bonito.
Ele parou atrás de mim, abrindo os braços para me puxar para o seu abraço.
—Essa moldura é pesada demais pra você. Por que não me chamou pra eu fazer isso? —a voz dele escorria uma bronca mimada, cheia de condescendência.
Naquele exato segundo, o fedor inconfundível de sexo — misturado ao perfume enjoativamente doce de baunilha da Selene — atingiu minhas narinas.
Dei meio passo à frente e, com naturalidade, desviei do toque dele sem perder o ritmo.
Os braços dele congelaram no ar. Mas ele logo disfarçou a surpresa, substituindo-a por um sorriso profundamente afetuoso. —A cerimônia já está logo ali. Está nervosa? Não se preocupe, meu amor. Deixa tudo comigo. Vou garantir que toda a alcateia veja o quanto eu te amo.
Se eu não tivesse acabado de ouvir, literalmente, ele comendo a minha irmã lá em cima, talvez eu até tivesse chorado de alegria.
Nesse instante, Selene desceu as escadas desfilando num vestido de seda tipo camisola. O decote despencava perigosamente, e bem acima da clavícula havia um chupão recente que ela não tinha conseguido cobrir direito com a base.
—Irmã. —Selene abriu um sorriso radiante. —Eu estava lá em cima testando a firmeza do colchão do seu novo quarto principal. Você não se importa, né?
Kaelen fechou a cara imediatamente e lançou a ela um olhar duro. —Selene. Aria é a minha companheira predestinada. A cerimônia é daqui a três dias. Tenha respeito!
Que atuação impecável. Que noivo tão ferozmente protetor.
E, ainda assim, no exato segundo em que a declaração justa terminou, a voz dele rastejou pela Ligação Mental.
[Seja uma boa garota. Só estou fazendo cena pra ela não desconfiar. Te encontro hoje à noite na porta dos fundos da vila. Vista aquela camisola preta transparente.]
[Entendido, meu Alfa~] Selene ronronou de volta na mente dele.
Em voz alta, ele era o companheiro dedicado e protetor.
No escuro, eles exploravam sem vergonha a Ligação Mental para orquestrar a próxima transa.
—Eu preciso de um minuto no banheiro.
Passei por eles.
No momento em que a porta clicou e se fechou atrás de mim, isolando-me daqueles rostos repulsivos,
eu bati as mãos na pia.
A bile arranhou o caminho até a minha garganta. Tive ânsia seca, as pontas dos meus dedos tremendo violentamente contra a borda da bancada.
Abri a torneira num tranco e joguei água gelada no rosto.
Devagar, ergui a cabeça, encarando no espelho a mulher de olhos injetados de sangue.
Anos atrás, durante uma caçada da alcateia, os filhotes arrogantes do Conselho Alfa me empurraram para um poço de lama.
Eles zombaram de eu não ter um lobo, e foi Selene quem os liderou para arrancarem de mim o único amuleto de proteção que minha falecida mãe tinha me deixado.
Bem na hora em que um par de garras em transformação estava prestes a dilacerar a minha garganta, Kaelen se atirou na minha frente. Ele recebeu o golpe brutal no meu lugar, deixando as costas dele rasgadas e sangrando.
—Aria, não tenha medo. Enquanto eu tiver um sopro de ar nos pulmões, nunca vou deixar ninguém te machucar.
Por causa daquela única promessa, eu aguentei anos do favoritismo tóxico do meu pai e dos roubos incessantes da Selene, arrancando pedaço por pedaço da minha vida.
Eu acreditei que, enquanto eu tivesse Kaelen, ainda tinha um refúgio seguro.
Agora eu entendia o que era aquilo. Uma piada cruel, nauseante.
De repente, a runa no meu bolso se acendeu com um calor ardente.
[Transferência para as Terras Proibidas: aprovada. Em três dias, um guia estará esperando por você na Floresta dos Pinheiros Negros.]
A contagem regressiva de três dias tinha começado oficialmente.
