Capítulo 2

Saí do lavabo. A porta pesada não abafou por completo os sussurros que escapavam do depósito no fim do corredor.

"Você ouviu aquilo? Os barulhos vindos da suíte principal mais cedo."

"O Alfa em ascensão e a 'Santa'? O que isso tem de novidade?" zombou uma serva Ômega, com desdém. "Nossa legítima princesa da alcateia é uma defeituosa que nem consegue acessar o vínculo mental. Ela nem é capaz de sentir o cio de outra loba no próprio noivo."

"Fica pior." A segunda voz baixou, pingando deboche descarado. "Lorde Kaelen já mandou os alfaiates ajustarem o vestido cerimonial e a Coroa de Prata Lunar às medidas exatas de Lady Selene. Quando a Cerimônia de Acasalamento chegar daqui a três dias, ela vai passar a maior vergonha, afundada num tecido que nem serve nela."

No fim das contas, traição nunca foi uma conspiração escondida. Nessa casa da alcateia, era um carnaval escancarado, endossado por todos.

A única idiota cega que não tinha lido o roteiro era eu.

Empurrei a porta e fui direto até elas.

As duas servas se viraram num sobressalto. Quando perceberam que era eu, o breve lampejo de pânico em seus rostos logo foi substituído por desprezo e desdém protocolares.

A Ômega mais velha ofereceu uma reverência seca e debochada. "A cerimônia está se aproximando, minha senhora. A senhorita não deveria ficar andando por aí. Afinal, a senhorita não tem espírito lupino. Com apenas o título vazio de puro-sangue, seu corpo deve se cansar tão facilmente."

Não fiquei com raiva. A aura de puro-sangue recém-desperta vazou pelos meus olhos.

As palavras morreram imediatamente na garganta dela. Os joelhos cederam sem controle, e sua respiração ficou instantaneamente pesada e irregular.

"Você descreveu os detalhes com tanta vividez", eu disse, encarando-a diretamente nos olhos. "Está com medo de que eu ouça? Ou está com medo de que eu não ouça?"

Os rostos delas empalideceram na mesma hora, tremendo como folhas numa tempestade.

Dei meio passo à frente e baixei a voz. "Mantenham a boca fechada. Se eu ouvir nem que seja um sussurro lá fora sobre o despertar da minha linhagem, eu mesma vou arrancar a língua de vocês."

As duas assentiram freneticamente. Não lhes dei nem mais um olhar.

À mesa do jantar naquela noite, Selene sentou-se de propósito bem ao lado de Kaelen.

Quando ela se inclinou levemente para a frente, revelou um vislumbre de um nó trançado novinho em folha junto à clavícula. O brilho vermelho-escuro de sangue fresco corria dentro dele, irradiando descaradamente o cheiro pesado de Alfa de Kaelen.

Ele tinha agido pelas minhas costas e marcado Selene com um Nó de Aroma de acasalamento só dela.

A voz enjoativamente doce e presunçosa de Selene atravessou o canal do vínculo mental: [Ela é só uma casca vazia com o título oficial, Kaelen. De agora em diante, o seu sangue só precisa alimentar este meu nó.]

O Nó de Aroma suspenso sobre o meu próprio coração — aquele que eu tratava como um tesouro — de repente pareceu uma cobra enrugada e coberta de lodo, revirando meu estômago de náusea.

No dia seguinte, usando a oração como desculpa, dispensei os guardas do lado de fora e fui até a Oficina do Sacerdote.

Levei a mão até a gola e soltei o Nó de Aroma que usava junto à pele.

Dois anos atrás, durante o nosso cortejo, Kaelen havia cortado o próprio dedo para deixar o sangue pingar nesse cordão trançado.

Aquele cheiro de Alfa costumava ser a tábua de salvação à qual eu me agarrava desesperadamente no escuro. Agora, seu odor só me enjoava.

Joguei o nó direto no braseiro de prata que ardia no centro da oficina.

No instante em que o fogo prateado engoliu o cordão, uma agonia lancinante, queimando a carne, rasgou minha clavícula. Era como se alguém arrancasse, sem a menor piedade, um ferro em brasa de dentro dos meus próprios ossos.

Um suor frio encharcou minhas costas na mesma hora. Tranquei a mandíbula, mordendo com força.

Enfiar o nó leva só um momento de impulso cego, mas puxá-lo para fora exige um preço em sangue.

Mas, uma vez que ele sai, a ferida enfim fica livre para cicatrizar.

Ao cair da tarde, eu me envolvi num manto e voltei ao salão principal.

No segundo em que atravessei a porta, Kaelen veio correndo, o rosto marcado por uma preocupação frenética.

Ele segurou meus ombros, a voz carregada de urgência. “Aria! Onde você esteve? Eu já ia mandar os guardas fecharem toda a propriedade. Você tem ideia do quanto eu fiquei apavorado, achando que tinha acontecido alguma coisa com você?”

Enquanto falava, ele ajustou com cuidado a gola do meu manto.

Ergui o olhar e encarei seus olhos diretamente.

“Kaelen”, eu disse, com uma calma inquietante na voz. “Se você tem outra pessoa no coração, me diga. Eu vou desfazer o contrato de acasalamento e sair do caminho. Não vou te atrapalhar.”

As mãos dele enrijeceram visivelmente.

“Só precisa ser honesto”, eu continuei, observando-o. “Só não me trate como um lixo surdo e sem cheiro com o qual você pode brincar.”

Um lampejo de pânico cruzou seus olhos, rapidamente mascarado por um afeto profundo. Ele estendeu a mão e deu um leve toque no meu nariz, sorrindo com ternura indulgente. “Que bobagem é essa que você está pensando? Eu nunca poderia mentir para você.”

“E se essa outra pessoa for a Selene?”

“Selene?” Ele fingiu que tinha acabado de ouvir uma piada absurda, deixando escapar, com precisão, um traço de menosprezo. “Ela é infantil demais, teimosa e imatura. Mas você é diferente, Aria. Você é pura, limpa. Você é a Luna perfeita no meu coração.”

Baixei os cílios, respondendo baixinho. “Certo.”

Até o último vestígio de náusea desapareceu do meu peito. Tudo o que restou foi uma clareza fria, absoluta.

Nesse momento, meu pai, Fenrir, desceu a grande escadaria com o cenho carregado. Atrás dele vinham a mãe de Selene e a própria Selene, com um sorriso presunçoso brincando nos cantos dos olhos.

“Há um limite para fazer birra!”, meu pai rosnou, despejando reprimendas sobre mim. “A Cerimônia de Acasalamento envolve a dignidade de toda a matilha! Todo mundo está correndo, trabalhando por sua causa, e você resolve brincar de esconde-esconde? Ainda não se envergonhou o bastante?”

Selene deu um passo à frente, puxando de leve o braço do nosso pai, com palavras melosas. “Não culpe minha irmã, pai. Ela não tem espírito de lobo; é normal que não aguente a pressão da cerimônia. Kaelen tem um bom temperamento. Ele sempre foi tão paciente com ela.”

A mãe de Selene entrou na conversa imediatamente. “A nossa Selene é sempre tão compreensiva. Aria, Kaelen está se casando com você apesar de toda a pressão. Você precisa aprender a ser grata e parar de dar trabalho pra ele.”

Favoritismo, culpa e exploração justificada. Havia dezoito anos que esta propriedade repetia exatamente o mesmo roteiro, dia após dia. Se fosse antes, meu coração provavelmente estaria sangrando agora.

Mas, encarando aquele mar de rostos completamente hipócritas, eu não senti nada além de torpor.

Ignorei a mão que Kaelen estendeu para tentar me consolar.

“Fique tranquilo”, eu disse. Minha voz não era alta, mas cada palavra parecia pedra talhada. “De agora em diante, eu nunca mais vou arruinar a sua preciosa dignidade.”

Eles ficaram paralisados, incapazes de captar o frio mortal escondido por trás das minhas palavras.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo