Capítulo 3

Quando Seraphina anunciou a gravidez, o castelo inteiro de Rookwood tratou aquilo como uma bênção divina.

Da noite para o dia, os antigos corredores de pedra passaram a zumbir com uma euforia maníaca e jubilosa. O casamento que se aproximava já não era apenas a união de duas linhagens poderosas; era o alvorecer de uma nova era para a família Rookwood.

— Sinto muito, Maren — disse Seraphina, a voz escorrendo de uma doçura artificial enquanto permanecia de pé no grande salão de jantar, uma das mãos protegendo a barriga. — Os preparativos do casamento estão drenando o tesouro do castelo. E os mestres insistem que meu bebê precisa de elixires de síntese do mais alto grau. Simplesmente teremos de cortar despesas com os convidados.

— Além disso, com tantos nobres chegando em breve, seria extremamente inapropriado que uma meio-sangue sem título oficial fosse vista perambulando pelos salões principais. Seu status aqui é... bem, constrangedor, para dizer o mínimo. As pessoas podem fofocar. Seria melhor para todos que, a partir de agora, você ficasse completamente fora de vista e fizesse suas refeições no seu sótão. Não apareça na frente de Rhys. Não estrague o casamento perfeito dele.

Baixei os olhos para o meu prato. Minha taça estava cheia de sangue de porco diluído, com um leve cheiro de ferrugem. Minha refeição era pão amanhecido e verduras murchas.

Ao nosso redor, os criados observavam, prendendo a respiração. Esperavam que eu virasse a mesa, que gritasse sobre o sacrifício do meu pai, que exigisse ver Rhys.

Em vez disso, peguei o pão amanhecido, dei uma mordida e engoli.

— Perfeitamente compreensível, Lady Seraphina — respondi, com a voz totalmente plana. — Parabéns pela criança.

O sorriso triunfante de Seraphina vacilou. Ela vasculhou meu rosto em busca de uma fissura, um tremor de ciúme, mas não encontrou nada. Terminei minha refeição miserável em silêncio e passei por ela.

Os criados logo entenderam o recado. Se a futura Lady da casa me considerava inútil, eles não tinham motivo para me respeitar.

Nas duas semanas seguintes, meu carvão de aquecimento foi “esquecido”, deixando meu sótão como uma caixa de gelo. Minhas roupas foram jogadas de propósito na água suja.

As camareiras não apenas pararam de fazer reverência quando eu passava — elas batiam de propósito no meu ombro, com um sorriso de desprezo escancarado.

— Olhem para ela — sussurravam. — O Lorde vai se casar com seu verdadeiro amor e acolher um herdeiro. Como um parasita sem vergonha como ela ainda tem coragem de ficar aqui?

Eu não me importava. Estava ocupada demais planejando minha fuga.

Levantei a tábua solta do assoalho sob a minha cama e tirei uma bolsa pesada de couro. Dentro estava a pensão militar do meu pai — uma soma considerável de Cristais de Sangue puros, que ele tinha conquistado com a própria vida. Eu nunca tinha tocado naquilo, tola, acreditando na promessa de Rhys de que cuidaria de mim para sempre.

Saí do castelo às escondidas à meia-noite, escorregando para o mercado negro subterrâneo e sombrio da cidade baixa. Não procurei comerciantes de sangue puro. Em vez disso, encontrei um contato dentro de um sindicato de vampiros de baixa categoria.

— Preciso de um cristal de identidade falsificado e uma passagem só de ida de aeronave para as Cidades Livres Humanas do Sul — eu disse ao falsificador encapuzado.

O falsificador mordeu o cristal, e seus olhos se arregalaram diante da pureza.

— O Sul? Isso fica totalmente fora da jurisdição dos sangue-puros. Você vai ser um ninguém lá embaixo.

— Esse é exatamente o objetivo — eu disse.

Ao voltar para o sótão horas depois, comecei a limpeza.

Abri meu guarda-roupa e puxei todos os vestidos de seda, todas as capas de veludo e cada grampo de cabelo com joias que Rhys me dera despreocupadamente ao longo dos anos.

Empilhei tudo na pequena lareira de ferro. Em seguida, foram os diários cheios do meu desejo patético e unilateral.

Risquei um fósforo e o joguei lá dentro. As chamas rugiram, ganhando vida, devorando a seda e o papel, reduzindo meu passado humilhante a cinzas cinzentas.

Bum!

A porta do meu sótão foi escancarada com um chute violento.

Rhys estava na soleira; seus olhos carmesins correram do fogo em fúria até o guarda-roupa vazio e, por fim, se fixaram no meu rosto.

— Então os espiões no banco central não estavam mentindo — Rhys zombou, entrando no quarto. — Você sacou toda a pensão do seu pai.

Eu apenas peguei o atiçador e remexi os vestidos em chamas. — Saquei.

Ele avançou, agarrou meu ombro e me obrigou a encará-lo.

— Essa é sua nova estratégia, Maren? Fugir? — Sua mão era como uma morsa de aço. — Você não aguentou a notícia da gravidez da Seraphina. Não consegue engolir o fato de que vou me casar com ela. Aí faz birra, esvazia sua conta e planeja fugir para os territórios humanos só para chamar minha atenção?

Ele era tão arrogante, tão profundamente convencido de que o meu universo inteiro girava ao redor dele.

— Eu só estou indo embora para dar um pouco de paz à nova Lady da casa — respondi, num tom estranhamente calmo. — Eu não pertenço a este lugar.

— Você pertence onde eu mandar você pertencer! — Rhys rugiu, perdendo a compostura.

Mas, tão rápido quanto, ele inspirou fundo, obrigando-se a se acalmar. Olhou para mim com uma mistura de pena e desprezo absoluto.

Tirou uma bolsa pesada de veludo e a arremessou sobre minha cama pequena de madeira.

— Aí dentro tem dinheiro extra — Rhys disse friamente, ajustando os punhos. — Se você quer correr para a fronteira humana para lamber as feridas, ótimo. Vá brincar por alguns meses. Mas leve esse dinheiro e garanta que viva com decência. Não se vista como uma mendiga e envergonhe o nome Rookwood.

Ele caminhou até a porta, parando sem olhar para trás.

— Quando você finalmente perceber como o mundo real é cruel sem a minha proteção, pode voltar. Mas, até lá, Seraphina será a Lady oficial deste castelo. Espero que você se ajoelhe e lhe mostre o respeito que ela merece. Pare com essa rebelião patética, Maren. Isso não muda nada.

A porta bateu com força.

Na manhã seguinte, levei a bolsa de riqueza sangue-puro de Rhys direto para as favelas. Despejei cada cristal sobre a mesa do orfanato de vampiros de baixa casta. A matrona quase desmaiou de choque.

— Distribua — eu disse a ela. — Considere isto um presente de casamento do Lorde Rookwood.

Depois, fui ao escritório de mensageiros do subsolo para buscar meu cristal de identidade falsificado e minha passagem.

O dirigível Crimson Horizon.

Data de partida: dia 15 da Lua de Sangue.

Passei o polegar sobre a data impressa no bilhete de pergaminho. Era exatamente o dia do grande casamento de Rhys e Seraphina.

Naquele dia, Rhys estaria diante do altar, cercado pelos escalões mais altos da sociedade vampírica, deleitando-se com sua noiva sangue-puro perfeita e com seu herdeiro supostamente perfeito. Estaria no auge absoluto do seu poder e do seu orgulho.

E eu estaria a milhares de quilômetros de distância, no céu, desaparecendo do mundo dele para sempre.

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