Capítulo 3

Meu coração deu um salto quando notei que a porta da sacada estava entreaberta. Corri até lá e empurrei a porta para abrir.

Mamãe estava ali, sentada no único sofá, com um álbum de fotos aberto sobre o colo. A brisa fresca da noite agitava seus cabelos ralos enquanto ela virava as páginas, aparentemente perdida em lembranças antigas. Ela deve ter se levado até aqui na cadeira de rodas.

Eu tinha proibido que ela viesse para a sacada à noite, principalmente quando estivesse se sentindo fraca, mas mamãe sempre foi teimosa. Ela adorava ficar sentada ali, observando as luzes lá fora e respirando o ar fresco. Era um dos poucos prazeres simples que ainda tinha.

Como se tivesse sentido minha presença, ela ergueu a cabeça. Um sorriso suave surgiu em seu rosto pálido.

— Lily, venha sentar comigo, querida.

O alívio me atingiu com tanta força que minhas pernas quase cederam. Corri até ela e a abracei, apertando o máximo que me atrevi.

— Eu fiquei com tanto medo... — minha voz falhou. — Achei que tivesse acontecido alguma coisa com você.

As lágrimas que eu vinha segurando finalmente transbordaram. Os braços finos de mamãe me envolveram, e ela acariciou meu cabelo com delicadeza.

— Não chore, querida. Eu estou bem aqui.

Afastei-me e me ajoelhei diante dela, enxugando o rosto.

— Por favor, não faça isso de novo.

— Eu prometo. — Ela segurou meu rosto com as mãos frágeis e enxugou minhas lágrimas com os polegares. — Então, por favor, pare de chorar.

Eu assenti, mas outra lágrima escorreu pela minha bochecha. Ela me observou por um longo instante, com os olhos demorando no meu rosto como sempre faziam. Então seu olhar se fixou nos meus olhos.

Mamãe sempre os amou.

— Você tem os olhos mais lindos que eu já vi — ela murmurou. — São tão únicos. Ninguém tem olhos como os seus.

Eu tinha uma condição rara chamada heterocromia irídica, que fazia com que minhas íris tivessem cores diferentes. Meu olho esquerdo era verde-esmeralda, enquanto o direito era de um azul profundo, como o oceano.

Mamãe sempre me disse que meus olhos incomuns eram um presente, e não algo de que eu devesse ter vergonha. Ela passou os dedos de leve pela minha têmpora, alisando a ruguinha de preocupação que havia ali.

— Na sua idade, você devia estar aproveitando a vida — disse baixinho. — Em vez disso, passou tanto tempo cuidando de mim. Você nem pôde viver direito por minha causa.

— Não diga isso. — Peguei a mão dela e a apertei entre as minhas. — Você não é um peso, mãe. Nunca foi.

— Mas, Lily...

— Você é a melhor coisa que já aconteceu comigo. — Sorri por entre as lágrimas. — Eu faria a mesma escolha de novo, quantas vezes fosse preciso. Eu nunca vou me cansar de te amar.

Inclinei-me para a frente e a abracei outra vez. Ela apoiou a bochecha no meu cabelo, e eu fechei os olhos. Depois de tudo o que tinha acontecido naquela noite, era exatamente ali que eu precisava estar. Nos braços da minha mãe.

— Está ficando tarde — murmurei por fim. — Você precisa descansar. Vamos. Eu te ajudo a voltar para a cama.

Tirei o álbum de fotos do colo dela e o coloquei na mesinha ao lado, antes de ajudá-la a se levantar. Mamãe estava tão frágil que parecia não pesar quase nada nos meus braços. Eu a ergui com cuidado e a carreguei para dentro, ignorando seus protestos fracos.

— Você não precisa me carregar, Lily. Eu consigo andar.

— Eu sei. Mesmo assim, vou te carregar.

Um risinho escapou dela. Era um som tão pequeno, mas aqueceu meu coração. Deitei-a com delicadeza na cama e puxei o cobertor sobre ela.

— Preciso te dizer uma coisa importante, Lily — ela disse.

Olhei para o relógio na parede. Já estava tarde. O médico tinha alertado para ela não ficar acordada por muito tempo, principalmente enquanto estivesse tomando o remédio novo.

— Outra hora, mãe, tá bem? — Inclinei-me e beijei a bochecha dela. — Você precisa dormir agora.

— Mas, Lily...

— Boa noite, mãe.

Ela me lançou um olhar resignado antes de se acomodar sob as cobertas.

— Boa noite, querida.

Sorri e apaguei a luminária da cabeceira. Mamãe fechou os olhos. Em poucos minutos, sua respiração ficou lenta e regular. Fiquei ao lado dela por um tempo, observando-a dormir. Havia algo estranhamente frágil nela ultimamente.

Toda vez que eu olhava para ela, uma vozinha dentro de mim me lembrava que eu não sabia quanto tempo ainda nos restava.

Eu odiava esse pensamento.

Então eu o empurrei para longe e saí do quarto em silêncio.

—

O silêncio no meu quarto me recebeu no instante em que entrei. Sem a presença da mamãe ao meu lado, a solidão da qual eu vinha tentando fugir voltou depressa. Meu olhar caiu sobre a moldura apoiada na cômoda.

Dylan.

Ele sorria radiante para a câmera, as bochechas redondinhas e os olhos cheios daquela inocência que só uma criança consegue ter. Eu estava atrás dele, com os braços envolvendo seus ombros, meu sorriso espelhando o dele.

Grey estava atrás de mim, os braços enlaçados de forma possessiva na minha cintura. Parecíamos a família perfeita. A foto tinha sido tirada poucas semanas antes de tudo mudar.

Era a última fotografia que eu tinha do meu filho. Não muito tempo depois, um acidente de carro o tirou de mim para sempre. Dois anos tinham se passado desde então, mas a culpa nunca tinha diminuído. Às vezes, eu ainda acordava de pesadelos acreditando que conseguia ouvir Dylan me chamando.

Às vezes eu me perguntava como ele estaria agora. Teria crescido? Ainda teria aquele sorriso travesso? Teria herdado os olhos do Grey?

As perguntas não tinham resposta. E talvez nunca tivessem. Eu encarei a fotografia até meu peito começar a doer.

Era para ter sido eu. Não ele. Se eu pudesse voltar no tempo, eu me jogaria na frente dele sem hesitar. Ele merecia a chance de crescer. Ele merecia um futuro.

Eu me obriguei a desviar o olhar. Tirei os saltos e vesti uma camiseta larga antes de me enfiar na cama. O sono deveria ter vindo fácil depois do tormento emocional da noite.

Não veio. Eu me remexi de um lado para o outro por horas, ou pelo menos foi o que pareceu. Toda vez que eu fechava os olhos, o rosto do Grey aparecia. Eu ainda conseguia ouvir a voz dele.

Quero o divórcio.

E ele tinha dito aquilo no aniversário do nosso casamento. A ironia quase me fez rir.

Fechei os olhos.

Eu esperava que Grey não se arrependesse da decisão algum dia. Mas, se se arrependesse, isso já não seria mais problema meu.

Por fim, o cansaço venceu.

Eu adormeci.

—

Na manhã seguinte, o som estridente do meu despertador me arrancou do sono.

Um suspiro sonolento escapou de mim enquanto eu esticava a mão até o criado-mudo e o desligava. Enterrei a cabeça debaixo do travesseiro, desesperada por mais alguns minutos de sono.

Então alguém bateu à porta.

Eu gemi. Quem poderia estar acordado tão cedo? Outra batida veio em seguida. A contragosto, me levantei da cama e atravessei o carpete descalça.

O quarto ao lado do meu era o da mamãe.

Ela era a única pessoa em quem eu conseguia pensar que bateria àquela hora. Talvez precisasse de ajuda para ir ao banheiro. O pensamento me despertou na hora. Corri até a porta e destranquei.

O que vi do outro lado me fez piscar, confusa. Celine estava ali, com seu uniforme branco de sempre, segurando com as duas mãos um pequeno bolo Floresta Negra.

Ao lado dela estava mamãe, na cadeira de rodas. E as duas estavam sorrindo.

— Feliz aniversário, Lily! — disseram juntas.

Minha mente, ainda meio adormecida, custou a processar. — Meu... aniversário? — Virei para o calendário pendurado na parede. Então meus olhos se arregalaram. Era mesmo meu aniversário.

Como eu tinha esquecido?

Depois de tudo o que tinha acontecido ontem à noite, eu nem tinha percebido que a data tinha virado. Cobri o rosto com uma mão.

— Meu Deus. Eu realmente esqueci o meu próprio aniversário.

Celine riu baixinho. — Por isso a gente teve que vir te acordar.

Mamãe sorriu. — A gente não podia deixar você dormir e perder.

Meus olhos arderam na mesma hora.

— Vocês duas lembraram.

— Claro que lembramos — disse Celine. — Sua mãe começou a me lembrar semanas atrás.

Eu ri, apesar do aperto repentino na garganta. — Mãe... — Fui até ela e me ajoelhei ao lado da cadeira de rodas.

Ela estendeu a mão e acariciou minha bochecha com delicadeza. — Sinto muito por não ter um presente para te dar — disse, arrependida.

— Você não precisa me dar nada. — Cobri a mão dela com a minha. — Ter você aqui comigo hoje é o maior presente que eu poderia receber.

Lágrimas se juntaram nos olhos dela. Ela piscou rápido, tentando segurá-las. Por fim, um sorriso suave apareceu nos lábios pálidos. — Eu tenho sorte de ter uma filha como você — murmurou.

— E eu tenho mais sorte ainda de ter você como mãe.

Mamãe segurou minhas duas mãos. — Lily, você promete uma coisa?

— Qualquer coisa.

— Promete que você vai ser feliz. Mesmo depois que eu não estiver mais aqui.

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