Sentença de morte em fita
A luz vazava pela fresta da porta do quarto do hospital como um fio amarelo encardido.
A voz de Elizabeth era enjoativamente doce: “Não... isso é um hospital.”
Vincent se apertou contra ela, rindo: “Hospital não é igreja. Além do mais, quem teria coragem de empurrar a porta? O Marco é todo preocupado em manter a dignidade.”
Ela riu baixinho, cedendo ao incentivo dele: “Ele não teria coragem. Quebrar aquele anel de sinete ontem à noite foi só pra fazer cena.”
Eu estava do lado de fora da porta, imóvel.
Meu tenente olhou para mim, as pontas dos dedos pousando no cabo da arma.
Ergui a mão e a pressionei para baixo, de leve.
Eu não precisava invadir o quarto por uma satisfação mesquinha.
Eu precisava que eles mesmos arrancassem a própria folha de figueira, deixassem para trás algo que pregasse os caixões deles.
De dentro, veio o som de lençóis se mexendo, seguido do gemido de uma mulher.
Elizabeth ainda se fazendo de difícil: “E se uma enfermeira entrar—”
A voz baixa de Vincent: “Então deixa ela assistir. Quem vai impedir a princesa Montague de conseguir o que quer?”
A palavra “princesa” atingiu ela como açúcar direto no cérebro.
A voz dela ficou mais ofegante: “Você fala tão bem.”
Vincent aproveitou o embalo: “Eu tô falando a verdade. O Marco não merece te tocar. Ele só merece te esperar, ser teu cachorro.”
Elizabeth, lisonjeada até ferver, falou com sinceridade, como se estivesse se justificando: “Eu não quis constranger ele. Eu só... queria que ele fosse mais obediente.”
“Obediência exige prova.” O tom de Vincent era suave como remédio sendo aplicado. “A remessa de amanhã precisa de liberação na alfândega, precisa da garantia do Leventino. Você pede, ele dá. Você chora um pouquinho, ele amolece.”
Elizabeth pegou fogo na hora, com uma competitividade infantil: “Ele tinha que me dar de qualquer jeito. Olha como ele te bateu ontem à noite—ele deve compensação.”
Vieram sons de beijo molhado lá de dentro, seguidos da risada arfada e abafada de Vincent: “Então me compensa primeiro.”
Elizabeth riu: “Você é tão malvado... não, não faz isso.”
Tirei um microgravador da maleta; a carcaça de metal estava fria contra a minha palma. Enfiei o captador pela fresta da porta, pressionando-o contra o chão do lado de dentro — posição perfeita para pegar tudo: respiração, tecido, cada palavra de sedução.
Clique.
A fita começou a rodar.
Eu não saí.
Esperei que eles falassem com mais clareza, fossem mais fundo.
Os sons lá dentro ficaram cada vez mais desregrados.
Estalos leves de botões sendo arrancados, fivelas de cinto batendo nas grades da cama, depois o ritmo de uma estrutura rangendo, os gemidos contidos de uma mulher sendo arrancados um a um.
O rosto do meu tenente se fechou, punhos cerrados até os nós dos dedos estalarem.
Eu só observei meu relógio.
Chega. Mais um pouco de tempo, que eles mesmos soletrassem “amanhã”.
E, como esperado, entre suspiros, Vincent voltou a passar a corda em torno do pescoço dela: “Quando a gente conseguir a garantia, tá feito. Seu pai vai te elogiar. Aí, se você quiser que o Marco espere três anos, ele espera três anos; se quiser que ele espere pra sempre, ele espera pra sempre.”
A respiração de Elizabeth estava irregular, mas ela continuava estupidamente sincera: “Mm... se eu mandar esperar, ele espera. Ele morre de medo de me ver chorar.”
Vincent soltou uma risadinha baixa: “Do jeito que você tá agora, ele ia ter mais medo. Sabe de uma coisa? Ele não faz ideia nos braços de quem você tá agora.”
Elizabeth ficou febril com aquele estímulo, como se exibindo de pirraça; a voz flutuou macia: “Então não deixa ele saber. De qualquer forma... ele vai vir.”
Vincent sussurrou no ouvido dela: “Quando ele vier, faz ele assinar. Faz ele ajoelhar e entregar a garantia.”
Elizabeth riu uma vez, como se estivesse bêbada: “Tá.”
Apertei o stop.
Clique.
A fita parou de rodar. O corredor voltou ao silêncio morto.
——
O quarto do tio Tony fedia a remédio.
O velho estava meio recostado na cabeceira, os olhos ainda duros.
Ele viu o anel de sinete negro e dourado na minha mão, e a respiração dele travou por um instante: “O Franco te deu?”
Ergui a mão, deixando a face do anel pegar a luz: “A partir desta noite, quem dá as ordens sou eu.”
Coloquei a caixa de metal no criado-mudo dele, empurrando-a para diante dos olhos dele.
Tio Tony viu o lacre de cera com a impressão do anel; seu olhar ficou gelado na hora:
— Onde você conseguiu isso?
— Na fresta da porta do quarto ao lado — eu disse. — Eles estavam discutindo garantias num hospital de igreja, bem empenhados na conversa.
O pomo de adão de Tio Tony subiu e desceu, abafando o fogo:
— O que tem aí dentro?
— As vozes deles — eu disse. — Como ela se convenceu de que estava “só me ensinando a ser obediente”, como ele foi enfiando “garantia alfandegária” na boca dela aos poucos. E… ela mesma dizendo “não deixe o Marco saber, ele vai vir de qualquer jeito”.
Tio Tony ficou em silêncio por dois segundos, como se estivesse prensando a raiva dentro dos ossos:
— Chega.
— Antes do amanhecer de amanhã — eu disse —, faça três cópias: uma para o sindicato do cais, uma para a transportadora, uma para o conselho consultivo da família. Coloque o título “Princesa Montague quebra juramento e ultrapassa limites, solicita garantia” — não precisa de mais nenhuma palavra.
Tio Tony assentiu:
— Ninguém vai ousar abrir a boca por eles de novo.
De repente, ele acrescentou mais uma frase, como quem entrega uma segunda lâmina:
— A Sra. Rossi entrou no jogo. A proteção política de Montague foi interceptada. A equipe jurídica deles trocou de dono hoje de manhã.
Meus olhos tremularam de leve.
Os métodos de Camilla eram sempre limpos: enquanto você ainda está explicando, ela já comprou a sua boca.
Apertei as luvas:
— Então, mais rápido ainda.
——
Na manhã seguinte.
Sem tiros.
Mas a Cidade de North Shore parecia como se alguém tivesse desligado a energia principal.
O sindicato do cais afixou novos horários com os nomes dos navios Montague riscados; as transportadoras romperam contratos em bloco; nos postos de fronteira, de repente, ficaram rigorosos, e navios de armas foram retidos por “retirada de garantia”.
Os tubarões das gangues de fora farejaram sangue e viraram para morder. Cassinos foram invadidos, livros-caixa apreendidos, o fluxo de caixa dos Montague estrangulado como uma garganta sob mãos.
O jornal da tarde estampou a manchete: “Colapso de crédito dos Montague: ruptura na cadeia de garantias dispara uma série de operações”.
Dos dois lados da lei, todo mundo entendeu — aquilo era puxar a escada, não brigar.
——
Naquele quarto de hospital de cuidados especiais.
Elizabeth acordou tarde, o cabelo espalhado no travesseiro, o rosto ainda com a satisfação preguiçosa de quem venceu.
— Ele deve estar vindo — disse ela a Vincent. — Ele vai baixar a cabeça. E então entregar a garantia alfandegária.
Duas batidas na porta.
Sem esperar resposta, a porta se abriu.
A pessoa que entrou não fui eu.
Era uma mulher de casaco preto, luvas cortadas com precisão extrema, como se tivessem sido feitas especificamente para manusear livros-caixa.
Dois seguranças atrás dela estavam em posição rígida, olhares sem calor.
Elizabeth franziu a testa:
— Quem é você? Este quarto é dos Montague.
A mulher bateu um documento na cama; as folhas deram um estalo seco, como um tapa com o dorso da mão.
— Representante privada da família Rossi — ela disse. — Por ordem da Sra. Camilla, entregando os termos do acordo.
Elizabeth congelou:
— Camilla… quem?
A representante não explicou; apenas puxou um anexo, como quem exibe uma sentença de execução.
Havia avisos de congelamento de contas no exterior, declarações de substituição da equipe jurídica e um bilhete de agradecimento curto o bastante para ser ofensivo — assinado com o nome de Camilla, a caligrafia afiada como ponta de faca:
“Meu marido não deve a ninguém tempo de espera.”
O rosto de Elizabeth perdeu a cor, do rosado ao pálido de morte num instante.
Seu olhar se grudou naquelas duas palavras, “meu marido”, como se alguém tivesse esfolado sua pele em público.
— Você… marido de quem? — a voz dela tremeu, mas ela ainda tentou manter a compostura. — Marco? Impossível. Nós temos um juramento…
A representante ergueu a mão, a ponta do dedo indicando a última página do documento.
Aquela página não tinha palavras sobrando; apenas a impressão nítida de um anel-sinete ao lado de um número de registro da igreja e duas assinaturas.
Marco Leventino. Camilla Rossi.
As pupilas de Elizabeth se contraíram até virarem pontos.
Ela finalmente ouviu o som do mundo dela desabando; um suspiro quebrado escapou, espremido da garganta:
— …Ele se casou?
A representante se inclinou, a voz mais leve, porém mais cruel:
— Ele se casou há dois anos.
