Capítulo 5
A verdade
Letícia cantarolava feliz enquanto caminhava para seu apartamento simples. Seu plano tinha funcionado perfeitamente. Tudo o que ela precisava fazer era seguir o homem que sabia que poderia resolver seus problemas e estudar sua rotina. Ela sabia, por suas pesquisas, que hoje era o aniversário de morte da esposa dele. Certamente, ele teria ido ao cemitério. Então, ela esperou por ele atrás das árvores o mais cedo possível naquela manhã. Ela nem sequer comeu, mas sua determinação e sacrifício valeram a pena.
Assim que o viu passar, esperou ele voltar, e felizmente, ele estava caminhando com os olhos voltados para baixo. Então, quando ela se posicionou no caminho que levava ao estacionamento, ele não tinha ideia. Eles esbarraram um no outro e ela ficou empolgada com o resultado. Foi simplesmente perfeito.
"Por que você está sorrindo?" Sua colega de quarto, Brenda, zombou de cima do beliche no apartamento de baixo custo em que viviam. "Você encontrou uma maneira de sair desse buraco sem mim?" Ela sorriu.
Letícia tentou apagar o sorriso do rosto enquanto olhava para ela. "Não é nada."
"Mesmo? Nada, e você não consegue tirar esse sorriso convencido do rosto?" Brenda perguntou levantando as sobrancelhas.
"Não é nada importante, de verdade," Letícia disse enquanto rapidamente largava sua bolsa e corria para o pequeno banheiro do quarto. Quando puxou a porta, ela saiu da dobradiça.
"Brenda!" Ela chamou lançando um olhar sujo para sua colega de quarto, que caiu na gargalhada.
"Desculpa, mas não tinha nada que eu pudesse fazer!" Brenda conseguiu dizer em meio às risadas enquanto voltava a fazer seja lá o que fosse no seu velho laptop.
Essa era uma das razões pelas quais Letícia precisava formar algum tipo de relacionamento com Rowan. Ela precisava alcançar um status mais alto na vida e Rowan era seu ponto de apoio. Ela não podia ficar nesse lugar simples que continuava desmoronando para sempre. Ao contrário de Brenda, ela tinha sonhos maiores e não descansaria até alcançá-los.
Ela tomou um banho rápido, com a porta pendurada. Não tinha escolha. E além disso, era só ela e Brenda na casa, não tinha com quem se preocupar. Ela saiu do chuveiro e seu telefone começou a tocar como se estivesse esperando ela sair do banho.
"Ótimo timing!" Ela disse baixinho enquanto apressava os passos até o telefone. Quando viu o identificador de chamadas, seu coração afundou.
Era seu irmão mais novo.
Ela sabia o que ele queria e ainda não tinha pensado em nada bom. Se ela se recusasse a atender suas ligações, ele não pararia. Ele continuaria ligando até conseguir falar com ela.
"Alô," ela começou atendendo a ligação do lado de fora. A última coisa que precisava era que Brenda ouvisse suas conversas particulares. Elas estavam dividindo o apartamento há seis meses, mas Letícia não a via como uma amiga em quem pudesse confiar. Ela era muito estranha.
"Ava, por que você não atendeu minhas ligações?" Ele disparou.
"Kelvin, relaxa, tá bom? Eu estive ocupada e você acabou de me ligar agora, então qual é o problema?" Ela retrucou.
Seu irmão era muito impaciente e isso sempre a irritava. Será que ele achava que ela estava brincando aqui?
"Ava, a condição do pai está piorando! Você ainda não conseguiu o dinheiro?"
Letícia sentiu seu coração apertar como se uma flecha tivesse sido lançada profundamente nele. Seu punho começou a tremer enquanto lágrimas enchiam seus olhos. "O que o médico disse?" Ela perguntou enquanto enxugava as lágrimas. Não era hora de chorar, ela tinha que ser forte por sua família. Ela era tudo o que eles tinham.
"Ele tem cerca de dois meses de vida se não fizermos a operação, mas mesmo assim, precisamos conseguir os medicamentos regularmente."
Letícia rangeu os dentes e puxou o cabelo para trás com a mão livre enquanto a outra segurava o telefone. "Por que você só está me contando isso agora?"
Ela ouviu seu irmão estalar a língua e podia imaginá-lo puxando seus cachos loiros para trás também. Era um gesto que ambos herdaram da mãe falecida.
"Eu não acabei de dizer que estou te ligando há um tempo?" Kelvin explodiu em frustração. "Eu sei que é difícil, mas por favor, Ava, faça alguma coisa. Se eu pudesse, teria feito mais trabalhos para conseguir dinheiro para a operação do pai, mas ninguém quer empregar um menor de idade para um trabalho que pague mais de quinhentos reais! Eu estou cansado, Ava!" Ela podia ouvir a voz dele começar a tremer e um grande nó se formou em sua garganta, pois sabia que ele estava prestes a chorar. Ela tinha que ser a irmã mais velha forte.
"Kelvin, não se preocupe com isso! Tá bom, eu vou te mandar um dinheiro agora e você pode usar isso para comprar mais remédios para o papai. E não se preocupe com a operação. Eu vou conseguir o dinheiro muito em breve. Você vai voltar para a escola e tudo vai ficar bem, tá bom?" Ela disse com dificuldade. Lágrimas quentes já escorriam pelo seu rosto, mas ela se recusou a deixar que seus soluços transparecessem na voz. Não queria que Kelvin soubesse que ela também estava chorando.
"Tá bom, vou esperar," Kelvin conseguiu dizer em meio aos soluços.
O pobre garoto tinha apenas dezesseis anos e já estava enfrentando problemas que meninos da sua idade nem deveriam estar suportando.
"Cuide-se e me mande uma mensagem quando conseguir os remédios e se precisar de qualquer outra coisa, tá?"
"Tá bom."
Letícia rapidamente encerrou a ligação e se apoiou no batente da porta do apartamento tentando se recompor. Ela enxugou as lágrimas e se recompôs.
Ela teria que acelerar seus planos com o viúvo. Precisava de dinheiro e ele era o único que poderia dar a ela na posição mais rápida. Ela respirou fundo mais uma vez e discou o número dele.
Tudo o que ela tinha contado para ele sobre si mesma era uma mentira, mas nada disso importava. O que importava era sua família.
