3- Movimentos suaves
"Com esse dinheiro, vou conseguir iscas melhores e um pouco de comida para a semana," pensa Sherek.
Depois disso, Sherek começa a perceber que está com sede e fome. Ele espera logo ganhar dinheiro suficiente para comer e ter mais tranquilidade nos próximos dias. Do nada, um homem vestido inteiramente de preto surge da floresta, fugindo de algo. Ele passa perto do caminho onde Sherek está, assustando seu cavalo, que perde o controle, corre em direção à mata e vira a carroça no penhasco. Sherek salta do cavalo e consegue escapar do acidente ileso. Ele começa a perseguir o cavalo, mas o perde de vista na floresta densa. Agora, com o cavalo perdido e a carroça destruída, longe das estradas, Sherek fica um tanto preocupado. Felizmente, ele estava carregando seu revólver, balas e machado, caso aparecesse algum animal perigoso. Agora ele não tem escolha a não ser começar a procurar outra trilha. Depois de alguns minutos, ele vê um espaço aberto, um pouco limpo, no topo de uma colina e se dirige para lá para ter uma visão mais ampla da área, mas as árvores densas tornam isso impossível. Ele anda bastante, e depois de algumas horas, decide cortar um pouco de madeira para fazer uma fogueira caso escureça. Ele olha para o céu e percebe que o meio-dia já passou; são cerca de três da tarde. A fome e a sede atacam Sherek, e à distância, ele vê um aglomerado de flores roxas e amarelas, a sessenta metros, outro aglomerado de flores brancas e azul-claro, e finalmente, a quarenta metros, um aglomerado de flores vermelhas e laranjas, todas em bom estado. "Alguém tem plantado flores por toda a floresta, que estranho. Vou pegar uma vermelha," ele diz. Depois de mais duas horas de caminhada, ele vê uma casa com árvores menores ao redor, dando-lhe uma boa visão dos arredores. A apenas trinta metros da casa, ele ouve um grito rouco e irritado acompanhado por um disparo de espingarda, e entende, "Saia da minha propriedade, garoto!" Um homem idoso de cerca de sessenta e cinco anos, com cabelo grisalho e bigode, Sherek levanta as mãos em um gesto de paz e explica ao velho, "Preciso de ajuda, meu amigo. Estou perdido e com muita fome. Perdi meu cavalo e todos os meus pertences em um acidente. Só preciso de um pouco de ajuda e talvez direções para chegar a Teresville." "Não sei se posso confiar em você, garoto, mas chegue mais perto, vamos ver o que podemos fazer por você," comenta o velho. Uma vez dentro da casa, ele é recebido por uma senhora muito gentil a quem conta sua situação enquanto aceita uma xícara de café quente. Ela lhe oferece duas noites de hospedagem se ele ajudar seu marido a pegar o ladrão que roubou do jardim deles. "Se você quer chegar a Teresville e conseguir algum dinheiro ou provisões, deve ter cuidado porque aquela cidade mudou muito desde a maldição," diz a velha. "Que maldição?" Sherek pergunta, intrigado.
—Você não sabia? Há quatro anos, alguns excursionistas de Ambelón e Osland vieram e trouxeram com eles algumas flores mágicas, e as plantaram nas florestas. —comenta a velha—
—Ah! Acho que as vi. —responde Sherek—
—No começo, ninguém percebeu o poder das flores, mas descobriram que uma velha da cidade de Stela colheu uma de cada uma das que plantaram, e dizem que ela as usou para feitiçaria e invocações. Também há uma história de um lenhador que colheu algumas flores para ajudar seu filho inconsciente, e dizem que elas o ajudaram por alguns anos, mas depois ele as destruiu todas. Elas se tornaram selvagens e mataram toda a pobre família. Além disso, uma doce menina de doze anos estava brincando na floresta com seus amigos e pegou algumas flores, mas no caminho de volta para casa, uma debandada de animais acabou tirando a vida de todos eles. Essas flores são tanto amadas quanto odiadas por muitas pessoas daqui. Nós as evitamos, pois podem causar problemas.
Surpreso, Sherek pergunta, "Você sabe quais são boas?"
"Somente pessoas do Leste as apreciam muito. Eles podem conhecê-las melhor," diz a velha.
"Não se aproxime delas, garoto. Elas vão corromper você como todos os malucos nas cidades que se matam por essas coisas," acrescenta o velho.
"Posso conseguir madeira muito boa com este machado em troca de um pouco de comida para algumas semanas," Sherek lhes diz.
"Eu não deixaria alguém que aparece do nada gritando no meio da floresta ficar na minha casa por tanto tempo, mas você pode ganhar um pouco da minha confiança. Primeiro, você deve me ajudar a encontrar, pegar ou matar o ladrão que frequentemente ronda nosso pomar ao amanhecer e danifica nossas colheitas. Tem sido um verdadeiro pesadelo, e estamos lidando com esse problema há meses. Precisamos de uma mão com esse culpado," comenta o velho.
"Será um prazer ajudar, mas você tem alguma pista sobre esse malfeitor, ou se há mais de um?" Sherek pergunta.
O velho lhe dá uma espingarda, uma lanterna, e diz, "Apenas espere o maldito cara se aproximar dos meus tomates e cuide dele de uma vez por todas."
Ao anoitecer, Sherek se aproxima do pomar e verifica os esconderijos onde o suposto ladrão não o detectaria. Ele encontra alguns sacos e os arranja em fileiras fora do pomar, para que possam escondê-lo. Começa a escurecer, mas a noite toda está calma. No meio da noite, depois de um tempo de vigília, ele percebe que há uma flor branca quase invisível entre alguns tomates.
"Será que um dos velhos mentiu para mim?" Sherek se pergunta.
Várias horas se passam, e ele sente que não pode mais suportar o sono, então vai para a cama com essa dúvida na cabeça. Ele vai dormir no quarto que os velhos lhe designaram, mas ao fechar a porta, ouve algo atrás da casa, como várias pessoas correndo. Ele rapidamente sai com a arma preparada e vê algo que o assusta – uma poça de sangue junto com várias flores destruídas. Ele não reconhece a cor dessas flores, pois poderiam ser brancas manchadas de sangue ou vermelhas. Sherek rapidamente procura um balde para jogar água nelas e dispersar o sangue. Ele joga as flores na floresta, mas ao se aproximar das árvores mais densas, mais longe da casa, vê um homem à distância. Ele usava um capuz e um casaco preto; esse homem se vira para Sherek, o cumprimenta e lentamente se afasta, desaparecendo entre as árvores. Essa situação deixa Sherek um pouco temeroso, mas ele rapidamente se dirige à casa dos velhos, e em uma tentativa fraca de acordá-los, decide que é melhor ir dormir. Com algum medo, ele consegue adormecer.
