Capítulo 1
“Olivia, volte aqui e peça desculpas para a Mia AGORA MESMO, ou acabou entre nós!” Meu noivo, Arthur, berrou ao telefone no corredor do pronto-socorro, o rosto contorcido de nojo.
Meus pais rodeavam a filha adotiva, Mia, preocupados com os olhos vermelhos dela. Tudo esse drama por causa de um arranhão no dedo.
Meu celular estava estilhaçado e sujo de sangue na fábrica química abandonada no centro, a tela tremeluzindo fraquinha.
Eu já estava morta. Os sequestradores tinham quebrado meus membros e me ateado fogo.
Eu pairava acima deles, vendo todos enlouquecerem com as lágrimas falsas da Mia, enquanto amaldiçoavam meu nome e desejavam que eu sumisse para sempre.
Três dias depois, quando a polícia bateu à porta da Mansão Sterling com um anel de noivado carbonizado, eles finalmente conseguiram o que queriam.
Ponto de vista de Olivia
“DOUTOR! Venha aqui! Ela se machucou!”
No pronto-socorro, meu pai, Richard, geralmente tão controlado, estava gritando no balcão da enfermagem.
Mamãe, Elizabeth, apertava a garota contra o peito. “Está tudo bem, querida. A mamãe está aqui com você.”
Meu noivo, Arthur Winston, segurava a mão ilesa da Mia, fuzilando a equipe médica com os olhos.
“Se ficar sequer uma MARCA na mão dela, eu processo este lugar até ele ir à falência!” A voz de Arthur estava mortalmente calma.
O médico do pronto-socorro se apressou e desfez com cuidado o lenço de seda enrolado na mão da Mia. Sob as luzes fortes, todo mundo conseguiu ver a “lesão” claramente.
Um arranhão minúsculo, talvez de uns dois centímetros e meio. Já estava até com casquinha.
“É só uma escoriação leve. Um antisséptico e um curativo resolvem.”
“Você só pode estar de SACANAGEM!” Richard explodiu. “Você tem ideia de quem é essa? Mia Sterling é uma violoncelista de nível mundial! E se deixar cicatriz? E se infeccionar? Eu quero todos os exames que vocês tiverem, e eu quero ela no melhor quarto particular de vocês AGORA!”
Eu flutuava acima deles, assistindo àquele show patético.
Sim, eu estava flutuando. Porque eu estava morta.
Eu sou Olivia Sterling — a filha de verdade que desapareceu quinze anos atrás. Enquanto eu estive fora, eles adotaram a Mia e deram a ela tudo o que deveria ter sido meu.
E agora estavam ali, surtando por causa de um corte de papel.
“Arthur...” A voz da Mia vacilou. “Por favor, não fique bravo com a Olivia. Ela não fez por mal... Ela só estava chateada por causa da festa de noivado. Eu não devia ter usado aquele colar—”
“Para de defender ela!” Arthur a interrompeu, com o rosto duro como pedra. “A Olivia é INSANA, com laudo e tudo. Lixo de rua que não sabe o próprio lugar. Ela sabia muito bem que você tem o Lincoln Center na semana que vem e, mesmo assim, te empurrou naquele vidro!”
“Trazer ela de volta foi o maior erro da minha vida”, Elizabeth murmurou, enxugando os olhos. “Só deu problema desde o primeiro dia.”
As palavras deles me atingiram como água gelada, mas, sinceramente? Eu já não sentia mais nada.
Eis o que aconteceu de verdade: Mia me atraiu até a garagem do estacionamento, dizendo que tinha algumas joias da vovó para me dar. No segundo em que cheguei perto, ela pegou um caco de vidro e cortou o próprio dedo. Aí começou a berrar como se estivessem matando alguém.
Arthur e meus pais vieram correndo. Arthur me deu um tapa de costas tão forte que eu caí no concreto. Minha cabeça estalou contra um pilar, sangue por todo lado.
Alguém checou se eu estava bem? Porra nenhuma. Eles pegaram a preciosa Mia e correram para o hospital.
E me deixaram sangrando no chão daquela garagem.
Quando finalmente consegui me levantar para ir embora, uma van preta encostou. Três caras de máscara me arrastaram para dentro e me levaram até alguma fábrica abandonada na periferia da cidade.
“Ela ainda não atende”, disse Mia, tentando parecer preocupada. Mas eu peguei aquele sorrisinho de canto.
Arthur puxou o celular com um grunhido de nojo. “Provavelmente se escondendo em algum lugar, se fazendo de coitada. Típico.”
Ele ligou para o meu número.
Chamou. Chamou. Chamou.
Sem resposta, óbvio.
O maxilar de Arthur se contraiu quando ele deixou uma mensagem na caixa postal: “Escuta aqui, sua VADIA psicopata. Quero seu rabo aqui embaixo nos próximos trinta minutos pra pedir desculpa pra Mia DE JOELHOS, ou acabou. Tá me ouvindo? ACABOU.”
Enviar.
Enquanto ele disparava aquele sermão, minha mente voltou para aquele galpão.
Eles tinham usado pés de cabra nas minhas pernas até os ossos estalarem como gravetos. O sangue encharcou meu vestido, e um osso branco, irregular, furou a pele.
Meu celular tinha sido chutado para alguns metros de distância. Quando a tela acendeu com a ligação do Arthur, eu tentei me arrastar até ele, deixando um rastro de sangue e unhas arrancadas.
“Socorro... por favor... alguém...”
Bem na hora em que eu quase alcançava, uma bota com biqueira de aço esmagou minha mão. Cinco dedos, quebrados num pisão só.
“Boa tentativa, querida.” O cara ergueu o pé de cabra e desceu com ele no meu crânio.
Tudo ficou preto. A última coisa que eu vi foi eles me ensopando de gasolina.
“O chefe quer tudo limpo. Sem provas.”
Um fósforo riscou e acendeu.
Aquela mensagem que o Arthur acabou de mandar? Está no meu celular ensopado de sangue neste exato momento, a tela rachada, derretendo nas chamas.
“Ela está ignorando a gente de propósito”, disse Richard, com um sorriso de desprezo. “Ótimo. Deixa a pirralha passar fome. Logo, logo ela volta rastejando.”
“Vamos, vamos levar a Mia pra casa.” Elizabeth alisou o cabelo de Mia. “Este lugar é barulhento demais pra ela.”
Eles foram em direção à saída, se juntando ao redor de Mia como guarda-costas.
Alguma força invisível me arrastou atrás deles.
Olhei para minhas mãos transparentes e soltei uma risada amarga.
Voltar rastejando?
Desculpa decepcionar vocês, pai. Mãe. Arthur.
A filha que vocês estão esperando? A noiva que vocês querem ver implorando?
Ela nunca vai voltar.
Nunca.
