Capítulo 2
Ponto de vista de Olivia
“Sumam com toda a porcaria dela!”
A voz de Richard ecoou pelo saguão de entrada da Mansão Sterling.
O Maybach acabara de passar pelos portões, onde uma fila de funcionários esperava para dar as boas-vindas à verdadeira princesa deles — Mia Sterling.
“Cuidado nesses degraus, Mia.” Arthur segurou o cotovelo dela como se ela fosse se quebrar, esquecendo completamente que ela só tinha um band-aid minúsculo.
Elizabeth entrou e imediatamente começou a dar ordens. “Avisem a cozinha para fazer aquela sopa de que a Mia gosta. A pobrezinha passou pelo inferno hoje. E quero aquele quarto do lado sul desocupado.”
O mordomo pareceu confuso. “Senhora, aquele é o quarto da senhorita Olivia. As coisas dela estão todas lá.”
“Então joguem TUDO fora!” Richard atirou o paletó sobre uma cadeira. “Se aquela pirralha quer sair correndo, claramente não dá a mínima pra esta família! Pra que guardar o lixo dela? Só de olhar me dá raiva!”
Eu pairava no alto da escada, vendo as empregadas marcharem para dentro do meu quarto com sacos de lixo.
Aquele quarto era o único lugar desta casa onde eu me sentia segura.
Aos quinze, policiais me arrancaram do conjunto habitacional, das mãos do meu pai adotivo bêbado, e me trouxeram para cá, toda roxa. Eu achei que finalmente tinha encontrado uma família de verdade. Pais que de fato me amariam.
Como eu estava enganada.
No segundo em que eu fiquei de pé naquele saguão usando uma camiseta velha e surrada, Elizabeth me olhou como se eu fosse algo que ela raspasse da sola do sapato. Enquanto isso, Mia — toda produzida com o vestido chique — pulou nos braços de Elizabeth e perguntou: “Mamãe, quem é essa menina suja?”
Ali eu soube que nunca substituiria a Mia aqui.
“Jogamos esses livros fora também?” Uma empregada ergueu minha carta de aceitação em Medicina em Harvard e meus livros.
Eu tinha me matado de estudar para entrar naquele programa. Tudo para deixar Arthur orgulhoso. Para provar que eu pertencia.
Elizabeth mal olhou. “Joga fora! Pra que uma menina precisa de tantos livros? Zero bom gosto. Nada a ver com a nossa Mia.”
“Vamos, esvaziem logo aquele quarto. Amanhã vou ligar para designers para transformar em closet da Mia. Ela tem aquela turnê pela Europa chegando — precisa de espaço para todos aqueles vestidos.”
“Obrigada, mãe!” Mia apertou Elizabeth, aquele sorrisinho presunçoso se formando no rosto. “Mas e se a Olivia voltar e surtar? Eu não quero que ela fique com raiva de mim.”
“Nem pensar!” Arthur puxou Mia para junto de si. “Se ela te der um pio de atrevimento, eu mando a desgraçada de volta para o buraco de onde ela rastejou! Você é boazinha demais, Mia. Meninas como ela devoram meninas doces como você.”
Mia brincou com o colar no pescoço. “Arthur, eu me sinto péssima por causa disso. Ocean’s Tears era para ser da Olivia, da vovó. Eu só queria experimentar, e ela enlouqueceu...”
Ela começou a tirar o colar.
“Nem pense nisso!” Richard agarrou o pulso dela. “Ficou perfeito em você.”
Arthur empurrou as mãos dela para baixo. “É, a vovó falou alguma coisa de ser da Olivia, mas, sinceramente? Em você fica muito melhor. Uma garota fina como você merece coisas bonitas. Olivia não saberia distinguir qualidade de bijuteria.”
Meu peito ficou gelado.
A vovó tinha colocado aquele colar nas minhas mãos no leito de morte. Ela foi a única pessoa nesta casa que realmente me amou. Antes de morrer, Richard e Elizabeth prometeram a ela que me dariam o colar.
Agora estavam deixando a Mia desfilar com ele como se não fosse nada.
“Isso mesmo.” Richard abriu um sorriso para Mia. “É você que representa esta família. Aquela merdinha ingrata... se ela não se arrastar de volta aqui amanhã implorando...”
Ele fez uma pausa. “Vou contar para todo mundo no encontro da família semana que vem que o noivado dela acabou. Não vou deixar uma rata de sarjeta envergonhar o nome Sterling.”
“Mal posso esperar.” Arthur beijou a testa de Mia. “Eu já cansei da Olivia. Aquela encenação de cachorrinho abandonado me dá ânsia. Eu preciso de uma esposa com classe, como a Mia, não de um lixo de rua de quem a gente teve pena.”
Ouvindo-os planejarem a vida sem mim, eu quis rir.
Eu me matei tentando conquistar a atenção do Arthur. A aprovação dos meus pais. Aprendi etiqueta, equitação, me enfiei em vestidos de grife que mal me deixavam respirar.
Eu até me ajoelhei e pedi desculpas quando Mia “sem querer” derramou sopa fervendo nas minhas costas e depois disse que eu a tinha atacado. Ajoelhada ali, com a pele empolando, implorando perdão para os meus pais não surtarem.
Eu pensei que, se eu tentasse com força suficiente, talvez eles me amassem de volta.
Que piada do caralho.
Os funcionários foram rápidos. Em trinta minutos, cinco anos da minha vida foram enfiados em sacos de lixo e levados para os fundos.
Meu quarto ficou vazio. Assim como toda a minha existência patética.
“Não se preocupe em cancelar o noivado, pai.” Eu flutuei bem na frente do rosto frio de Richard, minha voz um sussurro que ele nunca ouviria.
“Sua filha já foi embora.”
