Capítulo 5

Ponto de vista de Nate

De repente, ele coloca as duas mãos na porta do armário, e eu estremeço sem querer. Ele dá um passo à frente, me encurralando entre os braços cheios de veias, com minhas costas pressionadas com força contra o armário. Ele está a centímetros de mim.

Ele me encara com aqueles lindos orbes castanhos. Mas aqueles olhos castanho-escuros familiares, que eu amava tanto, estão frios e duros. “Por que você estava me encarando?”, ele pergunta com a voz rouca.

Sinto que a voz dele também soa parecida com a de Alex. De repente, fico atordoado. Abro a boca para dizer alguma coisa, mas nenhum som sai dela.

Eu me encolho e estremeço quando ele tira uma das mãos da porta do armário só para batê-la com força contra o metal, produzindo um alto clang. “Por que você estava me encarando?”, ele rosna de novo perto do meu ouvido, mandando arrepios pelo meu corpo.

“E-eu... eu d-desculpa”, consigo gaguejar de algum jeito.

A garota ao lado dele de repente cai na gargalhada. “Caramba!... ele é um nerd. Olha só ele tremendo e gaguejando que nem um gatinho”, ela ri, segurando a barriga.

Então ela para de rir de repente e lança um olhar furioso para mim. “Sua nerd desgraçada, não ouviu a pergunta dele? Por que você estava olhando pra ele?”, ela pergunta. Percebo que já me meti com as pessoas erradas.

Não consigo dizer uma palavra por causa do medo e do nervosismo. Olhar para aquele par de olhos castanhos à minha frente não ajuda em nada.

As memórias voltam voando para minha mente e me atingem em cheio. Eu quero abraçar a pessoa parada na minha frente. Será que eu faço isso? Não, não posso. Ele não é Alex. Ele é outra pessoa, um estranho, um valentão.

O garoto encara fundo nos meus olhos, sem emoção alguma, o que me faz pensar no corpo ensanguentado e sem vida de Alex, que vi no hospital naquele dia, três anos atrás; os olhos dele estavam bem abertos, mas sem vida e sem emoção nenhuma. Eu me lembro de mim aos quinze anos, chorando alto, abraçado ao corpo sem vida de Alex, implorando para ele acordar.

As lágrimas se acumulam nos meus olhos enquanto encaro os olhos do garoto de volta.

“Ah! Ele já está chorando?”, o garoto à direita dele ri. “Que perdedor patético!”

“Qual foi, Ethan, ensina uma bela lição pra ele, pra nunca mais ficar te encarando”, a garota rosna, impaciente.

“E-eu... d-desculpa”, consigo dizer, quebrando o contato visual e olhando para o chão. “E-eu não vou olhar pra você d-de novo”, murmuro, à beira das lágrimas.

Não é como se eu ficasse assim toda vez que alguém mexe comigo. Mas a pessoa parada na minha frente se parece com o meu irmão morto, e meu mar infinito de memórias com ele está me atingindo agora.

“Isso... seu gay nojento! Você não vai olhar pra ele de novo. Anda, ensina uma lição pra ele, Ethan”, o outro garoto debocha.

“E-eu... não sou g-gay”, digo. Eu não sou gay. Não posso ser chamado de gay. Já tenho um monte de apelidos, como “nerd” e “garoto gagago”. Não aguento “gay” também.

Ethan agarra meu queixo com brutalidade e me obriga a olhar para ele de novo. “Então por que você estava me encarando?”, ele pergunta. Eu não respondo. Fico cada vez mais nervoso a cada segundo que passa.

“Por que você ficou olhando pra ele mesmo depois de eu ter te fuzilado com o olhar? Você ficou encarando ele a aula inteira”, a garota zomba, olhando para mim com nojo nos olhos. “Ethan! Por que diabos você ainda não fez nada com esse nerd gay raquítico?”

— Ethan, por que você não dá um beijinho nele e vê se ele é gay ou não? Aposto que ele ia te beijar de volta, faminto — diz o outro cara.

Fico de boca aberta, em choque. Isso não pode estar acontecendo.

— Cala a boca, Kevin! — rosna a garota. — O Ethan não vai beijar ele.

Ethan aperta minha mandíbula com mais força.

— P-por favor… m-me… deixa… Eu n-não… eu não vou… eu não vou olhar p-pra você de n-novo — digo, e um tapa violento acerta minha bochecha esquerda, fazendo minha boca se abrir, e minha mão subir involuntariamente, cobrindo o rosto.

Uma lágrima escorre pelo canto do meu olho e cai no piso de azulejo abaixo de nós, enquanto encaro aqueles olhos castanhos. Alex nunca me daria um tapa. Ele nunca me machucaria.

Abaixo a cabeça e aperto os olhos, mordendo o lábio de baixo para controlar os soluços. Eu não devia estar chorando. Eu não posso chorar.

Mas as lágrimas só aumentam, descendo pelas minhas bochechas. Tudo em que consigo pensar é no Alex. Em como ele costumava me proteger de todos aqueles valentões.

Não sei como lidar com a situação. Não sei o que eles vão fazer comigo. Não sei como escapar. Meu corpo inteiro está dormente.

— Assustado que nem um gatinho? — Ethan ri, pegando meu queixo de novo com o indicador, desta vez com delicadeza. Mas eu não abro os olhos. Não quero ver aquela cara de novo depois do tapa.

— Aquilo não foi o bastante. Dá mais nele — ouço a garota dizer, rindo.

Meu coração bate ainda mais rápido. Sinto que vou desabar.

— Chega, Amelia. Ele não sabia da gente — diz Ethan. — Acho que você é novo aqui. Não é?

Eu balanço a cabeça com vigor, sem querer apanhar, ainda com os olhos bem fechados.

— Mas… — protesta Amelia.

— Shh… eu vou resolver isso — diz Ethan. — Abre os olhos.

Eu me encolho com a ordem. Abro os olhos devagar e olho para ele de novo.

— Qual é o seu nome? — ele pergunta.

Abro a boca.

— M… Mi… — começo, mas não consigo dizer meu nome. De novo, as lágrimas escorrem livres e impotentes pelas minhas bochechas. Eu nem consigo dizer meu nome. Que perdedor patético eu sou. Minha respiração fica pesada e eu soluço, incapaz de pronunciar meu nome. Ethan me encara, confuso.

— Que Mi… Mi o quê? — Kevin zomba.

— Mi… mi… — tento de novo, mas só sai ar depois do “Mi”. Por fim, decido tentar “Nate”. Puxo um fôlego, enquanto Ethan ainda me olha, confuso. — N… Nate — consigo dizer.

— Nate? Então por que você começou falando Mi… Mi? — Amelia franze as sobrancelhas.

— Deixa pra lá, gente. Talvez ele tenha ficado tão assustado que esqueceu o próprio nome — diz Ethan, olhando para Amelia, que responde com uma risada histérica.

— Tá. Você não vai olhar pra mim de novo, certo? — ele pergunta, voltando a me encarar e dando um passo para trás, tirando as mãos da porta do armário.

Eu assinto depressa.

— Tá, vai — ele diz.

Eu começo a me mover, mas o outro cara me bloqueia.

— Ei… você vai deixar ele ir assim? — ele pergunta a Ethan.

— Só deixa ele, Kevin. Eu tô com fome. Vamos almoçar — diz Ethan, soltando um suspiro.

— Hm… tá — Kevin concorda com a cabeça. — Não pense que você escapou. A gente te pega depois.

Ele me lança um olhar ameaçador. Eu saio correndo assim que ele tira a mão do meu caminho.

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