Capítulo 1 O verão de Copacabana
O ar-condicionado do hotel de luxo, embora potente, parecia não dar conta do calor de fevereiro. Eu estava atrás do balcão há horas, com os pés latejando e a paciência por um fio. Dona Célia, minha supervisora, circulava por perto como um abutre, pronta para dar o bote em qualquer falha.
— Antonella, se liga! — ela disparou, batendo a pasta no balcão. — O hóspede do 402 reclamou de novo. Se continuar com essa cara de sono, vai procurar outra ocupação. Isso aqui é um cinco estrelas, não uma pensão!
Eu engoli seco, forçando um sorriso profissional, embora estivesse exausta. Foi então que o movimento no saguão mudou. O burburinho cessou quando um homem atravessou a entrada. Ele exalava um poder frio, seus ombros largos preenchendo o paletó escuro. Ele não caminhava como os outros; ele ocupava o espaço.
Para minha surpresa, ele ignorou a fila de hóspedes e caminhou direto até mim.
— Você parece deslocada aqui atrás — ele disse, com uma voz baixa e magnética. — É uma cidade grande demais para alguém com olhos tão inquietos.
— É apenas o meu trabalho — respondi, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos tremessem.
Ele se inclinou, e o perfume dele — uma mistura de sândalo e algo que eu não soube definir — invadiu meu espaço. Conversamos por alguns minutos. Ele não foi invasivo, mas sim incrivelmente perspicaz. Falamos sobre o Rio e sobre o quanto aquele ambiente de luxo era artificial. A forma como ele me olhava, como se eu fosse a única pessoa real naquele salão, me fez esquecer a existência da Dona Célia e o cansaço que me consumia. Ele tinha um charme perigoso, uma forma de falar que me prendia a cada sílaba.
Ele não me pediu nada, apenas se despediu com um sorriso de canto que prometia mais.
No dia seguinte, ao chegar para o turno, fui recebida por um buquê imenso de orquídeas raras sobre o balcão. O perfume era inebriante. Dona Célia parou ao meu lado, arqueando a sobrancelha com um desdém nítido.
— Ora, ora... flores no balcão de serviço? Já avisei que aqui não é lugar de romance. Se isso for presente de algum hóspede carente, trate de jogar fora. Regras são regras, Antonella. Não quero confusão.
Eu fiquei paralisada. Quem teria coragem de algo tão ousado? Não havia cartão. O mistério começou a me consumir, e o dia pareceu se arrastar.
Quase no fim do expediente, o saguão silenciou novamente. Ele apareceu, atravessando o mármore com elegância, e parou diante de mim.
— Gostou das flores, Antonella? — ele perguntou, a voz carregada de uma segurança que me desarmou.
— Foi você? — eu perguntei, sentindo o rosto ferver. — Por que fez isso? E... como sabe o meu nome?
Ele deu um sorriso de lado, misterioso e impenetrável.
— Eu sei tudo o que preciso saber sobre as pessoas que me interessam. E você, Antonella, é alguém que vale a pena admirar.
Ele não disse o nome dele, e eu, hipnotizada pela autoridade que ele emanava, não tive coragem de pressionar. Naquela noite, a conexão foi inevitável. Ele me convidou para o restaurante do hotel e, dali, a realidade desmoronou. Subimos para a suíte e, assim que a porta se fechou, ele não perdeu tempo.
A química era um incêndio. Ele me prensou contra a madeira sólida, e o beijo foi uma reivindicação, uma fome que eu nem sabia que ele possuía. Suas mãos grandes e possessivas exploravam cada curva do meu corpo, desfazendo o meu uniforme com uma urgência que me fazia tremer. Era uma entrega absoluta; ele me dominava com uma precisão que me tirava o fôlego, alternando entre movimentos lentos e torturantes que me faziam implorar por mais, e investidas profundas que me levavam ao limite do prazer.
Foram três dias de uma intensidade avassaladora. Éramos apenas dois corpos famintos um pelo outro, perdidos em um ciclo vicioso de luxúria e entrega, onde ele me explorava como se eu fosse o seu tesouro mais precioso. Eu estava tão enfeitiçada, tão mergulhada naquele delírio de prazer, que esqueci da rotina, do alarme para o anticoncepcional e das broncas de Dona Célia. Eu só queria ser dele.
Na manhã do quarto dia, o lado da cama estava vazio. Ele partiu sem deixar um nome, sem deixar um sobrenome, apenas a lembrança de um homem que me deu o paraíso e desapareceu. E, semanas depois, quando os enjoos vieram e o teste deu positivo, eu percebi que o mistério era muito maior do que eu imaginava. Eu estava grávida de um desconhecido que eu nem sabia como encontrar.
