Capítulo 2 O peso do segredo

Já se passavam quase três semanas desde que ele partiu, e a notícia do teste positivo que eu mesma fiz em casa, trancada no banheiro, ainda queimava na minha mente como brasas. A demissão, porém, foi um golpe que veio antes de eu ter coragem de encarar minha mãe. Naquele dia, movida pelo desespero de carregar o filho de um homem que eu mal conhecia, tomei uma decisão: voltei ao hotel. Talvez, se eu estivesse lá, se sentisse o perfume dele nos corredores, eu encontrasse alguma pista que me salvasse.

Ao atravessar o saguão, porém, a atmosfera não era de boas-vindas. Quando me aproximei do balcão, o baque foi imediato: outra pessoa ocupava o meu lugar. Dona Célia, com seu desdém habitual, surgiu das sombras do escritório. Ao me ver, ela não demonstrou surpresa, apenas um desprezo cortante.

— Antonella? — ela arqueou a sobrancelha, cruzando os braços. — Você tem uma coragem admirável, eu preciso admitir. Chegar aqui com essa cara de quem passou o tempo longe numa festa de arromba e exigir seu lugar?

— Dona Célia, eu... eu tive um problema pessoal grave. Eu sinto muito, eu... — comecei, gaguejando. Eu precisava saber se ele ainda existia, se o nome dele estava em algum registro.

— Você não precisa explicar nada. A sua ausência foi o suficiente — ela disparou. — No segundo dia de falta sem justificativa, seu contrato foi rescindido por abandono de emprego. Suas coisas estão na caixa, na portaria. Não perca meu tempo. Isso aqui é um cinco estrelas, não um abrigo para gente irresponsável.

Aquelas palavras soaram como uma sentença. Com o peso do mundo desabando sobre meus ombros, peguei minha caixa e saí para o calor sufocante de Copacabana. A sensação de vazio não era apenas pelo emprego; era a confirmação de que eu tinha jogado tudo fora por um estranho.

Ao chegar em casa, o mal-estar físico — que eu tentava ignorar desde que o teste dera positivo — piorou drasticamente. Minha mãe, Irene, que me esperava com uma lista de cobranças na ponta da língua, percebeu a minha palidez.

— O que houve? Você parece um cadáver, Antonella! E por que está chegando com uma caixa de pertences a essa hora? Você perdeu o juízo?

— Eu fui demitida, mãe — murmurei, sentindo uma tontura avassaladora. — Eu... eu não estou me sentindo bem.

Tentei caminhar até o sofá, mas o chão subiu ao meu encontro. O ar faltou e a escuridão me engoliu. Quando abri os olhos, o cheiro de antisséptico era forte. Eu estava em uma maca, em uma sala de observação. Um médico de meia-idade entrou logo depois, consultando uma prancheta.

— Parabéns, mamãe — ele disse, com uma naturalidade que atingiu meus ouvidos como um tiro. — Os exames de sangue confirmaram. Você está grávida, de aproximadamente seis semanas.

O silêncio na sala foi absoluto. Minha mãe deu um passo para trás, o choque estampado no rosto, sua mão subindo até a boca para abafar um suspiro de descrença.

— Como assim, grávida? — a voz dela subiu vários tons, rompendo a calma da enfermaria. — Doutor, o senhor deve estar enganado. Antonella, que palhaçada é essa?

— Mãe, por favor... — sussurrei, tentando me levantar.

— Não me venha com "por favor"! Você é uma recepcionista! Mora comigo, trabalha feito uma condenada para pagar as contas... Onde, exatamente, você arrumou um homem para engravidar você? Quem é esse sujeito?

Saímos do hospital sob o bombardeio de perguntas. Ao chegarmos em casa, a briga não deu trégua. Ela me encurralou na cozinha, jogando as chaves na mesa com força.

— Você vai falar agora. Eu quero o nome, o endereço, eu quero saber quem é o desgraçado que destruiu a sua vida! Ele sabe que você está grávida? Ele vai assumir?

Meu coração disparou. Eu não podia dizer a ela que eu não sabia nem o sobrenome do homem. O pânico de ser julgada como uma mulher leviana era insuportável.

— Ele... ele sabe sim, mãe — menti, forçando a voz a soar firme, embora minhas mãos estivessem geladas. — Mas nós ainda estamos decidindo como contar para a família. Ele é um homem de negócios, muito ocupado, muito reservado, e estamos passando por um momento delicado.

— Um homem de negócios? — minha mãe arqueou a sobrancelha, analisando cada detalhe do meu rosto. — E por que você está aqui, desempregada e passando mal, se esse homem é tão importante? Por que você não tem nem onde cair morta?

— Ele é uma pessoa direita, mãe! — insisti, sentindo o nó na garganta. — Eu só... eu ainda não sei como te explicar tudo. Estou com medo da pressão. É tudo muito novo.

— Você está escondendo alguma coisa, Antonella — ela deu um passo à frente. — Se ele é essa pessoa "direita", por que você parece uma fugitiva? Quem é esse homem? Qual é o nome dele?

Eu prendi a respiração. Eu sentia como se estivesse em uma corda bamba.

— Eu não posso falar agora, mãe. Por favor, eu preciso de tempo. É uma questão de segurança dele.

— Tempo? — ela riu, um som amargo. — Você não tem tempo! Você tem um bebê a caminho e não tem um tostão no bolso. Você vai me dar o nome desse sujeito ou eu mesma vou descobrir quem é. Não me obrigue a ir atrás de respostas sozinha.

A noite caiu sobre nós duas. Assim que ela se retirou para o quarto, exausta, eu me sentei no escuro da sala. A mentira era um fardo pesado, um monstro que eu tinha criado. Eu não podia mais ficar parada. Se eu não encontrasse aquele homem, minha mãe descobriria a farsa. E, se ela descobrisse, a decepção dela seria a minha ruína.

Olhei para a tela do meu celular. Eu precisava me tornar uma investigadora da minha própria tragédia. Fui até o espelho. Minha pele estava opaca, meus olhos tinham olheiras profundas, mas havia um brilho novo: o brilho do desespero misturado com uma determinação fria. Eu precisaria voltar àquele hotel, não como uma ex-funcionária, mas como alguém que conhece os segredos daquelas paredes. Eu vasculharia cada registro, cada lista de hóspedes, cada folha que pudesse me levar ao nome daquele desconhecido.

"Quem é você?", sussurrei para o silêncio, encarando meu reflexo. Eu mentiria para quem fosse preciso, até que a verdade — ou a minha salvação — estivesse diante de mim. O jogo tinha mudado, e agora, eu estava jogando pela minha vida e pela do meu filho. A jornada para encontrar o pai do meu filho estava apenas começando.

O ar da noite de Copacabana entrava pela janela, trazendo o cheiro de maresia e a promessa de tempestade. Eu fechei os olhos e, por um breve momento, senti o perfume dele novamente — sândalo e algo inebriante. Era a minha bússola. Era a minha maldição. E eu estava pronta para seguir esse rastro até o fim do mundo. O segredo estava lá fora, trancado em algum registro de hóspedes, e eu seria a pessoa a libertar a verdade. Minha vida nunca mais seria a mesma, e, enquanto o bebê crescia dentro de mim, eu sabia que a caçada acabara de começar.

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