Capítulo 3 A assinatura de um fantasma

O ar no apartamento de Copacabana parecia ter se tornado rarefeito, como se as paredes estivessem se fechando em um abraço sufocante. Desde que voltamos do hospital, o silêncio entre mim e minha mãe, Irene, não era de trégua; era uma armadilha. Cada passo dela pelo corredor, cada respiração audível enquanto ela lavava a louça, carregava um peso de julgamento que me fazia querer desaparecer.

A cozinha, antes o centro da nossa casa, transformara-se em um tribunal.

— Eu não criei você para ser essa irresponsável, Antonella! — minha mãe disparou, virando-se bruscamente enquanto eu tentava, inutilmente, beber um copo de água que não me causasse náuseas. — Olhe para você! Demitida, doente, e agora grávida de um homem que nem sequer teve a decência de aparecer para dar as caras. Se esse sujeito não aparecer em dois dias para assumir as responsabilidades dele, você vai colocar suas coisas na calçada. Eu não vou sustentar uma criança fruto de uma aventura inconsequente!

— Você não entende, mãe! — gritei, sentindo o coração martelar nas têmporas, um zumbido agudo invadindo meus ouvidos. — Ele é um homem influente, tem compromissos... ele não é um qualquer que pode simplesmente largar tudo para vir aqui!

— Influente? — ela riu, um som seco, desprovido de qualquer empatia, que cortou o ar com crueldade. — Se ele fosse influente, você não estaria aqui, aos prantos, sem emprego e sem um tostão. Ou você me dá um nome agora, um endereço, uma prova de que esse homem existe, ou pode começar a fazer as malas. Eu não quero uma filha que vive de ilusões e não quer uma desconhecida vivendo sob o meu teto! Você me envergonha, Antonella!

A ameaça dela caiu sobre mim como um golpe físico. A ideia de ser despejada, grávida e sem recursos em uma cidade tão cruel quanto o Rio de Janeiro, era mais do que minha mente podia processar. O medo, somado ao mal-estar da gravidez, provocou uma tontura avassaladora. O chão pareceu oscilar como um convés de navio em meio a uma tempestade.

Eu me segurei na bancada, sentindo um suor frio escorrer pelas costas, encharcando minha blusa. Minha visão começou a escurecer nas bordas, e o mundo ao redor se tornou um borrão de cores distorcidas.

— Mãe, para... por favor... — tentei dizer, mas minha voz não passava de um sussurro rouco. Minhas pernas cederam, uma fraqueza que eu não conseguia controlar.

— Não venha com teatro agora, Antonella! Eu não caio mais nessas suas manobras! — ela gritou, mas ao me ver pálida como um espectro, segurando o ventre com força, o tom dela oscilou entre a raiva e o pânico real. Ela deu um passo à frente, hesitante, mas a mágoa que eu sentia pela desconfiança dela era mais forte do que a vontade de ser amparada.

Consegui me arrastar até o quarto e fechei a porta, girando a chave com as mãos trêmulas. O silêncio do cômodo era o meu único refúgio. O desespero, em vez de me paralisar, transformou-se em um combustível ácido. Eu precisava de algo concreto. Eu precisava de um nome.

Fechei os olhos, forçando minha memória a buscar qualquer detalhe, qualquer migalha que tivesse escapado daquele tempo na suíte. O perfume. Aquele rastro amadeirado, inebriante, sofisticado, que parecia ter ficado impregnado não apenas nos lençóis, mas na minha própria pele por dias. Não era um perfume comum, daqueles que se compra em qualquer drogaria ou loja de shopping; era algo raro, complexo, caríssimo. Tinha notas de sândalo profundo, um toque de cedro terroso e uma base de âmbar que eu nunca tinha sentido antes.

Liguei o meu notebook, uma máquina velha que fazia um barulho ensurdecedor de ventoinha. A tela iluminou meu rosto pálido no quarto escuro. "Perfumes amadeirados de luxo para homens", digitei, as teclas soando como tiros no silêncio da casa.

Passei horas cruzando informações. Minha pesquisa era metódica, quase maníaca. Eu anotava tudo num caderno gasto: Creed, Tom Ford, Jo Malone, marcas de nicho exclusivas, casas perfumistas francesas. Eu abria abas e mais abas, comparando notas olfativas. Eu estava procurando a assinatura de um homem que viaja entre suítes presidenciais e reuniões de alto nível.

A cada marca, eu pesquisava onde elas eram vendidas no Rio de Janeiro. Eu precisava saber quem seria o tipo de homem que usaria uma fragrância que custava o preço do meu aluguel mensal. O pensamento de que ele poderia ser um cliente regular, alguém que os funcionários das lojas de luxo do Leblon ou de Ipanema conhecessem pelo nome, fazia meu coração acelerar.

Minha cabeça latejava. A náusea voltava a cada cinco minutos, mas eu a ignorava. Eu anotava nomes de lojas: "Boutique de Luxo", "Perfumes de Nicho". Quais dessas casas teriam representantes ou lojas no Rio? Quem seriam os clientes fiéis?

À medida que os nomes das fragrâncias apareciam, eu me sentia mais próxima, mas também profundamente assustada. Se ele era alguém que consumia produtos tão seletos, ele não era apenas um "homem de negócios". Ele era alguém de outro patamar social, um mundo que eu só conhecia através das janelas dos quartos de hotel que limpava ou das pessoas que recepcionava no balcão.

"Eu vou te achar", sussurrei para a tela, enquanto a náusea me atingia novamente, forçando-me a inclinar a cabeça. Eu tinha que ser rápida. Minha mãe não esperaria muito mais tempo, e o bebê que crescia dentro de mim não me daria o luxo de um erro. Eu começaria pelas lojas exclusivas, fingindo ser uma compradora, ou talvez alguém interessada em uma nota fiscal esquecida, qualquer rastro documental.

A investigação me tomou a madrugada inteira. O sol começou a filtrar pelas frestas da persiana, revelando a poeira dançando no ar do quarto. Meus olhos ardiam de tanto tempo diante da luz azul do monitor. Eu tinha montado uma lista. Três lojas de elite em Ipanema e no Centro do Rio que trabalhavam exclusivamente com fragrâncias de nicho, aquelas que não são encontradas em prateleiras comuns.

Eu não sabia o rosto de todos os homens do mundo, mas no mundo da elite carioca, os grandes empresários eram figuras que apareciam em colunas sociais e revistas de negócios. Eu comecei a pesquisar o nome dessas boutiques e o perfil dos seus clientes recorrentes, tentando encontrar fotos, eventos, qualquer coisa.

Senti um calafrio na espinha. E se ele estivesse me escondendo o nome por um motivo? E se ele fosse casado? A possibilidade me atingiu como um soco. Eu me entreguei a um estranho sem nem me perguntar se ele tinha uma vida lá fora, uma família, uma esposa. A culpa começou a se misturar com o desespero. Mas não havia como voltar atrás. Eu já estava ligada a ele por um fio invisível e inquebrável: o filho que eu carregava.

Minha mãe bateu na porta. O barulho foi seco, autoritário.

— Antonella! Já é tarde. Eu não vou aceitar que você fique se escondendo neste quarto o dia todo. Saia daí e vá resolver sua vida! Eu não sou sua empregada!

— Estou indo, mãe! — respondi, tentando manter a voz firme, embora estivesse tremendo de exaustão.

Guardei o caderno debaixo do colchão. Eu tinha um plano. Eu não sabia o nome dele, mas agora, eu sabia como ele cheirava. E, no mundo dos negócios de elite, o perfume era uma assinatura que ele, invariavelmente, deixaria para trás. Ele não era um fantasma, por mais que tentasse ser. Ele era um homem, e homens cometem erros. Eles deixam rastros.

Levantei-me, o corpo pesado e dolorido. Olhei-me no espelho uma última vez. A Antonella que trabalhava na recepção do hotel tinha morrido há três dias. A mulher que olhava de volta para mim agora tinha um olhar diferente, mais duro, mais resiliente. Eu não ia apenas encontrar o pai do meu filho; eu ia confrontar o meu destino.

Saí do quarto e encontrei minha mãe na sala. Ela não olhou para mim, mas o clima era de uma guerra fria prestes a explodir. Ela cruzou os braços e me encarou com os olhos injetados de raiva.

— Então? O que você vai fazer? — ela perguntou, com um tom de quem já esperava o fracasso.

— Vou sair — respondi, pegando minha bolsa. — Vou atrás do que é meu. E você não precisa se preocupar, mãe. Em breve, você saberá quem é o pai do seu neto. Mas não espere que eu peça desculpas por ter vivido.

Ela ficou em silêncio, chocada com a firmeza na minha voz. Saí de casa sem esperar uma resposta. O ar da manhã no Rio de Janeiro estava fresco, e a luz do sol batia forte sobre as pedras de Copacabana. Eu caminhei em direção ao metrô, sentindo o peso do caderno na bolsa. O rastro do perfume de sândalo parecia me guiar, uma bússola invisível em meio à multidão barulhenta da cidade. Eu não sabia exatamente o que encontraria na primeira loja da minha lista, mas sabia que, se ele estivesse em algum lugar, eu o encontraria pelo cheiro de luxo e poder que ele deixava em seu caminho. A caçada tinha acabado de começar, e eu estava pronta para enfrentar qualquer um — até mesmo o homem que eu achava que amava.

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