Capítulo 4 A Caçada

O sol de Ipanema estava de rachar, batendo forte no asfalto e fazendo aquele calorão que a gente conhece. Eu caminhava pela calçada sentindo meu corpo pesado, como se tivesse carregando o mundo nas costas. A gravidez, que estava começando a me deixar enjoada, somada ao desespero de ter que resolver minha vida, me deixava morta de cansaço. Mas eu não podia parar.

A terceira loja que eu botei na minha lista não era de bobeira. Era uma perfumaria chique, daquelas que a vitrine é toda limpa e a gente até fica com vergonha de entrar. O nome da loja estava lá, em letras de ouro, me encarando. Parei um pouco, ajeitei minha bolsa e dei uma conferida no meu caderno. Eu não tinha dormido nada na noite passada, passei a madrugada inteira pesquisando sobre o cheiro daquele homem.

Eu já tinha sido chutada de dois lugares naquele dia. No primeiro, o vendedor nem quis saber do que eu estava falando e já foi logo me mandando vazar. O segundo foi pior ainda, deu risada da minha cara quando eu tentei explicar o cheiro do perfume. Mas aquele terceiro lugar... aquele ali tinha o cheiro dele. Eu sentia de longe.

Quando eu abri a porta, o ar-condicionado gelado bateu no meu rosto. E lá estava: o perfume dele. Aquele cheiro de madeira, aquele sândalo que eu conhecia melhor do que ninguém. Meus joelhos até bambearam. Eu estava no lugar certo.

A vendedora, uma mulher com uma cara de poucos amigos e um coque que não soltava um fio de cabelo, veio na minha direção. Ela não andava, parecia que flutuava pelo chão de mármore.

— Pois não? — ela perguntou, com aquela voz de quem estava fazendo um favor. Olhou para a minha roupa simples, viu minha cara de cansaço e já me mediu inteirinha, percebendo que eu não era cliente de levar nada dali.

— Eu estou atrás de um perfume — eu falei, tentando não deixar minha voz tremer. — É um perfume raro, que cheira a madeira. Sei que vocês vendem.

Ela deu um sorrisinho de lado, aquele tédio de quem só atende gente rica.

— A gente não adivinha nada, querida. Se você não tem o nome da marca ou o código, não posso fazer nada.

— Não é brincadeira! — minha paciência foi embora. — Eu preciso saber quem compra esse perfume. Eu só quero saber se um homem importante passou aqui esses dias.

Ela virou as costas na hora.

— Olha, não dou informação de cliente. Vaza, ou vou ter que chamar o segurança.

Saí dali me sentindo um lixo. Fiquei observando. Tinha um segurança na porta e um manobrista ali perto. O manobrista era a minha chance. Quando o movimento deu uma acalmada, cheguei nele.

— Trabalha aqui faz tempo? — perguntei, com um papo bem manso.

— Um bocado. Por quê?

— É que eu sou funcionária de um cliente que esqueceu uma papelada importante. Ele usa um perfume muito forte. Você lembra de alguém assim?

Abri a bolsa, peguei a nota de cinquenta reais que eu tinha guardado e botei na mão dele.

— Teve um cara na terça. Carro importado, preto, vidro escuro. Ele não entrou, mandou o motorista buscar uma encomenda. Mas, na semana anterior, ele veio pessoalmente. Usava um relógio de ouro enorme. Ele deixou cair um cartão, mas o segurança pegou.

Fui atrás do segurança. Quando ele saiu, perguntei do cartão.

— Ah, o cartão? — o segurança deu de ombros, nem me olhando direito. — Tinha um nome lá, sim, mas eu nem li. Joguei fora no lixo da calçada há uns três dias. Com a chuva que deu, deve ter virado papel picado.

Meu sangue gelou. Corri para o lixo da rua, revirei tudo, enfiei a mão na sujeira até não poder mais. Achei uns papéis, uns panfletos, mas nada de cartão. Tudo estava destruído, virado em uma massa de papel úmido e sujo. Procurei pelo nome, pelo símbolo da empresa, qualquer coisa... mas não sobrou nada. O lixeiro já tinha passado e levado o resto.

Eu caí sentada na calçada, sem acreditar. O nome, a empresa, a pista de ouro... tudo tinha ido embora pelo ralo, literalmente. O segurança nem sabia o nome do cara, para ele era só mais um "doutor" qualquer. Eu senti uma raiva tão grande que quase não conseguia respirar.

Voltei para casa arrasada. Sentei no escuro do quarto, com as mãos ainda sujas de fuligem. Eu não tinha nome, não tinha empresa, não tinha nada. Só tinha a certeza de que aquele homem existia e que ele era rico o suficiente para ser invisível para gente como eu.

Mas, enquanto eu olhava para as minhas mãos trêmulas, uma raiva começou a subir. Ele não ia escapar. Se ele não deixou rastro aqui, eu ia ter que criar um. Eu ia voltar para aquele hotel, eu ia ser contratada de novo, eu ia achar o registro de quem esteve naquela suíte, nem que eu tivesse que quebrar o sistema.

A caçada tinha mudado de rumo. Eu não tinha mais o cartão, mas tinha algo mais forte: a certeza de que ele era de carne e osso. E, se ele era de carne e osso, uma hora ele ia ter que dar as caras. Limpei as mãos na calça e suspirei fundo, olhando para o meu reflexo no espelho do guarda-roupa. A Antonella que se lamentava morreu ali mesmo, naquele quarto. A que ia fazer de tudo para descobrir quem era o pai do seu filho tinha acabado de nascer. E eu não ia descansar até ver a cara dele de novo.

— Pode esperar — sussurrei para o escuro. — Eu vou te achar.

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