Capítulo 5 O plano de retorno

A raiva que eu sentia era o único combustível que me mantinha de pé. Depois de vasculhar aquele lixo atrás da perfumaria e não encontrar nada além de papel molhado e sujeira, eu percebi que o destino não ia me dar o nome dele de bandeja. Eu teria que arrancar essa informação.

Cheguei em casa, tranquei a porta do meu quarto e joguei a bolsa num canto. Meus dedos ainda tremiam. Eu estava com quase dois meses de gravidez e o enjoo, que vinha e ia como uma onda, me dava uma tontura chata, mas eu forcei minha mente a focar. Se o cartão tinha virado lixo, eu precisava de outra porta de entrada. E só existia um lugar onde aquele homem tinha deixado a única prova de que ele existia: o hotel.

O hotel era o lugar onde eu tinha sido demitida, onde a Dona Célia tinha cuspido ordens em cima de mim e onde, finalmente, eu tinha conhecido o homem que agora era o pai do meu filho. Eu não podia voltar lá como funcionária, muito menos bater na porta principal. Eu precisava de um elo.

Lembrei da Bia. A Bia era do turno da noite, uma menina que sempre foi do meu grupo, mas que vivia com medo da própria sombra. Ela ainda trabalhava lá. Era a única pessoa que eu ainda tinha contato naquela carcaça de luxo.

Peguei o celular e digitei uma mensagem rápida, sem muitos detalhes, pedindo um encontro. O coração disparou quando ela respondeu minutos depois. Combinamos um café perto do hotel, num horário em que o movimento era baixo.

No dia marcado, a ansiedade me consumia. Eu vesti uma roupa qualquer, tentando não parecer a Antonella de sempre. Eu não podia ser reconhecida por nenhum segurança ou cliente antigo. A barriga ainda não aparecia, o que era um alívio, mas a minha cara de exausta me denunciava.

Fiquei esperando no canto do café, de costas para a entrada, monitorando a rua pelo reflexo da vitrine. Quando vi a Bia atravessar a rua, senti um nó na garganta. Ela ainda usava o uniforme do hotel, o mesmo que eu usei por tanto tempo. Ela entrou no café, olhando para os lados, nervosa, exatamente como eu esperava.

— Antonella? — ela sussurrou, sentando na minha frente e pegando o cardápio para cobrir o rosto. — Você está maluca? Se a Dona Célia te vê aqui, ela surta. Ela ainda fala que você abandonou o cargo, que você foi uma irresponsável.

— Eu não dou a mínima para o que a Célia pensa, Bia — eu respondi, olhando firme nos olhos dela. — Eu preciso da sua ajuda. Você é a única pessoa em quem eu posso confiar naquele lugar.

— Ajuda com o quê? Você sumiu, ninguém mais soube de você. O que aconteceu naquele dia? Você não deu nem tchau.

Eu tomei um gole de água, tentando controlar a minha respiração.

— Bia, eu não posso explicar tudo agora, mas eu estou em uma situação que não tem volta. Sabe aquele hóspede da suíte 502? Aquele que causou aquele alvoroço todo? Eu preciso saber quem ele era. O registro de entrada, o nome, qualquer coisa que tenha ficado no sistema.

A Bia paralisou. O barulho do café pareceu sumir. Ela olhou para os lados, como se as paredes pudessem ouvir.

— Você enlouqueceu? Aquele hóspede? A Célia bloqueou tudo, Antonella! Logo depois que você saiu, eles mandaram a equipe da TI apagar o histórico de reservas daquela semana da 502. Disseram que era "sigilo absoluto" de um cliente de altíssimo nível.

Senti um frio na espinha. Ele era mais poderoso do que eu pensava.

— Bia, por favor — segurei a mão dela, apertando firme. — Eu estou grávida.

O impacto da minha frase a deixou sem ar.

— Grávida? Do cara da 502?

— Sim. E se eu não descobrir quem ele é, eu não vou ter como seguir em frente. Você tem acesso à recepção à noite, quando a Célia vai embora. Se você logar com a sua senha e olhar os logs de acesso antigos...

— Você quer que eu cometa um crime, Antonella! Isso é demissão por justa causa na hora, e ainda posso ser processada. O hotel tem regras rígidas de segurança.

— Eu sei — falei, mantendo o olhar firme. — Mas você sabe como a Célia trata a gente. Você sabe que ela vive te humilhando. Eu quero sair daqui, Bia. Eu só preciso de um nome. Se você conseguir isso, eu não vou te envolver em nada. Eu vou embora e nunca mais piso aqui.

A Bia ficou em silêncio por um tempo, olhando para a fachada do hotel do outro lado da rua. O medo estava escrito na cara dela, mas a revolta contra a supervisora também.

— Eu não posso entrar no sistema administrativo, é muito arriscado. Mas... o arquivo físico, aquele que a gente guardava na pasta de reservas especiais antes de digitalizar... eu sei que a Célia guardou uma cópia de segurança na gaveta dela, aquela com chave. Se eu conseguir a chave dela por dez minutos, talvez...

— Como você vai conseguir a chave?

— Ela vive deixando a bolsa aberta quando vai tomar café com o gerente geral. Se você conseguir entrar no saguão, fingindo que é cliente, e causar uma distração... eu posso pegar a chave.

Olhei para a entrada do hotel. O mesmo lugar onde eu tinha vivido os três dias mais loucos da minha vida, e onde eu tinha sido descartada como lixo.

— Quinta-feira — eu disse. — Na quinta, ela sempre vai para a reunião com o gerente às três da tarde. Eu entro lá. Você me dá o sinal.

— Antonella, se a gente for pega, você vai ser presa por invasão e eu vou perder minha carreira. Você tem certeza disso?

Eu olhei bem nos olhos dela. A Antonella que tinha medo já tinha ficado para trás.

— Eu não tenho nada a perder, Bia. O pai do meu filho é um homem poderoso, mas ele esqueceu de uma coisa: ele deixou uma marca em mim que não vai sumir tão cedo. Eu vou entrar lá. E a Célia vai pagar por cada humilhação que nos fez passar.

A Bia suspirou, derrotada, mas vi um brilho diferente no olhar dela. A gente não era mais as mesmas meninas que serviam café. A gente estava prestes a entrar em um jogo perigoso, e o hotel, aquele cenário de luxo, ia virar nosso campo de batalha.

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