Capítulo 2
Ponto de vista de Avia
Apoiei as costas na parede fria de concreto da escada, com a mão tampando a boca para não fazer nenhum som.
Respira. Só respira.
Mas eu não conseguia. Não quando a voz de Alexander continuava ecoando do patamar abaixo.
“Mira, você conhece a minha situação.” O tom dele estava baixo, quase amargo. “O médico disse que a motilidade dos meus espermatozoides é... insuficiente.”
Minhas pernas fraquejaram. Fui escorregando pela parede até ficar sentada no chão gelado, com os joelhos puxados contra o peito.
O quê?
“A culpa não é sua, Alex.” A voz de Mira era suave, tranquilizadora. “Você não pode se culpar por—”
“Mas os anciãos da alcateia vão.” Alexander a interrompeu com uma risada áspera. “Se descobrirem que eu sou infértil, eu perco tudo. A posição de herdeiro Alfa, a empresa, o respeito do meu pai... tudo.”
Afundei as unhas nas palmas das mãos. Três anos. Três anos fazendo eu me sentir como se não fosse suficiente. Como se meu corpo fosse defeituoso. Como se eu fosse o fracasso.
E o problema era ele o tempo todo.
“Foi por isso que eu tive que armar isso”, Alexander continuou. “Deixar Avia engravidar de outro homem, assumir a criança como minha. A alcateia ganha seu herdeiro, eu mantenho minha posição, e todo mundo sai feliz.”
“Menos ela”, disse Mira, mas não havia compaixão alguma em sua voz. Só... satisfação.
“Ela é um meio para um fim.” A voz de Alexander ficou fria. “Nada mais.”
Eu queria gritar. Queria descer correndo e arrancar os olhos dele. Mas meu corpo não se movia. Eu só fiquei ali, tremendo, enquanto tudo o que eu achava que sabia se despedaçava ao meu redor.
Um meio para um fim. Era só isso que eu sempre fui.
“Mas, Alex...” A voz de Mira ficou manhosa. “Você realmente nunca tocou nela, não é? Eu não suportaria se você e aquela mulher—”
“Meu Deus, não.” Alexander soou genuinamente enojado. “O máximo que eu fiz foi me esfregar nela por cima da camisola. Eu precisava fazer parecer real para ela.”
Meu estômago se revirou. Todas aquelas noites. Todos aqueles momentos humilhantes, degradantes, em que ele se pressionava contra mim, ofegante, me fazendo sentir como se eu não fosse atraente o bastante para despertar o desejo dele.
Era tudo uma encenação.
“Eu precisava que ela achasse que o problema era dela”, disse Alexander. “Assim ela ficaria desesperada o suficiente para aceitar isso. Desesperada o suficiente para fazer qualquer coisa para ‘se consertar’.”
As matrículas na academia. Os planos de dieta. As lingeries que eu comprei e que me faziam sentir barata e desesperada. Os livros sobre “como agradar seu homem” que minha mãe tinha me dado.
Tudo isso. Cada momento degradante. Planejado. Calculado. Criado para me destruir aos poucos até que eu concordasse com isso.
“Você é tão inteligente, amor.” Mira deu uma risadinha. “E quando ela tiver o bebê?”
“Então ela vai sofrer um acidente.” A voz de Alexander estava plana, prática. “Uma queda trágica da escada. Ou talvez um acidente de carro numa daquelas estradas sinuosas da montanha. Essas coisas acontecem.”
Mira arfou. “Alex—”
“O quê? Até lá ela já vai ter cumprido seu propósito. A criança fica conosco — meu herdeiro legítimo. E você e eu finalmente poderemos ficar juntos. Publicamente.”
“E os pais dela?” A voz de Mira estava mais baixa agora, incerta. “Eles não vão suspeitar de nada?”
“A alcateia Rhinehart deve cinquenta milhões à Blackcliff Corporation.” Alexander riu. “Uma palavra minha e eles vão à falência. Não vão ousar questionar nada. Vão aceitar qualquer história que eu contar e ainda ficar agradecidos por eu deixar que mantenham a empresa.”
O mundo pareceu inclinar para o lado. Meus pais. Minha família. Eles tinham me vendido porque estavam encurralados. Porque Alexander os tinha nas mãos.
Não. Não, eles escolheram isso. Escolheram salvar a si mesmos me sacrificando.
“Mal posso esperar”, disse Mira. “Assim que aquela vadia sumir, finalmente poderemos ficar juntos. Publicamente. Como deve ser.”
“Em breve, amor. Muito em breve.”
O som dos passos deles ecoou enquanto se afastavam, e só então eu finalmente me permiti respirar.
Mas o ar tinha gosto de cinzas.
Não me lembro de como cheguei à garagem. Num minuto eu estava sentada naquelas escadas geladas; no seguinte, estava agachada atrás de um pilar de concreto, o casaco apertado ao redor do corpo como se de algum jeito pudesse me manter inteira.
Não podia.
Meu corpo inteiro tremia. Não de frio. De raiva. De uma traição tão profunda que parecia que meus ossos estavam rachando.
Ele planejou isso. Tudo.
O quarto de hotel. O estranho. A humilhação. Cada detalhe foi feito para me usar, me quebrar e me jogar fora.
E meus pais. Meu Deus, meus pais.
Vi de novo o rosto da minha mãe, as lágrimas escorrendo pelas bochechas enquanto ela me implorava. Aquela dor nos olhos dela — eu tinha achado que era amor. Desespero para manter nossa família unida.
Mas talvez fosse só culpa. Culpa pelo que estavam fazendo comigo.
Por quê? Por que eles...
Cinquenta milhões. Alexander tinha dito cinquenta milhões.
Mas não podia ser só isso. Empresas reestruturavam dívidas o tempo todo. Declaravam falência e se reerguiam. Tinha que haver outra coisa. Alguma coisa que eu não sabia.
Alguma coisa que eles não estavam me contando.
Meu celular vibrou no bolso do casaco. Puxei-o com as mãos trêmulas.
Mãe: Deu tudo certo? Me liga quando puder.
Encarei a mensagem. Minha visão embaçou. Eu queria ligar para ela. Queria gritar com ela. Queria perguntar por quê — por que ela faria isso comigo?
Mas minha garganta se fechou. O celular escorregou dos meus dedos e caiu com um estalo no concreto.
E então eu não consegui respirar. Não consegui pensar. A garagem girou ao meu redor e tudo ficou escuro.
Quando acordei, eu estava no meu quarto na Propriedade Silvermoon. A luz do sol entrava pelas cortinas. Minha cabeça latejava.
Como eu vim parar aqui?
Tentei me sentar, e o quarto rodou. Havia um copo d’água na mesa de cabeceira e, ao lado dele — meu celular. A tela estava rachada de onde tinha batido no concreto.
Alguém me encontrou. Alguém me trouxe de volta.
Uma batida suave na porta. “Sra. Cross? Aqui é o Dr. Anthony. Luna Victoria pediu que eu viesse ver como a senhora está.”
Apertei a palma da mão contra a testa, tentando lembrar. A garagem. O pilar de concreto. Tudo ficando preto.
“Pode entrar”, eu disse, a voz rouca.
O Dr. Anthony entrou com a maleta médica. “Como está se sentindo? Seu motorista a encontrou desacordada na garagem do hotel ontem à noite. Ele a trouxe direto para casa.”
“Estou bem”, menti. “Eu só... fiquei tonta.”
“Luna Victoria ficou bastante preocupada.” O tom dele sugeria o contrário. “Ela quer que eu faça alguns exames.”
Certo. O check-up. Nos últimos três anos, o Dr. Anthony vinha toda semana monitorar minha saúde — temperatura, sinais vitais, o de sempre. Mas neste último mês, desde a visita da minha mãe, Victoria vinha fazendo ele aparecer todas as manhãs. Medindo minha temperatura. Fazendo perguntas invasivas sobre o meu ciclo.
E hoje, um exame de sangue.
Ele apenas assentiu e tirou o equipamento. A coleta foi rápida. Ele colocou a amostra num analisador pequeno que parecia coisa de filme de ficção científica.
Sessenta segundos. Só isso.
A máquina apitou.
As sobrancelhas do Dr. Anthony se ergueram levemente. Ele olhou para a tela, depois para mim, e de volta para a tela.
“Sra. Cross”, ele disse com cuidado. “A senhora está grávida.”
Minha mão foi até a barriga antes que eu conseguisse impedir.
Já? Só passou um dia...
Aham, tá. No mundo dos lobos, não precisávamos esperar três semanas. Nossos corpos produziam hormônios diferentes. Um simples exame de sangue conseguia detectar a concepção em vinte e quatro horas.
“Eu devo informar Luna Victoria.” O Dr. Anthony já estava se dirigindo à porta.
“Espere—”
Mas ele já tinha ido.
Fiquei sentada na cama, a mão pressionada contra o ventre. Ainda não havia nada para sentir. Nenhuma barriga. Nenhum movimento. Só... células. Se dividindo. Crescendo.
O filho de um estranho.
Não. Não de um estranho.
Fechei os olhos e o vi de novo. Aqueles olhos cinzentos. O jeito como ele me olhou quando eu entrei naquele quarto de hotel — confuso. Surpreso.
“Ela ainda não apareceu”, ele tinha dito ao telefone.
Ele estava esperando outra pessoa. Alguém que nunca veio.
E se ele também não soubesse? E se o Alexander mentiu para nós dois?
O pensamento apertou meu peito.
E se aquele homem — quem quer que fosse — tivesse sido armado, como eu? Usado e descartado. Uma ferramenta no jogo doentio do Alexander.
Meu celular vibrou na mesa de cabeceira.
Pai: Avia, é a terceira vez que eu peço. Volte para casa. AGORA.
Fitei a mensagem até minha visão embaçar.
Então digitei de volta: Eu vou.
