Capítulo 3
Ponto de vista de Avia
O motorista continuava olhando para mim pelo retrovisor. Eu sentia os olhos dele sobre mim a cada poucos segundos.
"Senhora, a senhora não parece nada bem", ele disse por fim. "Quer que eu a leve para um hospital em vez disso?"
Balancei a cabeça, pressionando a palma da mão contra o vidro frio. "Não. Pro Rhinehart Estate."
Minha mão foi até a barriga sem que eu percebesse. Lisa. Vazia. Ainda não havia nada ali, além de células se dividindo no escuro.
Eu podia acabar com isso. Uma consulta. Um procedimento. E estaria livre.
Livre de Alexander. Livre do plano doentio dele. Livre de ser usada como uma ferramenta de reprodução.
Mas só de pensar nisso minha garganta se fechava.
Livre pra ser o quê? Sozinha? Sem dinheiro? Com pais que me venderam?
"Rhinehart Estate", anunciou o motorista, parando diante dos portões de ferro.
Desci do carro. Minhas pernas pareciam fracas. Os portões se abriram automaticamente — estavam me esperando.
Claro que estavam. A terceira mensagem do meu pai não tinha sido um pedido.
Caminhei pelo caminho de pedra, passando pelas sebes aparadas e pela fonte, e empurrei a porta da frente.
E parei.
A sala de estar parecia saída de uma revista de decoração. A mesa de centro estava coberta de macarons franceses arrumados em torres perfeitas. Taças de champanhe de cristal. Uma garrafa de Dom Pérignon num balde de gelo.
Mamãe estava no centro de tudo aquilo, usando um tailleur novo da Chanel que eu nunca tinha visto antes. O rosto dela estava... radiante.
"Avia!" Ela correu na minha direção, com os braços abertos. "Você finalmente chegou!"
Dei um passo para trás. "O que está acontecendo?"
Papai surgiu de trás da lareira, com o rosto corado e sorridente. Não era a expressão desesperada e maníaca de quando ele ameaçou se matar. Isso era diferente.
Era alegria.
"Venha, sente-se", disse mamãe, praticamente me puxando para o sofá. "Temos tanta coisa para te contar."
Sentei. Minhas mãos estavam tremendo. "Vocês já sabem?"
Mamãe piscou. "Sabemos do quê, querida?"
"Sobre..." Engoli em seco. "A gravidez."
"Ah!" Mamãe acenou com a mão de forma displicente. "Sim, sim, Victoria ligou hoje de manhã. É uma notícia maravilhosa, claro. Mas, Avia, não foi por isso que pedimos que você viesse."
Meu estômago afundou. "Não foi?"
Papai riu — riu de verdade. "A gravidez já era esperada. Planejada. Isso é bom, mas hoje estamos comemorando algo muito mais importante."
Muito mais importante?
Fiquei encarando os dois. Mamãe praticamente vibrava de empolgação. Papai continuava sorrindo como se tivesse ganhado na loteria.
"O que pode ser mais importante do que—"
"Nós a encontramos", mamãe interrompeu, segurando minhas mãos. "Avia, nós a encontramos!"
"Encontraram quem?"
"Nossa filha!" Os olhos de mamãe se encheram de lágrimas. Lágrimas de felicidade. "Nossa filha de verdade! Sophia!"
O quarto girou.
"O quê?"
Papai se aproximou, tirando um documento de dentro do paletó. "Vinte e cinco anos atrás, houve uma troca no hospital. Você foi trocada ao nascer com outro bebê."
Ele me entregou o papel. Meus dedos ficaram dormentes.
Resultados do teste de parentesco por DNA
Catherine Rhinehart e Sophia [Redigido]: 99,99% de probabilidade de vínculo materno
As palavras ficaram embaçadas. Li de novo. E de novo.
"Você não é nossa filha biológica", disse papai. A voz dele era gentil. Quase apologética. "Sophia é."
Eu não conseguia respirar. Nem pensar. O documento escorregou das minhas mãos e caiu no chão.
"Onde..." Minha voz falhou. "Onde estão meus pais de verdade?"
O sorriso de mamãe vacilou por um segundo. Então voltou, brilhante e falso. "O hospital perdeu os registros, infelizmente. Ainda estamos investigando."
Investigando. Claro.
"Mas, Avia, você precisa entender..." Papai se sentou ao meu lado. "Mesmo sem laço de sangue, você faz parte desta família há vinte e cinco anos. Nós não vamos te abandonar."
Não vamos te abandonar.
As palavras deveriam ter sido reconfortantes. Não foram.
“Nós vamos cuidar de você”, meu pai continuou. “Dar dinheiro para você recomeçar. O suficiente para uma casa, um negócio, o que quer que você precise.”
Minha mãe se inclinou para a frente. Seu tailleur da Chanel farfalhou. “E sobre a situação da Alcateia Cross...”
Ela fez uma pausa. Olhou para meu pai. Alguma comunicação silenciosa passou entre os dois.
“Você já está grávida”, minha mãe disse devagar. “Então vai levar a gravidez até o fim. Vai entregar a criança à família Cross, como planejado.” A voz dela ficou fria. “Essa é a última coisa que você pode fazer pela Alcateia Rhinehart.”
A última coisa.
Minha visão se estreitou. Tudo se encaixou no lugar com uma clareza nauseante.
Eles sabiam. O tempo todo, eles sabiam que eu não era filha deles.
Era por isso que conseguiam fazer aquilo. Por isso podiam me forçar a entrar naquele quarto de hotel. Por isso podiam me vender para Alexander como se eu fosse gado.
Porque eu não era deles.
Eu era só uma ferramenta. Um útero conveniente que por acaso tinha vivido na casa deles por vinte e cinco anos.
“Avia?” A voz da minha mãe pareceu distante. “Você está ouvindo?”
Passos na escada fizeram todos nós nos virar.
Uma garota desceu. Tinha mais ou menos a minha idade. Ela tinha o cabelo castanho cacheado da minha mãe. Os olhos verdes da minha mãe. Até o jeito como se movia — gracioso, confiante — era como ver uma versão mais jovem de Catherine Rhinehart.
“Mãe, pai, eu adorei o quarto lá em cima—” Ela parou quando me viu. “Ah.”
O quarto lá em cima. O meu antigo quarto.
“Sophia!” Minha mãe se levantou de um salto, radiante. “Esta é a Avia. Aquela de quem falamos para você.”
Sophia se aproximou, estendendo a mão. “Olá. Eu sou Sophia.”
Fiquei olhando para a mão dela. Para o rosto dela. Para o jeito como minha mãe olhava para ela — como se ela fosse algo precioso. Algo amado.
Do jeito que minha mãe nunca tinha olhado para mim.
“Avia.” A voz do meu pai estava firme agora. Profissional. “Esperamos que você entenda a situação. Isso é difícil para todo mundo.”
Difícil para todo mundo.
“Mas vamos ser justos”, ele continuou. “Agora que a Alcateia Cross confirmou sua gravidez, eles liberaram a primeira parcela do pagamento. Quitaram nossas dívidas mais imediatas.” Ele sorriu de leve. “Então podemos nos dar ao luxo de ser generosos. Um milhão de dólares. Em dinheiro. Assim que você entregar a criança à família Cross, o dinheiro será seu.”
Minha mãe assentiu com entusiasmo. “Um milhão de dólares é suficiente para você fazer o que quiser. Você vai viver confortavelmente.”
Confortavelmente.
Olhei para os macarons. O champanhe. O vestido de grife de Sophia. O tailleur da Chanel da minha mãe.
Eles estavam comemorando. Comemorando por terem encontrado a filha de verdade. Comemorando por estarem se livrando de mim.
E tudo o que eu precisava fazer era ser uma boa incubadora obediente pela última vez.
Meu estômago revirou. Levantei tão rápido que o cômodo girou.
“Avia?” Minha mãe tentou me segurar. “Aonde você—”
Eu passei por ela à força. Passei pelo meu pai. Passei por Sophia com seus olhos verdes perfeitos.
Eu corri.
Pelo hall de entrada. Para fora da porta da frente. Através do gramado. Meus saltos afundavam na grama, mas eu não parei.
O jardim dos fundos. Eu precisava de ar. Precisava de espaço. Precisava—
Consegui chegar até a fonte antes de desabar. Meus joelhos bateram na borda de pedra e eu me curvei, tendo ânsia de vômito sem conseguir pôr nada para fora.
Três anos de casamento. Uma mentira.
Vinte e cinco anos de família. Uma mentira.
Tudo. Cada única coisa sobre a qual eu tinha construído minha identidade. Acabou.
Pressionei a mão contra a barriga. Ainda lisa. Ainda vazia.
Mas não por muito tempo.
Foi então que as lágrimas vieram. Quentes, rápidas e impossíveis de conter. Escorreram pelo meu queixo, pela minha mão, até o chão.
Você está sozinha, pensei. Completamente sozinha.
Mas então—
Minha palma contra a barriga. O calor da minha própria pele. A consciência de que algo estava crescendo ali. Algo que era metade eu.
Não completamente sozinha.
O bebê. O bebê daquele estranho. Essa criança que eu nunca tinha planejado, nunca tinha querido.
Era a única coisa neste mundo que era verdadeiramente, biologicamente minha.
