Capítulo 4
Ponto de vista de Avia
A viagem de carro de volta à Propriedade Silvermoon pareceu dirigir através de uma neblina. Tudo parecia igual — as mesmas ruas, os mesmos prédios —, mas nada mais parecia real.
Encostei a testa no vidro frio. Meu reflexo me encarou de volta, pálido, com os olhos vazios.
Não é a filha deles. Nunca foi.
O motorista parou na entrada principal. Desci devagar, com as pernas bambas. As portas imponentes se erguiam à minha frente, com maçanetas de ferro preto brilhando à luz da tarde.
Só chega ao seu quarto. Tranca a porta. Dá um jeito de entender isso.
Empurrei a entrada e entrei no saguão principal.
E parei.
Victoria estava sentada na sala de estar, de pernas cruzadas, uma xícara de chá equilibrada no joelho. Isabella se espreguiçava ao lado dela, rolando a tela do celular.
As duas levantaram os olhos quando eu entrei.
Os lábios de Victoria se curvaram em algo que não era bem um sorriso. “Ora, ora. Nossa futura Luna está de volta.” Os olhos dela me percorreram, registrando meu vestido amarrotado, meu rosto manchado de lágrimas. “Você está péssima. Aconteceu alguma coisa na Matilha Rhinehart?”
Meus dedos se apertaram na alça da bolsa. “Estou cansada. Quero descansar.”
Isabella pousou o celular. “Mãe, não seja tão dura.” A voz dela escorria uma doçura falsa. “Afinal, ela está carregando o herdeiro da Matilha Cross. Deveríamos ser mais cuidadosas.”
O jeito como ela disse — herdeiro — fez minha pele arrepiar.
Elas sabem. Todos sabem que eu sou só um útero para eles.
“Claro, claro.” Victoria se levantou e veio na minha direção com passos lentos e calculados. Parou bem à minha frente, perto o bastante para eu sentir o perfume dela — algo pesado e enjoativo. “Você realmente parece exausta, querida.”
Tentei passar por ela. “Com licença—”
“Ouvi uma coisa interessante hoje.” A voz de Isabella cortou o ar. “Sobre a Matilha Rhinehart ter encontrado a filha verdadeira deles. Qual era mesmo o nome dela? Sophia?”
Meu sangue virou gelo.
Os olhos de Victoria brilharam. “Ah, é mesmo?” Ela inclinou a cabeça, estudando meu rosto como se eu fosse um inseto sob vidro. “Que... infelicidade a sua. Imagino que isso signifique que você nem tem mais uma família para a qual voltar.”
As palavras acertaram como um golpe físico.
“Mas não se preocupe.” A mão de Victoria pousou no meu ombro, os dedos cravando o suficiente para doer. “Desde que você entregue esta criança em segurança, a Matilha Cross vai cuidar de você. Nós não somos sem coração.”
Cuidar de mim. Como se eu fosse um cachorro de rua que elas decidiram alimentar.
Isabella riu, um som agudo e quebradiço. “Viu, Avia? Você é tão sortuda. Mesmo sem uma família de verdade, sempre vai ter um lugar aqui.”
Minha visão embaçou nas bordas. O cômodo pareceu pequeno demais, o ar denso demais.
“Eu preciso...” Minha voz saiu rouca. “Eu preciso subir.”
“Claro que precisa.” O aperto de Victoria aumentou por um segundo antes de ela soltar. “Você está com cara de quem vai desmaiar. Não podemos ter isso, podemos? Não com uma carga preciosa a bordo.”
Virei em direção à escada. Cada passo parecia atravessar lama.
Só continua andando. Não deixa elas verem você quebrar. Não—
A porta da frente se abriu atrás de mim.
“Avia?”
A voz de Alexander.
Eu congelei, com uma mão no corrimão.
Passos cruzaram o piso de mármore. Então a mão dele estava no meu braço, me virando. “O que houve? Você está—”
“Ela acabou de voltar da casa dos pais”, Victoria interrompeu, a voz de repente quente e preocupada. “Coitadinha, parece bem abalada. Acho que ela ouviu notícias perturbadoras sobre a Matilha Rhinehart.”
Os olhos de Alexander se estreitaram. Ele olhou para a mãe, depois para Isabella, depois voltou a olhar para mim. A expressão dele mudou — suavizou.
— Mãe. Isabella. — A voz dele carregava uma ponta de autoridade. — Avia está grávida. Ela não precisa desse tipo de estresse agora.
Eu pisquei. Ele estava... me defendendo?
O sorriso de Victoria não vacilou. — Claro, querido. Só estávamos nos certificando de que ela estava bem.
— Tenho certeza de que sim. — A mão de Alexander foi para a minha lombar. — Vem. Vamos te levar lá para cima.
Ele me conduziu para longe delas, em direção ao corredor que levava à nossa ala da propriedade. O toque era gentil, o passo, comedido.
Isso não faz sentido. Por que ele está sendo gentil?
Caminhamos em silêncio até virarmos a esquina, fora do campo de visão do salão principal.
Então tudo mudou.
A mão de Alexander saiu das minhas costas. Em vez disso, ele agarrou meu pulso, com força suficiente para me arrancar um suspiro.
— Que porra foi aquela? — A voz dele era baixa, perigosa.
Eu encarei. — Do que você está falando?
— Não se faz de idiota. — Ele me puxou para mais perto, o rosto a centímetros do meu. — Você ficou lá parecendo patética na frente da minha mãe e da minha irmã. Fazendo elas acharem que eu estou te maltratando.
— Eu não... eu não disse nada...
— Nem precisava. — Os olhos dele estavam frios, sem brilho. — Você entrou lá com cara de cachorro chutado. O que você acha que isso faz eu parecer?
Meu pulso latejava sob o aperto. — Alexander, me solta...
— Você acha que eu não sei o que está fazendo? — Ele se inclinou, a voz descendo para um sussurro. — Fazendo a vítima. Tentando fazer as pessoas sentirem pena de você. Tentando me deixar mal.
Ele está falando sério? Ele realmente acredita nisso?
— Eu não estava... — Minha voz tremeu. — Eu acabei de descobrir que nem sou a verdadeira filha dos meus pais. Eles estão me substituindo por...
— Eu não me importo. — As palavras foram secas, definitivas. — Eu não me importo com o drama da sua família. Eu não me importo com os seus sentimentos. — A mão livre dele subiu, os dedos se fechando ao redor do meu queixo, me obrigando a olhar para ele. — A única coisa que importa é a criança que você está carregando. Esse é o seu valor. É para isso que você serve.
Alguma coisa dentro de mim se quebrou.
— Alexander...
— Escuta bem. — O polegar dele pressionou meu maxilar. — Meu pai ainda é o Alfa. Ele está fora a trabalho agora, o que significa que eu estou no comando. E, como herdeiro desta Matilha, eu tenho autoridade sobre você. — Ele fez uma pausa, deixando aquilo se assentar. — Quer continuar morando aqui? Continuar comendo a nossa comida? Continuar dormindo numa cama quentinha? Então você faz exatamente o que eu mandar.
Minha garganta se fechou. Eu queria revidar. Queria dizer que eu sabia do plano dele — a conversa de “fica com a criança, descarta a mãe” que eu tinha ouvido.
Mas o que isso resolveria?
Para onde eu iria? De volta para os Rhineharts, que acabaram de me dizer para parir esse bebê e sair da vida deles? Para a rua?
Eu não tinha nada. Sem família. Sem dinheiro meu. Sem lugar para fugir.
Alexander deve ter visto alguma coisa no meu rosto, porque sorriu. Não era um sorriso gentil.
— Boa garota. — Ele soltou meu queixo. — Agora, temos um lugar para ir.
— O quê?
A mão dele ainda estava enrolada no meu pulso. Ele começou a andar, me puxando junto. — Os anciãos da Matilha querem ver você.
O pânico atravessou meu corpo. — Agora? Mas eu não... eu não estou pronta...
— Pronta? — Ele riu, um som áspero. — Pronta para quê? Você fica lá. Eles te examinam. Eles confirmam que você está carregando sangue da Matilha Cross. — Ele olhou por cima do ombro para mim, os olhos frios. — Isso é tudo que você precisa fazer. Ficar parada e provar que tem a minha semente crescendo dentro de você.
A semente dele. Como se eu fosse gado sendo checado para reprodução.
