Capítulo 6

Ponto de vista de Avia

A caminhada de volta ao meu quarto pareceu mais longa do que deveria. Cada passo provocava uma dor surda nas minhas pernas. Minha cabeça ainda estava girando por causa da câmara do conselho — os olhares frios dos anciãos, o aperto de Alexander no meu pulso, o jeito como ele simplesmente... foi embora.

Como se eu não fosse nada.

Dr. Harper manteve a mão firme no meu cotovelo, me guiando pelo corredor. Ele não disse nada. Apenas caminhou ao meu lado, paciente e silencioso.

Por que ele está sendo tão cuidadoso comigo?

Chegamos à minha porta. Tentei mexer na maçaneta, mas meus dedos tremiam.

"Aqui." Dr. Harper estendeu a mão por cima do meu ombro e abriu a porta. "Vamos colocar você lá dentro."

O quarto estava exatamente como eu o tinha deixado — frio, vazio, com as cortinas completamente fechadas. A cama parecia um santuário. Eu queria desabar nela e nunca mais me levantar.

Mas Dr. Harper já estava se movendo, colocando a maleta médica sobre a mesa de cabeceira. "Preciso fazer um exame adequado agora. Longe dos anciãos."

Sentei na beirada da cama. "Eles estavam me observando como se eu fosse... gado."

"Eu sei." Ele tirou um medidor de pressão e um estetoscópio. "É por isso que preciso ter certeza de que você está realmente bem. Não só para os registros deles."

Para os registros deles. Claro. Tudo naquela casa era sobre registros, aparências, manter a imagem perfeita da Alcateia Cross.

Estendi o braço. Ele envolveu meu braço com a braçadeira, os dedos gentis, mas eficientes.

A braçadeira apertou. Afrouxou. Ele franziu a testa ao ver a leitura.

"Sua pressão está baixa demais", disse em voz baixa. "E sua frequência cardíaca está instável."

"Isso é ruim?" Minha voz saiu menor do que eu queria.

"Não é bom." Ele retirou a braçadeira e a deixou de lado. "Há quanto tempo você está se sentindo tonta?"

Pensei um pouco. "Há alguns dias? Talvez mais. Tudo tem estado... embaçado."

Ele tirou uma pequena lanterna e apontou para os meus olhos. Recuei.

"Desculpe." Ele a apagou. "Suas pupilas estão reagindo, mas você claramente está exausta. Quando foi a última vez que fez uma refeição completa?"

Uma refeição completa. Eu não conseguia me lembrar. Ontem, Victoria mandou meu almoço de volta porque "não tinha sido preparado corretamente". O café da manhã de hoje tinha sido torrada fria e chá fraco. O jantar da noite anterior—

"Eu não sei", admiti.

O maxilar de Dr. Harper se contraiu. Ele não disse nada, apenas fez uma anotação em um pequeno diário de couro.

Ele está anotando tudo. Por quê?

"Dr. Harper", eu disse devagar. "Posso perguntar uma coisa?"

Ele ergueu os olhos. "Claro."

"Eu moro aqui há três anos." Observei seu rosto com atenção. "Nunca vi o senhor antes. Se acabou de chegar a San Loris... por que os anciãos colocariam o senhor no comando de algo tão importante?"

A mão dele parou no meio da frase. Só por meio segundo. Então ele continuou escrevendo, com a expressão perfeitamente neutra.

"Fui recomendado", ele disse. "Meu mentor foi o médico pessoal da família Cross por muitos anos. Os anciãos confiam no julgamento dele."

Isso não é uma resposta.

"Onde o senhor estava antes?" Insisti. "O senhor disse Europa?"

"Londres. Eu trabalhava em uma clínica particular." Ele fechou o diário e me encarou diretamente. "Por que está perguntando, Sra. Cross?"

Porque tem alguma coisa errada. Porque o senhor apareceu do nada justamente quando eu preciso de um médico. Porque enfrentou Alexander na frente dos anciãos como se não tivesse medo nenhum dele.

"Só curiosidade", respondi. "Parece estranho que os anciãos confiem em alguém novo com... isso."

"A gravidez é importante para a Alcateia." Seu tom era cauteloso. "Eles querem o melhor cuidado possível. Meu mentor me recomendou."

Ele se levantou e foi até a janela, puxando a cortina um pouco para o lado. A luz da lua se derramou no quarto.

— Tem mais uma coisa que você deveria saber — disse ele, sem olhar para mim. — Eu ouvi os anciãos conversando. Vai haver uma Caçada de Lua Cheia daqui a três dias.

Meu estômago despencou. — Uma caçada?

— Sim. Em Firwood. — Ele se virou para me encarar. — A Matilha Cross vai celebrar a nova rodada de investimentos da Blackcliff Corporation. Todas as famílias importantes serão convidadas.

Meu Deus. A Caçada de Lua Cheia era o maior evento social da comunidade dos lobos. Era onde as matilhas exibiam seu poder, onde alianças eram feitas e desfeitas, onde toda fraqueza ficava exposta sob a luz do luar.

E eu seria exibida. Grávida, fraca, casada com um homem que me odiava.

— Eu não posso ir — eu disse. — Eu não… eu não consigo…

— Esperam que você compareça. — A voz do Dr. Harper era suave, mas firme. — Como companheira de Alexander.

Companheira. A palavra tinha gosto de cinza na minha boca.

— Eu vou desmaiar — eu disse, sem rodeios. — Você mesmo disse. Estou desnutrida. Desidratada. Instável.

— E é por isso que vou monitorar você de perto entre agora e lá. — Ele fez uma pausa. — Na verdade, eu queria te perguntar uma coisa.

Eu ergui os olhos para ele.

— Eu sou novo na Matilha Cross — disse ele. — Não tenho autorização para ir à Caçada por conta própria. Mas se você me requisitasse como sua médica particular… — Ele ajustou os óculos. — Eu poderia acompanhar você. Garantir que você esteja segura.

Por que ele quer tanto ir?

Eu observei o rosto dele. Aqueles olhos castanhos por trás dos óculos de armação dourada. O jeito contido com que ele se portava. A leve tensão nos ombros.

— Você parece bem interessado nessa Caçada — eu disse, devagar.

— Como novo membro da matilha, eu preciso criar conexões. — O sorriso dele foi educado, profissional. — E é meu trabalho manter você saudável. Não posso fazer isso se eu não estiver lá.

Ele está mentindo. Não sobre me manter saudável — essa parte parecia verdadeira. Mas havia outra coisa. Algo que ele não estava dizendo.

Os olhos dele vacilaram. Só por um instante. Um lampejo de algo urgente, quase desesperado.

Ele tem a própria agenda.

— Tudo bem — eu disse. — Você pode vir comigo.

O alívio atravessou o rosto dele tão rápido que eu quase não vi. — Obrigado, Sra. Cross.

Ele guardou a maleta médica, fechando-a com um estalo, em movimentos eficientes. — Vou providenciar para enviarem refeições adequadas para o seu quarto. Três vezes por dia, com suplementos. E eu venho ver você amanhã de manhã.

— Dr. Harper?

Ele parou na porta.

— Por que você está realmente aqui?

Por um longo momento, ele não respondeu. Apenas ficou ali, a mão na maçaneta, de costas para mim.

— Para ajudar você — disse por fim. — Só isso.

E então foi embora.

Eu me sentei na cama, encarando a porta fechada.

Ele está mentindo. Mas sobre o quê?

Eu me levantei e fui até a janela. A lua estava quase cheia, pesada e prateada no céu noturno. Lá embaixo, no jardim, eu consegui ver duas figuras.

Victoria e Isabella.

Elas estavam bem próximas, com as cabeças inclinadas numa conversa. As mãos de Victoria se moviam rápidas, gesticulando. Isabella assentia, o rosto tenso de concentração.

Então Victoria levantou o olhar.

Direto para a minha janela.

Nossos olhos se encontraram.

Ela sorriu. Frio. Cruel. Triunfante.

Isabella acompanhou o olhar dela. Quando me viu, o sorriso dela combinou com o da mãe.

Elas disseram algo uma para a outra. Riram.

Então se viraram e foram embora, desaparecendo nas sombras do jardim.

Eu me afastei da janela, o coração disparado.

Elas estão planejando alguma coisa.

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