Capítulo 8

Ponto de vista de Damon

A porta do carro se fechou atrás dela. Observei pela janela escurecida enquanto o Dr. Harper conduzia a Sra. Cross até a entrada da floresta, o vestido azul meia-noite arrastando atrás dela como tinta derramada.

O interior ainda guardava o cheiro dela. Jasmim. Almíscar branco. E alguma coisa por baixo, que fazia meu lobo se remexer de um jeito que não acontecia havia anos.

Encostei no banco de couro e fechei os olhos.

Péssima ideia.

O perfume me envolveu e, de repente, eu não estava mais no carro. Eu tinha voltado àquele quarto de hotel, encarando uma porta que acabara de se abrir sem aviso.

Oliver estava confirmando a identidade do vendedor no celular. Eu estava parado perto da janela, esperando. A fórmula do perfume Vera valia a viagem. Valia o risco de encontrar um vendedor anônimo que entrara em contato conosco por canais criptografados.

Então a porta se abriu.

Uma mulher apareceu na entrada. Cabeça baixa. Ombros tremendo. A voz, mal um sussurro.

— Eu...

Ela não terminou. Só ficou ali, paralisada, como se estivesse se obrigando a não correr.

Eu soube na hora que ela não era a vendedora. Linguagem corporal errada. Tudo errado.

Ela começou a desabotoar o casaco. Os dedos tremiam tanto que mal conseguia soltar os fechos.

Ela não parou. O casaco escorregou pelos ombros. Por baixo, uma blusa branca. Ela levou a mão aos botões também.

A blusa caiu. Pele pálida. Clavículas delicadas. E aquele cheiro me atingiu como um soco.

Meu lobo avançou. Não com agressividade. Com reconhecimento.

Companheira.

Não. Impossível. Eu não acreditava nessa merda de conto de fadas. Alma gêmea era propaganda que as famílias antigas usavam para justificar casamentos arranjados e obsessões por linhagem.

Mas meu corpo não se importava com o que eu acreditava. Cada instinto gritava para eu diminuir a distância entre nós. Para eu ficar com ela. Para eu comê-la.

Eu me forcei a continuar parado.

— Você sabe o que está fazendo?

Ela assentiu. Uma vez. Rápido. Como se estivesse com medo de perder a coragem.

Aquele gesto quebrou alguma coisa em mim.

Eu me mexi antes de conseguir pensar. Atravessei o quarto em três passadas. Segurei o pulso dela. O pulso dela martelava contra meus dedos.

Só dessa vez. Só dessa vez e eu nunca mais vou perder o controle.

A lembrança se estilhaçou. Pedaços voltaram em lampejos. O suspiro dela contra minha boca. O jeito como tremia quando eu a ergui. Os lençóis se embolando à nossa volta. Os dedos dela cravando nos meus ombros com força suficiente para deixar marcas.

Os sons que ela fazia. Meu Deus, os sons.

Eu nunca tinha perdido o controle daquele jeito. Nunca. Nem na minha primeira transformação. Eu me orgulhava da disciplina. Do punho de ferro com que eu mantinha cada impulso, cada desejo.

Mas, com ela, tudo isso se despedaçou.

Depois, eu fui direto para o chuveiro. Fiquei sob a água gelada até a pele adormecer. Não ajudou. Eu ainda conseguia sentir o cheiro dela. Ainda conseguia senti-la.

Que porra foi que eu fiz?

Quando saí, a cama estava vazia. Lençóis ainda quentes. O cheiro dela pairando no ar como um fantasma.

Ela tinha sumido.

Fui até a cama. Toquei o travesseiro onde a cabeça dela estivera. Meus dedos voltaram úmidos.

Ela tinha chorado.

A constatação me acertou com mais força do que deveria. Eu nem sabia o nome dela. Não sabia por que ela tinha ido àquele quarto. Não sabia se ela pretendia me encontrar ou encontrar outra pessoa.

Tudo o que eu sabia era que eu tinha tirado alguma coisa dela. E ela tinha ido embora antes que eu pudesse entender o quê.

Oliver foi meticuloso na investigação depois. Meticuloso até demais.

— O quarto foi reservado no nome de Alexander Cross — ele relatou, em pé no meu escritório três dias depois. — Mas os registros do hotel mostram que ele nem chegou a fazer check-in. Foi direto para a suíte presidencial.

— E a mulher?

— Sem registro. Sem uso de cartão-chave. As imagens das câmeras mostram ela chegando ao andar às nove e quarenta e sete da noite e saindo às onze e trinta e dois. Rosto parcialmente encoberto. Não dá pra identificar com clareza.

Eu encarei o print granulado. Cabelo escuro. Porte esguio. Nada distintivo o bastante para rastrear.

— O vendedor nem apareceu — Oliver continuou. — Provavelmente amarelaram. Isso tudo deve ter sido uma armadilha desde o começo.

— Provavelmente.

Oliver hesitou.

— Quer que eu vá atrás disso até o fim? Encontrar a mulher?

Eu devia ter dito sim. Devia ter rastreado até encontrá-la e exigido respostas. Descoberto por que ela tinha ido até aquele quarto. Por que tinha me olhado com aqueles olhos apavorados, desesperados, e mesmo assim assentido.

Mas eu não fiz isso.

— Não. — A palavra saiu sem emoção. Definitiva. — Ela não tem ligação com o vendedor. Deixa pra lá.

Porque o que eu diria se a encontrasse? Desculpa por eu ter perdido o controle? Desculpa por eu não ter conseguido parar? Desculpa por eu ainda sonhar com você e acordar duro e furioso?

Melhor deixá-la desaparecer. Melhor fingir que nunca aconteceu.

Só que eu não conseguia esquecer. A memória do cheiro era forte demais. Queimada no meu cérebro como uma marca a ferro.

E agora, sentado neste carro, inspirando jasmim e almíscar branco, cada lembrança enterrada voltou rugindo à tona.

Meu celular vibrou. Abri os olhos e atendi sem olhar para a tela.

— Fale.

— Alfa. — A voz do administrador da propriedade vinha apertada de pânico. — A senhorita Amelia. Ela está tendo outra crise. A equipe médica não consegue controlá-la. Ela está...

Um grito atravessou a ligação. Agudo, cru, animal. Vidro se estilhaçando ao fundo.

Meu peito se contraiu.

— Sedem ela.

— Nós tentamos. Ela está resistindo. Alfa, ela está se machucando de novo...

— Então imobilizem. — Mantive a voz estável. Fria. Mesmo que cada palavra parecesse engolir cacos de vidro. — Façam o que for preciso. Eu volto em poucas horas.

Encerrei a chamada.

Oliver me lançou um olhar pelo retrovisor, esperando.

— Prossiga como planejado — eu disse. — Vamos participar da Caçada.

Se eu não encontrar Vera, a loba da minha irmã nunca vai se curar.

A lembrança veio sem ser chamada. Quinze anos de idade. Enforca-gatos cortando meus pulsos. Fumaça enchendo meus pulmões. Amelia gritando enquanto o galpão queimava ao nosso redor.

Nós saímos. Por pouco. Mas alguma coisa na loba dela tinha quebrado naquela noite. Estilhaçado além de qualquer conserto.

A cada lua cheia, ela perdia o controle. Se transformava sem querer. Atacava qualquer um que chegasse perto. Se machucava quando não havia mais ninguém para machucar.

Os médicos chamavam de desregulação induzida por trauma. Diziam que o espírito da loba dela tinha se fraturado sob o estresse. Que talvez nunca se curasse por completo.

Mas havia uma coisa que ajudava. Uma coisa que conseguia acalmá-la quando nada mais funcionava.

O perfume de Vera.

Eu encontrara o primeiro frasco por acaso. Um presente de um associado de negócios que, de algum jeito, tinha conseguido uma das edições limitadas dela. Levei para casa, e Amelia parou no meio de um ataque no instante em que sentiu o cheiro.

Por três horas, ela ficou calma. Lúcida. Ela mesma.

Então eu tentei comprar mais. Tentei entrar em contato com Vera diretamente. Ofereci qualquer preço que ela quisesse.

Mas Vera tinha sumido. Nenhuma nova edição. Nenhuma aparição pública. Toda pista esfriava.

Até a última. Um sussurro no mercado clandestino de que a família Cross tinha conexões com ela.

Não era muita coisa. Mas era tudo o que eu tinha.

Olhei na direção da floresta. Em algum lugar lá dentro, a Caçada estava começando. Todas as Matilhas importantes estariam presentes. Inclusive a família Cross.

Inclusive a Sra. Cross, com aquele cheiro de jasmim e almíscar branco que não devia existir fora das minhas lembranças.

— Vamos entrar — eu disse.

Oliver engatou o carro.

A floresta nos engoliu por inteiro.

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