Capítulo 5

POV da Kyra

Saí e fui até o quarto. Peguei um travesseiro e uma coberta. Me virei, prestes a ir embora, quando Nathan entrou no quarto e olhou para mim.

Os feromônios de Alfa dele inundaram o ambiente antes mesmo de ele falar, aquele cheiro de menta que ele costumava usar para me acalmar.

— Acha que vai aonde? — a voz de Nathan era puro comando de Alfa, do tipo que fazia lobos inferiores se encolherem.

Virei devagar, deixando ele ver a fúria nos meus olhos verde-esmeralda. — Por que isso te importa?

— Importa porque você ainda é a minha Luna, Kyra! — os olhos castanhos dele cintilaram.

Uma risada sarcástica escapou da minha boca por causa do que ele disse. Sylvia rosnou na minha mente: “Luna? Ele não te trata como Luna desde que aquela vadia voltou.”

— De qualquer jeito, a gente vai desfazer o vínculo — encarei ele com raiva. — Ou você já esqueceu a sua preciosa companheira destinada?

O maxilar dele travou. — Kyra, você não pode simplesmente fugir assim. A gente precisa conversar sobre o problema.

— Não tem nada pra conversar — sibilei. — Você fez sua escolha quando trouxe a Sophia de volta pro nosso território.

Quando eu me mexi para sair, a mão dele disparou e a força dele me prendeu sem esforço. O toque queimou através da minha camisola fina. — Meu pai está furioso, Kyra — ele rosnou. — Ele está me acusando de trair o nosso vínculo de acasalamento.

Inclinei a cabeça, deixando meu cabelo loiro — geralmente arrumado direitinho pras reuniões da alcateia — cair bagunçado pelos ombros. — E você não traiu?

— Eu não marquei ela! — as palavras explodiram dele, cruas, ásperas. — Eu nem sequer dormi com ela, Kyra. Meu lobo nunca deixaria… não depois que a Sophia me rejeitou… não enquanto você ainda for a minha companheira escolhida.

Sylvia soltou um rosnado cruel. “Mentira. Aposto que o lobo dele tá uivando pela companheira destinada desde que ela voltou.”

— Sua companheira escolhida? — eu ri, gelada. — Um meio vínculo que você nunca completou? Aceita, Nathan. Nós dois sabemos quem o seu lobo realmente quer.

A dor nos olhos dele quase me desarmou. Quase.

— Kyra!

— Não se preocupa. Eu vou contar a verdade pros seus pais — interrompi. — Que sou eu quem está acabando com essa farsa do nosso vínculo de acasalamento.

Ele engoliu em seco e prendeu o olhar no meu. — V-Você vai fazer isso por mim?

Eu ri, sem humor. — Vou fazer por mim. Eu não vou ser a Luna patética se agarrando a um Alfa que já abandonou ela.

A mão dele avançou de novo. — Espera, Kyra…

Afastei a mão dele e lancei um olhar gelado. — O quê? Vou deixar bem claro: como a gente nunca completou o vínculo total, nem precisa de rejeição. Vou deixar os advogados da alcateia cuidarem da dissolução do nosso vínculo.

Ele abaixou o olhar e passou a língua nos lábios. Naquele instante, eu vi o homem por quem me apaixonei — vi meu melhor amigo e meu companheiro por baixo da dor e da confusão. Meu coração amoleceu.

Ele suspirou e veio na minha direção. Segurou meu pulso com cuidado e envolveu meu corpo pequeno com os braços, me dando um abraço quente e arrependido.

Senti ele beijando meu cabelo enquanto sussurrava… — Me desculpa… e-eu fui idiota de descontar em você. Eu só… tava preocupado com a Sophia. Você conhece meu pai, ele acabaria com ela.

“E o que ele tá fazendo com a gente?”, Sylvia uivou.

Apertei os olhos. Você tem medo de ela ser destruída, mas nem se preocupa que está me destruindo. Eu queria socar ele. Machucar ele, bater na cabeça dele na esperança de fazer ele acordar.

— Fica aqui, por favor. Dorme do meu lado, Kyra… — ele pediu, baixinho.

Aquilo foi a minha deixa. Empurrei ele e abracei o travesseiro com mais força. Olhei nos olhos dele e balancei a cabeça. — Não tem motivo pra gente dormir junto, Nathan. Eu vou dormir no quarto de hóspedes.

— Kyra… — ele começou, estendendo a mão mais uma vez.

Virei as costas e deixei ele no quarto principal. A cama de hóspedes tinha um cheiro parado, vazia do aroma dele. Joguei meu corpo exausto na cama. Passei a mão na bochecha, achando que eu estava chorando sem perceber de novo, mas não tinha lágrima nenhuma. Eu tô com dor, mas não tô chorando mais. Era isso que era um coração partido — quando você fica tão anestesiada que só aceita a dor? Patético. Eu me sinto afundando na autopiedade.

— Kyra… — a voz de Nathan veio junto de três batidas. A porta se abriu antes que eu pudesse responder — típico Alfa, nunca esperando permissão.

Ele entrou carregando uma bandeja de comida. Apertou os lábios e veio até mim. — Eu trouxe sua janta. Eu também esquentei. Desculpa interromper sua refeição.

Meus olhos foram para a bandeja. Ele nunca me deixava comer sozinha. Mesmo quando já estava satisfeito, ele comia comigo, principalmente se eu tivesse feito a comida.

— Para de ficar remoendo isso, Kyra! Aquelas lembranças eram só uma ilusão. Aqueles momentos foram emprestados — comentou Sylvia, com amargura.

Nathan suspirou e colocou a bandeja no criado-mudo antes de me encarar de novo.

— Minha mãe me mandou mensagem. Ela está convidando a gente pra jantar amanhã à noite. Espero que você possa ir comigo.

— Óbvio que é por nossa causa. Eles vão estranhar se eu não aparecer. E também já passou da hora de eu contar pra eles sobre essa história de rejeição.

Ele se sentou na cama e ficou olhando pro meu rosto, tentando de tudo pra encontrar meus olhos. Chegou a usar os dedos pra levantar meu queixo, obrigando nosso olhar a se cruzar. Mesmo quando ele me machuca, um toque simples, um cuidado pequeno, um olhar dele já me deixa tremendo e fraca. Uma palavra calma dele, e parece que minha ferida começa a sarar.

— Me desculpa, Kyra… Por favor, me perdoa. Eu não devia ter concordado em me casar com você desde o começo. Eu sei que eu só vou te machucar. Desculpa…

Eu escondi os punhos cerrados atrás de mim.

— Você se arrepende de ter casado comigo?

Ele balançou a cabeça.

— Eu não me arrependo de ter me casado com você. Eu fui muito feliz nesses três anos, Kyra. Do que eu me arrependo é de ter te colocado numa situação em que quem vai sair machucada é você. Você é minha melhor amiga. Eu jurei te proteger, mas, no fim, eu era quem estava te machucando.

Eu desviei o olhar. Pelo menos ele sabia que tinha responsabilidade. O vergonhoso é que ele não fazia ideia do que tinha feito comigo. Ele nem percebeu que eu tinha sentimentos por ele. Nathan achava que eu só o via como meu melhor amigo.


Todo mundo na mesa comprida do jantar estava em silêncio. Eu estava sentada ao lado de Nathan. No centro da mesa, estava o pai dele, o Alfa Richard, o antigo Alfa da Alcateia Nightfall. À frente de Nathan, estava a mãe dele, Marlene, a Luna. Phoebe, a irmã mais nova de Nathan, não estava presente hoje por causa do treinamento.

— Vamos comer primeiro — a Luna Marlene pigarreou e sorriu pra mim.

Eu devolvi com o sorriso mais doce que consegui. Ela sempre foi a sogra perfeita. Eu a respeito e vou continuar respeitando, mesmo depois de tudo isso. Ela, inclusive, é a melhor amiga do meu pai.

Começamos a comer em silêncio. Eu olhei pra Nathan quando ele começou a colocar comida no meu prato. Se eu não o conhecesse, eu acharia que ele estava fingindo, mas eu o conheço bem. Ele é cuidadoso por natureza. Ele é carinhoso por natureza.

Minha boca chegou a encher d’água quando eu vi a comida que eu costumava odiar. Eu queria muito comer, mas eu sabia que os pais do Nathan iam notar e achar estranho, então eu me contive.

O desgosto do Alfa Richard parecia encher o ambiente.

— Eu não criei um lobo desleal — ele rosnou pra Nathan.

A gente ainda estava no meio do jantar quando o Alfa Richard falou, com um toque de nojo e raiva. Ele ergueu o rosto e fulminou Nathan com o olhar.

— Você quer que a sua avó morra mais cedo? Se ela souber da sua burrice, ela pode até morrer.

— Querido… — a Luna Marlene afagou o braço do marido.

Eu engoli em seco quando vi os punhos de Nathan fechados debaixo da mesa. Eu sabia que ele tinha medo do pai desde criança. O Alfa Richard é perfeccionista. Ele é muito rígido e detesta bagunça.

— Cadê a sua coragem, Nathan? Você já é casado e mesmo assim é visto por aí com uma vadia?

Nathan ia responder, tomado pela raiva, quando eu levantei o braço, impedindo os dois. Ele está me machucando, mas eu não aguento ver ele sendo machucado. É estupidez, mas eu sei que meu coração sempre vai fazer de tudo pra protegê-lo — não só porque ele é meu companheiro, mas porque a gente era melhor amigo antes de ele se casar comigo.

— Ele não está traindo, pai.

— Não defenda ele, Kyra! — o Alfa Richard me advertiu, duro, mas eu balancei a cabeça.

— Eu quero desfazer o vínculo de companheiros, pai.

— Meu Deus! — a Luna Marlene levou a mão à boca, ofegante, e começou a chorar.

— OLHA O QUE VOCÊ FEZ, NATHAN! — o Alfa Richard gritou e deu um soco no rosto de Nathan.

— NÃO! — eu gritei e me coloquei na frente do Alfa Richard quando ele tentou atacar Nathan de novo.

— Sai da minha frente, Kyra. Eu vou ensinar uma lição pra esse moleque.

— Eu pedi isso antes mesmo de ele ser visto com a Sophia. E a Sophia é a nova modelo da empresa. Eles estavam trabalhando quando foram vistos juntos.

O Alfa Richard me encarou, a testa franzida.

— O que foi que você disse?

— Kyra… — a Luna Marlene soluçou.

Eu olhei pra ela e sorri.

— Eu amo seu filho, mãe, mas não do jeito que você quer. Ele é meu melhor amigo, e eu sinto muito por ter aceitado me casar com ele por causa da vovó. Eu quero consertar meus erros. Fui eu que quis a rejeição, então não coloquem a culpa nele.

Todo mundo ficou em silêncio depois do que eu disse. Eu encarei todos com coragem, mas ela foi se apagando aos poucos quando eu ouvi alguém atrás de mim falar:

— O que foi que você disse, Kyra?

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